Por Aluísio Azevedo (1895)
A amante, esquecendo a sua felicidade privada pelas conveniências públicas do seu amado, e tendo pouco de si mesma que arriscar, porque tudo por ele próprio já arriscou e não temendo cair em posição falsa, porque falsa já é a sua posição, é a primeira a empurrá-lo para o seu posto de honra e a instigar-lhe os brios, gritandolhe que não perca um instante e cumpra resoluto o seu dever, sejam quais forem as conseqüências.
Ele pode morrer! — Embora! Mas é preciso que vá, que se não desonre, porque, se assim acontecer, ela terá perdido de um modo mais triste ainda a sua felicidade de mulher, porque terá perdido a sua ilusão de amor, porque terá perdido moralmente o seu amante.
Que vá! Que vá! Antes morto que desonrado!
E nisto consiste a grande vantagem que leva o concubinato sobre o casamento. Se eu, em vez de uma filha, tivesse um filho, não hesitaria em aconselhar-lhe que preferisse tomar uma concubina a tomar uma esposa.
Mas, na inversão do caso; quer dizer: sob o ponto de vista do interesse da mulher, o amante será preferível ao marido?
Vejamos:
CAPÍTULO VI
À primeira vista parece que não; parece que o amante, longe de levar vantagem sobre o marido, fica-lhe muito inferior, sob o ponto de vista dos interesses da mulher. A princípio parece que um amante traz todas as desvantagens de um marido vulgar e nenhuma das vantagens morais.
Já ficou estabelecido que o marido é o escravo e que o amante é o senhor.
Mas, sob o ponto de vista dos interesses domésticos e da verdadeira felicidade privada de uma mulher, não estará justamente nesse fato de ser senhor e não escravo a superioridade do amante sobre o marido? Qual será mais apto para fazer a felicidade de uma mulher — um homem que a ame como senhor, ou um homem que a ame como escravo?
Dir-me-ão talvez que, tanto um como outro, não preenchem o ideal da mulher, e que o melhor partido é o de um homem que a ame de igual para igual.
Não. Essa igualdade é bonita, mas é impossível e, se fosse possível, seria inconveniente. A mulher, já pela sua especial constituição física e intelectual, já pelo seu natural estado de passividade, não pode em caso algum ser a igual do homem com que vive.
O raro caso da absoluta superioridade da mulher é uma anomalia que traz fatalmente o desequilíbrio no casal.
É justamente dessa desigualdade perfeita, desse contraste de aptidões físicas e morais, que nasce a sublime harmonia do amor. É com a variedade de competências e de necessidades de cada um, que os dois se completam.
Pois se até na idade e na estatura física é conveniente, para o bom equilíbrio de um casal, que haja certa inferioridade da parte da mulher! No que precisa haver identidade é no ponto de educação social e no grau de colocação na escala etnológica. E, ainda neste particular, caso não seja possível obter a igualdade, dada a circunstância de que uma das partes do casal tenha de ser, na raça ou na condição, inferior à outra, é preferível, para todas as conveniências e efeitos, que a parte inferior na raça ou na condição seja a mulher e não o homem. É mais natural e aceitável ver um branco casado com uma mulata ou um mulato com uma preta, do que ver uma branca ligada a um preto ou a um mulato; pela simples razão de que, na apuração e aperfeiçoamento da casta, a mulher só entra em concorrência como passivo auxiliar.
A mulher, regularmente constituída, não quer para sócio na procriação, nem só um indivíduo que lhe seja etnogenicamente inferior, como não quer um homem organicamente tão ou mais fraco do que ela, nem quer também um que lhe seja igual na falta de energia e de ação, mas sim quer um ente superior, que lhe sirva de firme garantia à sua fraqueza e a seu pudor; quer um homem que lhe possa dar conselhos e amparo, e, se tanto for preciso, até o próprio castigo.
Sim, o castigo. — Um bom e verdadeiro amante é sempre um pouco pai da mulher amada.
O marido, esse é que nunca é mais do que o par de sua mulher, e com ela discute de igual para igual, com ela dueliza e luta, como um sócio disputando sobre os seus interesses com o outro sócio que o quer lograr. Ela não teme desgostá-lo com as suas palavras duras e injuriosas, porque não tem receio que ele lhe fuja — o cabresto do casamento é rijo e apertado.
Desde que a mulher reconheça no amante a indispensável superioridade, não pode, como aquela, ver nele o seu escravo, mas o seu dono, o dono da sua vontade e do seu corpo; e, no passivo enternecimento de julgar-se um objeto dele, reside a sua felicidade de mulher que ama e é amada.
A mulher, creiam todos, sente prazer em reconhecer-se passiva, em ver em si um ente fraco e por isso mesmo digno de respeito; goza com sentir indispensável o apoio moral e físico do homem a quem se entregou toda inteira, toda confiante, de olhos fechados. Se ama deveras o seu concubinário, pode este fazer dela o que quiser, uma heroína de abnegação e bondade, como pode fazer o mais perverso dos facínoras. Dele tudo depende, porque nela é ele quem manda, ele é o senhor e governa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.