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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

Defronte daquele pequeno Deus, ninguém seria capaz de levantar a voz. Teobaldo vivia entre os seus parentes como um príncipe no meio da sua corte; o pai, a mãe, uma irmã desta, que agora a acompanhava, todos pareciam apostados em merecer-lhe as graças em troca de amor e submissão.

Pode-se, pois, facilmente calcular qual não seria a comoção de Emílio ao ver o filho, quando o foi buscar nas férias, depois de tantos meses de ausência.

Teobaldo! exclamou o barão, correndo para ele de braços abertos.

O menino saltou-lhe ao pescoço e deixou-se beijar, enquanto perguntava pelos de casa.

E depois, a queixar-se:

- Ora! prometeste que virias visitar-me, e nem uma vez!...

- Não pude abandonar a fazenda um só dia durante o ano! Aquilo por lá tem sido o diabo!...

Ia continuar, mas interrompeu-se para dizer ao filho:

- Anda daí rapaz! Mexe-te, que, ao contrário chegaremos muito tarde!. .. Vamos! Eu te ajudo preparar a mala. Onde é o teu quarto?

Teobaldo tomou de carreira a direção do dormitório e o pai acompanhou-o, a mexer com todos os pequenos que encontrava no caminho.

- Quem é o tal André, de que falas tu nas cartas com tanta insistência? perguntou ao filho, enquanto este emalava a sua roupa.

- Ah! o Coruja? É o meu amigo; mostro-to já; espera ai.E, quando atravessavam o salão, já com a mala pronta, Teobaldo exclamou, puxando o braço do pai:

- Olha! É aquele! Aquele que está ao lado do diretor.

- E aquele padre, quem é? Aquele que conversa com o Dr. Mosquito?- Deve ser o tutor de André.

- O tutor?

- Sim, porque André já não tem pai, nem mãe; foi o vigário quem tornou conta dele e quem o meteu no colégio.

- E agora veio buscá-lo e leva-o para casa durante as férias?...

- Talvez não. Já o ano passado, deixou-o ficar aqui sozinho com os criados.

- Mas pode ser que desta vez não aconteça o mesmo...

Emílio foi, porém, convencido logo do contrário pelo que ouviu entre o diretor e o padre, cujo diálogo ia se esquentando a ponto de lhe chegar perfeitamente ao ouvidos.

- Abuso?... exclamava o vigário. Não vejo onde esteja o abuso!

- Pois não! replicava o diretor. Pois não! V Revma. vem ter comigo e pede-me que tome conta de seu pupilo pela metade do que recebo pelos outros alunos; eu consenti, consenti, porque sabia que o pobre menino não tem outra proteção além da sua... Pois bem! chegam as férias; o senhor não manda buscar, o que é sempre um inconveniente para um estabelecimento desta ordem, e...

- Não sei porque.. . interrompeu o padre.

- Sei eu, gritou o diretor. E a prova, olhe, é que tencionava fazer pelas férias um passeio àcorte com minha família, e não fiz!...

- Sim, mas o senhor, naturalmente, não foi detido só por este...

- Engana-se; seu pupilo foi o único aluno que ficou no colégio durante as férias!

- Não é culpa minha!

- De acordo e não é disso que faço questão. Deixa-me continuar...

- Pode continuar.

- Como dizia: o senhor, não satisfeito com o abatimento que lhe fiz durante o ano inteiro, pediu-me ainda que lhe fizesse um novo abatimento durante as férias. Permita que lhe diga: o que V. Rev.ma pagou não deu sequer para as comedorias, porque não é com tão pouco que se alimenta aquele rapaz! Não imagina que apetite tem ele!

André, ao ouvir esta acusação, abaixou o rosto, envergonhado como um criminoso, e pôsse a roer as unhas, sentindo sobre si o olhar colérico do padre, que o media da cabeça aos pés.

- Pois bem! prosseguiu o diretor; chegam de novo as férias e, quando estou resolvido a remeter-lhe o menino, vem o senhor e diz que desta vez não pode pagar tanto como das outras!... Ora! há de V. Rev.ma convir que isto não tem jeito!

- Seria uma obra de caridade!... objetou o padre.

- Sim, mas eu já fiz o que pude...

- Pois vá! Pagarei o mesmo que nas férias do ano passado.

- Não, senhor, não serve! V. Rev.ma leva o menino e, se quiser, pode apresentar-mo de novo em Janeiro. De outra forma não!

- Tenho então de levar o pequeno comigo? exclamou o padre, fazendo-se vermelho.

- De certo, respondeu o diretor sem hesitar. As férias Inventaram-se para descanso e eu não posso fica tranqüilo, sabendo que há um aluno em casa. Dá-me mesmo trabalho que me dariam vinte! Não! Não.

- Mas, doutor!.

- Não, não quero! É um cuidado constante. Retiram-se todos os empregados e fica aí o menino só com o servente; de um momento para outro, uma travessura, uma tolice de criança, pode ocasionar qualquer desgraça, e serei eu por ela o único responsável! Não quero!

- E se eu pagar o mesmo que pago durante ano? perguntou o reverendo já impaciente e cada vez mais vermelho.

- Nem assim.

- Nem assim? E quanto é preciso então que eu pague?

- Nada, porque estou resolvido a não aceitar.

- De sorte que eu tenho por força de levar o pequeno?...

- Fatalmente.

- Pois então, pílulas! exclamou o padre, deixando transbordar de todo a cólera; pílulas!

E, voltando-se para o Coruja:

- Vá! vá fazer a trouxa e avie-se!

O Coruja afastou-se tristemente enquanto o padre resmungava: Peste! só me serve para me dar maçadas e fazer-me gastar o que não posso!

(continua...)

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