Por Inglês de Sousa (1891)
Assim se passara a sua educação teológica entre a dúvida e a contradição, duas filhas do demônio, infelizmente alimentadas pela bonomia tolerante do professor, que admitia as objeções, contanto que se chamassem simples dúvidas nascidas da pouca cultura. A liberdade de discussão que lhe deixavam fortalecia-lhe a tendência revolucionária do espírito, aguçava-lhe as sutilezas da inteligência e habituava-o a procurar em todas as verdades o ponto fraco para as combater, couraçando-se de sofismas com que a vaidade buscava triunfar na argumentação, ao ponto de já lhe não ser fácil perceber claramente o lado reto e seguro duma controvérsia. E no recôndito da consciência confessava-se incapaz de afirmar qualquer preceito ou de pensar com seriedade e inteireza de ânimo.
Essa dubiedade tormentosa, causando-lhe as cruciantes dores da fraqueza consciente, levara-o a extremos de submissão servil, que lhe lembravam a mãe a adular as amantes do marido no meio de lágrimas da mais profunda tristeza. Aqueles extremos reabilitavam o seminarista aso olhos dos padres-mestres, mas no íntimo apenas cavavam mais fundo o vácuo do ceticismo, pois que era uma submissão toda aparentes, momentânea, embora sincera e de que ele se vingava, a sós consigo, no silêncio do dormitório e das noites mal dormidas, levando o arrojo da sua contradição e a ponta acerada dos seus sofismas à região das mais condenadas heresias.
Conhecera e partilhara todos os erros que contristaram e dividiram a Igreja Católica desde Orígenes até Lutero. À medida das leituras, ia-se embebendo das doutrinas mais extravagantes e dos sofismas mais grosseiros, pronto sempre a passar da verdade para o absurdo e do absurdo para a verdade, parecendo-lhe o mais intrincado tecido de disparates um sistema claro e consentâneo com a razão natural; e o mais simples preceito de moral ou de civilidade afigurava-se-lhe uma regra de convenção que a ignorância dos tempos impusera à boa fé dos pobres de espírito.
Os apetites longamente sopitados e constrangidos sob a atmosfera claustral, causavam-lhe aberrações de sentimento e obscureciam-lhe a razão que, para os enganar, adotara os sistemas mais extraordinários e as doutrinas mais imorais e anti-sociais que a loucura humana jamais concretizou numa seita religiosa.
Fora maniqueu, como Santo Agostinho, e muitas vezes censurou a este ilustre patriarca o ter-se convertido ao mistério da eucaristia, repugnante à razão esclarecida (pretensiosa ignorância!), e ter esquecido o preceito do mestre que toda a guerra é injusta e ilícita. E no isolamento da sua pobre cama de vento exalava em suspiros de inveja os ardores da paixão sensual que, sobretudo, o dominava, lamentando não ter tido, como santo, ocasião de pecar antes da conversão, atolando-se nos mistérios lúbricos e imundos com que aqueles hereges maniqueus solenizavam as vigílias de determinadas noites, renovando os horrores atribuídos aos gnósticos.
Fora milenário com S. Justino e Santo Ambrósio, e longas noites sonhara a Jerusalém de ouro, cedro e cipreste em que ele, Antônio de Morais, na companhia de Cristo e dos Santos Patriarcas, gozaria os mil anos de ventura terrena prometidos por Papias em vista da tradição e de textos expressos, que o seminarista lia, relia e meditava na convicção da verdade, antegostando as delícias dum paraíso na terra, que imaginava semelhante ao de Maomé, o árabe, com as huris muito gozadas e eternamente virgens!
Como o Dr. Cerdon, passara as sua horas de meditação a sair e entrar na ortodoxia. Acreditara na dualidade divina, como Marcion, com cuja doutrina identificara-se por uma semana inteira, ficando-lhe ainda fundos vestígios na alma e no coração dos princípios ardentes e severos desse famoso herege, bem como das vacilações e dúvidas com que lutou a sua existência inteira.
Fora místico, como o frígio Montário. Levara três dias sem escovar os dentes e sem pentear o cabelo, apesar de ser o janota do Seminário. Chegara mesmo a adotar a heresia dos valérios e dos origenistas, mas não tivera a coragem de praticar em si mutilação alguma, chegando a convencer-se de que estava em erro palmar, quando experimentara as dorezinhas agudas duma canivetada de ensaio. Nos intervalos da adoção duma e doutra heresia, voltava-se ardentemente para a ortodoxia com grandes desalentos e tentativas de disciplinar-se.
O padrinho o viera ver algumas vezes ao Seminário, em raras viagens que fazia à capital para sortir o sítio do necessário e habilitar-se a negociar com os matutos da vizinhança.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.