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#Romances#Literatura Brasileira

O Homem

Por Aluísio Azevedo (1887)

Entre os novos arrebanhados, apareceu o Sr. Comendador José Furtado da Rocha, velhote bem disposto, orçando pelos cinqüenta, mas dando tinta ao cabelo e escanhoando-se com muita perfeição. Era português, e havia-se opulentado no comércio, onde principiara brunindo pesos e balanças. Magdá aceitou-lhe a corte quase por brincadeira, a rir; ou talvez para não contrariar o pai, que se mostrava muito afeiçoado por ele; ou, quem sabe? talvez ainda na esperança de ver surgir de um momento para outro novo pretendente.

O velho parecia adorá-la e falava, com meias palavras e sorrisos de misteriosa intenção, em arranjar títulos, deixar palácio, correr a Europa inteira e comprar objetos de arte.

Um ajo! Mas, quando o Conselheiro, em nome do amigo, perguntou à filha se estava resolvida a casar com ele, Magdá sorriu, espreguiçou-se e, afinal, para não deixar o pai sem resposta, tartamudeou:

— Não digo que não, mas... sabe?... é cedo para decidir... Havemos de ver! havemos de ver!...

Três meses depois, o Comendador, já desenganado, casava-se em São Paulo com uma viúva ainda moça, professora de piano.

Apresentou-se então, solicitando a mão de Magdá, p Dr. Tolentino. Não tinha a metade do dinheiro do outro, mas em compensação era muito mais novo. Muito mais! E com um belo prestígio de homem de talento e um futurão na advocacia, se os seus pulmões lho permitissem.

Sim senhor, porque o Dr. Tolentino não gozava boa saúde. Era ainda jovem e parecia velho; extremamente magro, vergado, um pouco giboso, olhos fundos, faces cavadas, cabelo pobre e uma tosse de a cada instante. Todo ele respirava longas noites de estudo, sobre grossos livros de direito ou defronte das carunchosas pilhas dos autos; todo ele estava a pedir, com seu magro pescocinho, um longo cache-nez bem quente, e as suas mãos, extensas e magras, queriam luvas de lã; e os seus pés, longos e espalmados, exigiam sapatos de borracha. Não produzia lá muito bom efeito o vê-lo assim desmalmado, muito comprido dentro da sua sobrecasaca abotoada de cima a baixo, olhando tristemente para a vida por detrás dos seus óculos de míope.

Muito bom efeito — não, não produzia; mas também não produzia muito mau, graças à delicadeza dos seus gestos e à expressão inteligente do seu rosto cor de palha de milho. Cheirava a doença; mas, palavra de honra, falava que nem o José Bonifácio.

Não! definitivamente merecia a fama de homem ilustre!

O seu namoro à filha do Conselheiro foi calmo, correto e persistente. Porém inútil: Magdá, depois de muita negaça, muita hesitação e muito constrangimento, resolveu não o aceitar.

Já lá se ia entretanto quase que meio ano depois do primeiro ataque, e ela começava a torcer o nariz à comida, a fazer-se mais magra, mais irritável e mais sujeita a sobressaltos nervosos.

Abatia.

O drama, a música triste, o romance amoroso, provocavam-lhe agora um choro, que principiava pelas simples lágrimas e acabava sempre em convulsivos. Ao depois — aí estavam as pontadas no alto da cabeça, o embrulhamento do estômago, os terrores infundados, o exagero de todos os seus atos e em estranho desassossego do corpo e do espírito, que a fazia andar inquieta por toda a casa sem parar três segundos no mesmo ponto.

— Temo-la travada! Exclamava o seu médico; até que, uma ocasião, avançando furioso de punho fechado contra o Conselheiro, gritou-lhe, cerrando os dentes e arreganhando-os: — Que diabo, homem! casa esta pobre rapariga, seja lá com quem for!

— É boa! Respondeu o outro! — Ainda mais esta!... Pois você acha que, se houvesse aparecido com quem, eu já não a teria casado?

— Ora o que, meu amigo! As minhas observações não me enganam: ela tem qualquer amor contrariado, que não me confessa; e você com certeza sabe de tudo e cala o bico por conveniência... É que para o sujeito, naturalmente, é um tipo sem eira nem beira!... Ah! Eu compreendo estas coisas... mas, em todo o caso, fique sabendo para o seu governo que você está mas é preparando uma doida de primeira ordem! Ora aí tem!

O Conselheiro deu a sua palavra que não sabia de nada, e afirmou em boa fé que a filha não tinha namoro oculto, nem claro; se o tivera, já ele o houvera descoberto.

— Pois se não tem, é preciso arranjá-lo e arranjá-lo já!

Surgiu então o Conde do Valado.

Trinta a trinta e cinco anos. Elegante, louro, meio calvo, barba rente espetando no queixo em duas pontas de saca-rolha; olho azul, monóculo, o esquerdo sempre fechado; uma ferradura de ouro guarnecida de pequeninos brilhantes, na gravata, que também era toda sarapintada de ferraduras; luvas de pele da Suécia com três riscões negros em cima; sapatos ingleses, mostrando meias de cor, onde havia ainda pequenas ferraduras bordadas a seda.

(continua...)

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