Por Machado de Assis (1871)
Jorge saiu da corte no fim de alguns dias, depois de ter obtido uma licença do emprego. Alegou ao pai que estava sofrendo de fraqueza e precisava de restaurar as forças. Aguiar não lhe deu muito crédito ao pretexto; mas o padre teve meio de fazer que o comendador e a mulher aceitassem as razões do filho.
— Vá, meu filho, disse o padre na véspera da partida, vejo que me ouviu e que a voz da sua consciência ainda não estava extinta.
Pobre padre! Se ele soubesse que isto era apenas uma arma! Um meio de tornar interessante o namorado repelido!
Jorge partiu.
— Diga-me cá, padre; acredita que meu filho esteja definitivamente curado?
A esta pergunta do comendador que se preparava para jogar o gamão, na noite do dia em que Jorge partira, respondeu o velho Barroso:
— Creio que sim; estava muito mal; mas o coração é bom; emendou-se; respondo por ele.
Clarinha, que naqueles últimos tempos parecia mais melancólica que de costume, quase ficou alegre com a partida do primo. A sua afeição ao marido redobrou então de intensidade, e a causa disto era mais que tudo a inalterável confiança que o médico mostrara durante os acontecimentos esboçados acima.
A moça consultou o coração; nada havia em relação ao primo.
Minto; havia alguma coisa; havia uma sombra de desgosto, uma lembrança amarga, que o coração honesto da esposa não poderia perdoar. A moça comparou a afeição respeitosa do marido, os carinhos de que a cercava, com a fria e criminosa paixão do primo, e a comparação foi toda em favor do médico.
Nestes termos estavam as coisas, quando o dr. Marques adoeceu gravemente. Desde os primeiros dias a moléstia revelou logo o seu caráter mortal. Longo foi o padecimento, talvez ainda maior no espírito de Clarinha, a quem uma voz secreta dizia que ia perder o consorte. A fim de a prepararem melhor para o golpe, foi necessário dizer-lho. Clarinha teve coragem para ouvir a verdade, mas era evidente a sua dor profunda. Aguiar e a mulher foram para lá; o padre acompanhou o enfermo com a assiduidade que lhe permitiam a sua idade e os seus trabalhos.
Um dia, porém, quando menos se esperava apareceu Jorge. Soubera da moléstia do primo, e correra a toda a pressa à corte. Foi a explicação que deu, mas não foi a verdadeira. A verdadeira era que as saudades o ralavam.
Quando chegou à cidade, soube da moléstia do médico; foi a casa, onde não achou a família; mas soube então que a situação do enfermo era grave.
Correu para lá.
O espetáculo influiu no ânimo do estróina mais do que ele pensara. Junto da cama do enfermo estava a moça, triste, mas resignada, indiferente ao que se passava em torno dela.
O doente olhou para Jorge e conheceu-o.
Estendendo-lhe a mão descarnada e trêmula, que o primo apertou, estendendo-a depois à sua prima, Clarinha não viu o gesto do moço, ou não quis amargurar a alma do doente. Este abriu nos lábios um ligeiro sorriso.
Jorge retirou-se.
A doença de Marques era mortal, como disse; os médicos davam-lhe apenas cinco ou seis dias de existência. O próprio doente conhecia o seu estado e preparava-se para morrer.
Este espetáculo, porém, por mais triste que fosse, não pôde abafar no espírito de Jorge a influência da moça. Mas então começou para ele uma sensação nova. A presença da morte como que lhe ia purificando a paixão. Ao ver a pobre esposa quase viúva, toda entregue aos cuidados de acompanhar até ao último suspiro o companheiro de sua vida; ao contemplar a dedicação e zelo com que o servia, as lágrimas silenciosas que derramava, as vigílias, as palavras de consolação, os afagos, tudo isso como que lhe acordou uma fibra adormecida do coração, e o rapaz renasceu em si a casta flor dos dezoito anos.
Algumas vezes, cabia-lhe fazer quarto ao doente, e nessas condições achou-se muita vez a sós com a prima. Ajudavam-se mutuamente nos cuidados que o enfermo exigia; mas quando este fechava os olhos para dormir, ficavam ambos silenciosos, ela com os olhos pregados no marido, ele com os olhos nela.
Não foi sem custo, ainda assim, que a moça consentiu na presença do primo; mas o tio insistiu e foi necessário ceder.
O pobre também não viu com bons olhos a presença do rapaz; mas foi este mesmo quem lhe disse, logo no dia seguinte àquele em que chegara:
— Há de reparar na minha estada aqui.
— Sim, disse o padre.
— Juro-lhe que...
— Não jure nada, tornou o padre; respeite a morte; é só o que lhe peço. A última hora chegou enfim. Marques expirou nos braços da esposa. O desespero e as lágrimas da mísera viúva faziam cortar o coração; todos tiveram força para consolá-la; Jorge não a teve; saiu da casa e só voltou no dia seguinte.
X
O CAMINHO DE DAMASCO
Três meses depois, estando o padre Barroso em casa apareceu-lhe Jorge. Vinha alegre e respeitoso como nunca.
— Sr. padre, disse ele; venho alegre, e posso ir daqui triste. Tudo depende do senhor.
— De mim?
— Do senhor.
— Vejamos.
Jorge sentou-se.
— Disse-lhe uma vez, começou ele, que estava curado das minhas loucuras.
— É verdade.
— Mentia.
— Fez mal.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O caminho de Damasco. Jornal das Famílias, 1871.