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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

Um dia, pela manhã, encontrou Luzia desanimada: a mãe passara mal a noite, inquieta, afrontada, como se lhe apertassem o peito ou não houvesse bastante ar respirável no estreito quarto.

— Deus não quer, filha – dizia a velha com o seio ofegante e mal articulando as palavras – Deus não quer... Seja feita a sua ... santa... vontade...

— Mãezinha tem tido isto tantas vezes – ponderava Luzia, afetando serenidade – Isto é puxado... Cheire este frasco...

— Parece que tenho ar encausado... aqui... Olha, sinto uma bola... qualquer coisa que me tapa o fôlego. Abre bem a porta... Abana-me... Se eu tomasse o vomitório de papaconha...

— Corno está, tia Zefinha? – inquiriu Alexandre, chegando à porta do quarto.

— Como quem está se acabando... Ai Jesus!... Que aflição!...

— Por que não toma aquela garrafa que o doutor receitou?...

— Tenho medo...Disse-me a Chica Seridó que tem veneno... doreto...

— Então ela sabe mais que o doutor?!... Tome, experimente...

— Ah, Alexandre; já pedi, roguei, não sei mais que fazer para mãezinha tomar a receita – observou Luzia, quase em lágrimas.

— Há de ser o que Deus for servido...

— Mas tome sempre, tia Zefinha. Faça-me esta vontade. É para seu bem...

— Enfim – concluiu a velha condescendendo – vá lá... No meu estado, só um milagre... Não quero que você diga que não o atendi antes de morrer...

E tomou uma colher da poção, administrada pela filha.

— Aqui está, na garrafa – disse Alexandre repetindo o que estava escrito no rótulo – uma colher das de sopa antes de cada refeição. Quando voltar do serviço, quero encontrar vosmecê aliviada. Adeus, Luzia! O sol já está alto. Vou andando... E eu que devia estar no armazém às seis em ponto...

Desde o dia em que foram alvo das chufas da malta de vadias, capitaneadas pela Romana, Alexandre apenas uma vez pedira a Luzia, com muitos rodeios e acanhamento, resposta à proposta de casamento. Ela, porém, nada lhe respondera, limitando-se a, com um gesto de desânimo, indicar-lhe a mãe, como se a doença dela fosse invencível obstáculo.

Ocultava ao moço, resignado, nutrido de esperanças, o haver recebido cartas de Crapiúna, qual mais apaixonada, qual mais recheada de expansões de amor, acrisolado pela resistência; todas salpicadas de alusões iradas ao outro mais afortunado, e ameaças de não poder sofrear os estos de ciúme que o devoravam, ou de acabar com a própria vida, porque para ele só havia Deus no céu e ela na terra.

Ao menino, que lhe levava as cartas, Luzia respondia invariavelmente: - Diga esse homem que me deixe sossegada, que não se meta com a minha vida! Mas, por um impulso de curiosidade, muito humano e sobretudo muito feminino, tivera a fraqueza de lê-las, o que ela considerava uma vergonha, senão crime injustificável.

Também não ousara contar a Alexandre que o soldado havia aparecido várias vezes na residência. Uma noite passava ele com o Belota e tivera o atrevimento de fazerlhe uma serenata cantando à viola, quase no terreiro da casa, modinhas e canções eróticas, que terminavam nesta saudosa endecha:

"Vou me embora, vou me embora,

Como fez a saracura;

Bateu asas, foi cantando:

Mal de amores não se cura!..."

Ouvindo-o, Luzia tremia de indignação e terror, suspirando de alívio, quando se sumiu ao longe, o pesqueiro batido, acompanhando a voz fanhosa de Belota, a cantar:

""Quem quiser ser bem-querido,

Não se mostre afeiçoado,

Que o afeto conhecido,

É sempre o mais desprezado."

— Não sei como essa gente ainda tem coragem de cantar – gemia a velha Zefa – É uma falta de coração...

Pouco depois da partida de Alexandre, prometendo voltar cedo com o doutor Helvécio Monte, surdiu o pequeno mensageiro com uma, carta, que deixou sobre o pilão, por ter Luzia recusado recebê-la. Entretanto não pôde ainda resistir à curiosidade, e reincidiu na culpa nefanda de abri-la. E leu:

"Minha Santa Luzia – Esta tem por fim unicamente, dizer-lhe que se há de arrepender da sua ingratidão e quem lhe diz isto é o seu amante fiel até a morte – Crapiúna."

— É preciso acabar com isto, custe o que custar, – murmurou a moça inflamada de cólera – Este malvado me há de desgraçar...

Passou o dia preocupada, e procurando espairecer com desvelos à mãe, mais acalmada com a poção de iodureto de potássio, o venenoso remédio, que, na opinião da Seridó, fazia apodrecerem os ossos, caírem os dentes e pôr o estômago em Carneviva, quando seria mais eficaz a purga de mel de abelha e um emplastro de sabão da terra com um pinto pisado vivo; ou com o vomitório de cardo-santo, chá de erva-doce para desempachar o ventre, e raiz de pega-pinto por causa da retenção de ourinas.

(continua...)

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