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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

À noite só deixava a porta do patrão nos sábados, para ir ao peixe frito em casa de uma mulata gorda que morava com duas filhas lá para os confins da Rua das Crioulas. Ia sempre sozinho. “Nada de troças!”

— Não tenho amigos... dizia ele constantemente, tenho apenas alguns conhecidos...

Nesses passeios levava às vezes uma garrafa de vinho do Porto ou uma lata de marmelada, e chamava a isso “fazer as suas extravagâncias”. A mulata votava-lhe grande admiração e punha nele muita confiança: dava-lhe a guardar “os seus ouros” e as suas economias. Além desta, ninguém lhe conhecia outra relação particular; uma bela manhã, porém, o “exemplar moço” aparecera incomodado e pedira ao patrão que lhe deixasse ficar aquele dia no quarto. Manuel, todo solicito pelo seu bom empregado, mandou-lhe lã o médico.

— Então, que tinha o rapaz?

— Aquilo é mais porcaria que outra coisa, respondeu o facultativo, franzindo o nariz; mas receitou, recomendando banhos momos. “Banhos! de banhos

principalmente é que ele precisava!”

E, quando viu o doente pela segunda vez, não se pôde ter, que lhe não dissesse:

— Olhe lá, meu amigo, que o asseio também faz parte do tratamento!

E acabou provando que a limpeza não era menos necessária ao corpo do que a alimentação, principalmente em um clima daqueles em que um homem esta sempre a transpirar.

Manuel foi à noite ao quarto do caixeiro. Falou-lhe com brandura paternal; lamentou-o com palavras amigáveis, e desatou um protesto, em forma de sermão contra o clima e os costumes do Brasil.

— Uma terrinha com que é preciso cuidado! Perigosa! Perigosa! dizia ele.

Aqui a gente tem a vida por um fio de cabelo!

Tratou depois, com entusiasmo, de Portugal; lembrou as boas comezainas portuguesas: “As caldeiradas d'eirozes, a orelheira de porco com feijão branco, a acorda, o caldo gordo, o famoso bacalhau do Algarve!”

— Ai! o pescado! suspirou o Dias, saudoso pela terra. Que rico pitéu!

— E os nossos figos de comadre, e as nossas castanhas assadas, e o vinho verde?

Dias escutava com água

— Ai! a terra! .

O patrão falou-lhe também das comodidades, dos ares, das frutas e por fim dos divertimentos de Lisboa, terminando por contar fatos de moléstia; casos idênticos ao do Dias; transportou-se rindo ao seu tempo de rapaz, e, já de pé, pronto para sair, bateu-lhe no ombro, carinhosamente:

— Você, homem, o que devia era casar!...

E jurou-lhe que o casamento lhe estava mesmo calhando. “O Dias, com aquele gênio e com aquele método, dava por força um bom marido!... Que se casasse, e havia de ver se não teria outra importância!...”

— Olhe! concluiu, digo-lhe agora como o doutor “Banhos! banhos, meu amigo” mas que sejam de igreja, compreende?

E, rindo com a própria pilhéria e todo cheio de sorrisos de boa intenção, saiu do quarto na ponta dos pés, cautelosamente, para que os outros caixeiros, a quem ele não dava a honra de uma visita daquelas, não lhe ouvissem as pisadas. Quando Ana Rosa acabou de cortar as unhas de Manuelzinho deu-lhe de conselho que estudasse alguma coisa; prometeu que arranjaria com o pai metê-lo em uma aula noturna de primeiras letras, e recomendou-lhe que todos os dias de manhã tomasse o seu banho debaixo da bomba do poço.

— Faça isso, que serei por você, rematou a moça, afastando-o com uma ligeira palmada na cabeça.

O menino retirou-se, muito comovido, para o andar de cima, mas o Dias, de pé, no tope da escada, esperava por ele, furioso.

— Que estava fazendo, seu traste?

— Nada, respondeu a criança, a tremer. Fora a senhora que o chamara!...

Dias, com um muno, explicou que o maroto não podia pôr-se de palestra na varanda, em vez de cuidar das obrigações.

— E se me constar, acrescentou, cada vez mais zangado, que você me toma a ir com lamúrias para o lado de D. Anica, comigo se tem de haver, Seu mariola! Vai tudo aos ouvidos do patrão!

Manuelzinho arredou-se dali, convencido de que havia praticado uma tremenda falta; no íntimo, porém, ia muito satisfeito com a idéia de que já não estava tão desamparado, e sentindo renascer-lhe, na obscura mágoa do seu desterro, um desejo alegre de continuar a viver.

A reunião em casa do Freitas esteve animada. Houve violão, cantoria, muita dança Chegaram a deitar chorado da Bahia.

Mas, pela volta da meia-noite, Ana Rosa, depois de uma valsa fora acometida de um ataque de nervos. Era o terceiro que lhe dava assim, sem mais nem menos.

Felizmente o médico, chamado a toda a pressa afiançou que aquilo não valia nada. “Distrações e bom passadio!” receitou ele, e, ao despedir-se de Manuel, segredou-lhe sorrindo:

— Se quiser dar saúde á sua filha, trate de casá-la...

— Mas o que tem ela, doutor?...

— Ora o que tem! Tem vinte anos! Está na idade de fazer o ninho! mas, enquanto não chega o casamento, ela que vá dando os seus passeios a pé. Banhos frios exercícios, bom passadio e distrações! Percebe?

(continua...)

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