Por Machado de Assis (1858)
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O terrível Cardoso. Traz fechado
Na esquerda mão o singular decreto;
Com um gesto solene o desenrola,
Tosse, escarra, compõe a voz e o rosto,
E o venerando anátema lhe lança.
IV
Do longo espanto o fulminado Mustre
Enfim voltou; os olhos pela estrada
Desvairados estende; à casa torna
Apressado; braceja, grita, ordena
Que o padre chamem; quatro escravos correm
E voltam sem mais novas do Cardoso
Que veloz se tornara ao grande Almada
Da triunfante missão a dar-lhe conta.
V
Já trêmulo de raiva, já de susto,
O magistrado fica;. ora calado
Algum tempo rumina; ora soltando
Descompassadas vozes e suspiros,
Atônito percorre a casa inteira.,
Vagamente cogita uma vingança
Contra o duro rival; mas logo a triste
Realidade o coração lhe afrouxa.
A fantasia pinta-lhe o desprezo
Dos devotos sinceros, a medonha,
A dura solidão da vida sua,
O fugir dos amigos, os estranhos
Que por trás uma cruz fazendo nele,
Mais sozinho na terra vão deixá-lo
Do que em praia deserta ingrato dono
Deixa um triste cavalo moribundo.
Ora pensa em fugir; ora em prostrar-se
Do sagrado pastor aos pés, rendido.
Enleia-se, vacila, nada escolhe,
E nesta triste, miserável vida,
Entre sonhos visões, medos e angústias,
Passa o duro ouvidor três horas longas.
VI
Enfim ceder a Almada determina,
A devassa entregar-lhe, assentar pazes,
Comprar com pouco a salvação eterna,
Uma esperança ao menos. Manda logo
À casa do escrivão que ali lhe traga
A famosa devassa, que enviada
De véspera lhe fora, e todo aflito
De sala em sala passeando espera.
VII
Mas a terrível Ira que perdia
Deste modo a campanha começada,
Pois no seio da paz de novo entrando,
Todo seria da Preguiça e Gula
O grão pastor da igreja fluminense,
Entra na pele do escrivão Ramalho
E à casa vai do esmorecido Mustre.
Este, apenas lobriga da janela
O fiel serventuário, e nenhum rolo
Lhe descobre nas mãos, trêmulo fica
E outra vez assustado ao portão desce;
A tempo que o Ramalho, mais risonho
Que um céu azul, que um dia de noivado,
Apressado chegava e lhe dizia:
- “Senhor, matai-me embora! Não vos trago
A devassa pedida, que acho injúria
Ao finíssimo sangue que vos corre
Nessas honradas veias, ao respeito
Em que há muito vos tem el-rei e a corte,
Abaixar-vos aos pés de um vão prelado,
E rojar-vos fio pó da sacristia”.
VIII
Disse, e nas amplas ventas inserindo
Do recente rapé duas pitadas,
Foi por este teor desenrolando
Mil razões, mil inchados argumentos,
Com que em todas as eras deste mundo
Um naire ilustre convencer se deixa.
IX
“Eu bem sei (convencido lhe responde
O ouvidor), eu bem sei que fora triste
Que um preclaro varão da minha estofa,
Cujo nome não ouve o delinqüente
Sem desmaiar de susto, e que este povo
Respeitoso contempla, na baixeza
Caísse de ir ao pés de um vão prelado
E rojar-se no pó da sacristia.
Mas, meu caro Ramalho, que recurso
Nesta vida me resta? Tu não sabes
Que de mim vai fugir a gente toda?
Que eu vou ser o leproso da cidade?
Que meirinhos, beatas, algibebes,
E quem sabe se até os cães vadios,
Que à sumida barriga andam de noite
Pelas ruas catando algum sustento,
Tudo vai desprezar-me? Bom aviso
Quando falha a vitória na batalha,
É ceder às falanges do inimigo,
E preparar uma futura guerra”.
X
O mofino ouvidor assim falando,
Com apuro a vestir-se principia,
Uma arenga compondo de cabeça
Em que do seu pecado arrependido
Claramente se mostre, quando a Ira
Ao Ramalho sugere este conselho:
“Salvo, salvo senhor é salvo tudo!
Conhecido vos é como o Senado,
Em luta coo pastor da nossa igreja,
Dele tem recebido tanta injúria,
E em risco está de semelhante pena.
Procurai-o, senhor, e com protesto,
Em nome da coroa e da justiça,
O negócio deponde. Deste modo
A muitos caberá toda essa afronta
E mais certa será nossa vitória”.
XI
Aceita foi a salvadora idéia.
Saem ambos os dous no mesmo instante,
Voam, chegam à casa do Senado,
E na sala penetram. Conversavam
Justamente do caso os camaristas.
E, na pele mordendo do prelado,
Receavam talvez igual destino
Ao do fero ouvidor, se no conflito,
Que há muito trazem com o grande Almada
O jus do povo defender quiserem,
Quando na sala entrando furioso
A sua excomunhão refere o Mustre,
E lhes pede em defesa da coroa
O braço popular. Todo o congresso
Gelado fica. Súbito as cadeiras
Pela terra deitando, às portas correm
Os graves camaristas, e fugindo
Ao mísero ouvidor excomungado,
Para casa se lançam. Da pedreira,
Lançado o fogo à mina, a toda a pressa
Da mesma sorte os cavouqueiros fogem
Receosos de avulsos estilhaços.
XII
Em vão a Ira, com diversas formas,
A todos busca, e amaciando a fala,
A lembrança do afeto lhes desperta,
Os jantares comidos noutro tempo,
Os festivos saraus, cartas de empenho,
Mil finezas, em suma, sepultadas
No vasto cemitério da memória...
A filha do diabo então sacode
Irritada a cabeça, e do mais fundo
Das entranhas um grito de ameaça
E frio escárnio solta: “Homens! (exclama)
Lacaios da fortuna! Eu terei armas
Com que de ingratos corações triunfe!”
XIII
Isto dizendo, mais ligeira voa
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O Almada. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1858.