Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Almada

Por Machado de Assis (1858)

.......................................................

.......................................................

.......................................................

O terrível Cardoso. Traz fechado

Na esquerda mão o singular decreto;

Com um gesto solene o desenrola,

Tosse, escarra, compõe a voz e o rosto,

E o venerando anátema lhe lança.

IV

Do longo espanto o fulminado Mustre

Enfim voltou; os olhos pela estrada

Desvairados estende; à casa torna

Apressado; braceja, grita, ordena

Que o padre chamem; quatro escravos correm

E voltam sem mais novas do Cardoso

Que veloz se tornara ao grande Almada

Da triunfante missão a dar-lhe conta.

V

Já trêmulo de raiva, já de susto,

O magistrado fica;. ora calado

Algum tempo rumina; ora soltando

Descompassadas vozes e suspiros,

Atônito percorre a casa inteira.,

Vagamente cogita uma vingança

Contra o duro rival; mas logo a triste

Realidade o coração lhe afrouxa.

A fantasia pinta-lhe o desprezo

Dos devotos sinceros, a medonha,

A dura solidão da vida sua,

O fugir dos amigos, os estranhos

Que por trás uma cruz fazendo nele,

Mais sozinho na terra vão deixá-lo

Do que em praia deserta ingrato dono

Deixa um triste cavalo moribundo.

Ora pensa em fugir; ora em prostrar-se

Do sagrado pastor aos pés, rendido.

Enleia-se, vacila, nada escolhe,

E nesta triste, miserável vida,

Entre sonhos visões, medos e angústias,

Passa o duro ouvidor três horas longas.

VI

Enfim ceder a Almada determina,

A devassa entregar-lhe, assentar pazes,

Comprar com pouco a salvação eterna,

Uma esperança ao menos. Manda logo

À casa do escrivão que ali lhe traga

A famosa devassa, que enviada

De véspera lhe fora, e todo aflito

De sala em sala passeando espera.

VII

Mas a terrível Ira que perdia

Deste modo a campanha começada,

Pois no seio da paz de novo entrando,

Todo seria da Preguiça e Gula

O grão pastor da igreja fluminense,

Entra na pele do escrivão Ramalho

E à casa vai do esmorecido Mustre.

Este, apenas lobriga da janela

O fiel serventuário, e nenhum rolo

Lhe descobre nas mãos, trêmulo fica

E outra vez assustado ao portão desce;

A tempo que o Ramalho, mais risonho

Que um céu azul, que um dia de noivado,

Apressado chegava e lhe dizia:

- “Senhor, matai-me embora! Não vos trago

A devassa pedida, que acho injúria

Ao finíssimo sangue que vos corre

Nessas honradas veias, ao respeito

Em que há muito vos tem el-rei e a corte,

Abaixar-vos aos pés de um vão prelado,

E rojar-vos fio pó da sacristia”.

VIII

Disse, e nas amplas ventas inserindo

Do recente rapé duas pitadas,

Foi por este teor desenrolando

Mil razões, mil inchados argumentos,

Com que em todas as eras deste mundo

Um naire ilustre convencer se deixa.

IX

“Eu bem sei (convencido lhe responde

O ouvidor), eu bem sei que fora triste

Que um preclaro varão da minha estofa,

Cujo nome não ouve o delinqüente

Sem desmaiar de susto, e que este povo

Respeitoso contempla, na baixeza

Caísse de ir ao pés de um vão prelado

E rojar-se no pó da sacristia.

Mas, meu caro Ramalho, que recurso

Nesta vida me resta? Tu não sabes

Que de mim vai fugir a gente toda?

Que eu vou ser o leproso da cidade?

Que meirinhos, beatas, algibebes,

E quem sabe se até os cães vadios,

Que à sumida barriga andam de noite

Pelas ruas catando algum sustento,

Tudo vai desprezar-me? Bom aviso

Quando falha a vitória na batalha,

É ceder às falanges do inimigo,

E preparar uma futura guerra”.

X

O mofino ouvidor assim falando,

Com apuro a vestir-se principia,

Uma arenga compondo de cabeça

Em que do seu pecado arrependido

Claramente se mostre, quando a Ira

Ao Ramalho sugere este conselho:

“Salvo, salvo senhor é salvo tudo!

Conhecido vos é como o Senado,

Em luta coo pastor da nossa igreja,

Dele tem recebido tanta injúria,

E em risco está de semelhante pena.

Procurai-o, senhor, e com protesto,

Em nome da coroa e da justiça,

O negócio deponde. Deste modo

A muitos caberá toda essa afronta

E mais certa será nossa vitória”.

XI

Aceita foi a salvadora idéia.

Saem ambos os dous no mesmo instante,

Voam, chegam à casa do Senado,

E na sala penetram. Conversavam

Justamente do caso os camaristas.

E, na pele mordendo do prelado,

Receavam talvez igual destino

Ao do fero ouvidor, se no conflito,

Que há muito trazem com o grande Almada

O jus do povo defender quiserem,

Quando na sala entrando furioso

A sua excomunhão refere o Mustre,

E lhes pede em defesa da coroa

O braço popular. Todo o congresso

Gelado fica. Súbito as cadeiras

Pela terra deitando, às portas correm

Os graves camaristas, e fugindo

Ao mísero ouvidor excomungado,

Para casa se lançam. Da pedreira,

Lançado o fogo à mina, a toda a pressa

Da mesma sorte os cavouqueiros fogem

Receosos de avulsos estilhaços.

XII

Em vão a Ira, com diversas formas,

A todos busca, e amaciando a fala,

A lembrança do afeto lhes desperta,

Os jantares comidos noutro tempo,

Os festivos saraus, cartas de empenho,

Mil finezas, em suma, sepultadas

No vasto cemitério da memória...

A filha do diabo então sacode

Irritada a cabeça, e do mais fundo

Das entranhas um grito de ameaça

E frio escárnio solta: “Homens! (exclama)

Lacaios da fortuna! Eu terei armas

Com que de ingratos corações triunfe!”

XIII

Isto dizendo, mais ligeira voa

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1011121314...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →