Por Aluísio Azevedo (1884)
Chegado que fui a casa, em companhia do ressuscitado, disse a este que entrasse, acendi duas velas, ofereci-lhe uma cadeira e dispunha-me a ouvir com toda a atenção o fio de sua narrativa, quando ele me observou que estava a cair de fome e precisava refazer as forças com duas ou três costeletas antes de principiar de novo o diálogo.
“ Isso agora é que é o diabo!” - disse eu comigo, lembrando-me de que, depois que minha mulher abandonara aquela casa, nunca mais se acendera o fogão.
O ressuscitado, como se adivinhasse o meu pensamento, lembrou que fôssemos cear a um restaurante.
- Não - respondi eu -, é melhor ficarmos aqui. Temos de conversar longamente e precisamos para isso de toda a liberdade. Eu me encarrego de arranjar o que comer, é um instante! Fique o amigo à minha espera; não me demorarei muito. E, antes que ele apresentasse alguma objeção, saí gritando-lhe:
- Até logo.
- Veja se não se demora, hein? Tenho o estômago a gemer.
Saí de casa, meti-me no carro que havíamos deixado à porta, e fui comprar, ao primeiro hotel que encontrei, o necessário para uma ceia.
- Trouxe vinho? - perguntou-me o hóspede, logo que me viu voltar.
- Trouxe.
- Quantas garrafas?
- Duas.
- É pouco.
- Pouco?
- Decerto. Uma garrafa de vinho não chega para nada!...
- Mas eu trouxe duas...
- Uma não se conta!
- Não compreendo!
- São teorias do meu educador. E desculpe não entrar por enquanto em maiores explicações, porque já não me posso ter de fraqueza.
Dizendo isto, o meu singular hóspede havia já desembrulhado a cesta dos comestíveis, e tirava de dentro o conteúdo, exclamando a cada peça:
- Bravo! Um frango assado! - Um pedaço de roast-beef, esplêndido! - Ostras de forno, magnífico!
- Queijo de Minas, soberbo! - Pastéis de camarão, divino! - Uma lingüiça, ótimo!
- Creio que chega - disse eu.
- Pelo menos remedeia - afiançou o ressuscitado, atirando para longe o chapéu e cravando os dentes no frango. - O amigo algum dia já passou meia semana sem comer? — perguntou-me ele.
- Não me lembro.
- Pois aqui está quem já atravessou uma semana inteira, sem meter para a boca um grão de arroz. Tenho curtido muito boa fome nesta heróica Cidade de São Sebastião. Aqui onde me vê, conheço todas ai delícias da miséria!
- Ninguém o diria, atendendo para esse bom humor de que dispõe o amigo.
- Ah! Mas é que eu encaro o mundo de um ponto de vista muito filosófico. Não me preocupo absolutamente com a vida, nem com a morte. Que m‘importa a mim que as cousas corram deste ou daquele modo? Que m‘importa que chova ou que faça frio? Acaso desejo conservar a existência?
- O senhor é um homem singular!...
- Não, sou apenas um indiferente, sou uma sombra! Sei que nada valemos, sei que tudo isto que nos cerca desaparecerá dentro de certo tempo, sei que nós todos vivemos para cumprir uma lei indefectível da natureza, e deixo-me por conseguinte governar como um verdadeiro instrumento. Não tenho vontades, não tenho querer. Aceito a vida, aceito os fatos, sejam eles quais forem, sem lhes perguntar donde vieram, que significam ou qual o fim a que se destinam. Que diabo me pode suceder com este sistema? - A morte? – Puff! estou me ninando para ela! — O descrédito? Mas que diabo vem a ser isso? Não aspiro posição alguma na sociedade, não pretendo nada de meus semelhantes; vivo, porque assim o determinaram os mistérios da criação; não me mato, porque seria uma maçada, e deixo correrem as cousas como elas bem entendam!
- Mas a sua filosofia não o impedirá de sofrer física e moralmente, quando for acometido por alguma dor...
- Dor?
- Então, também nega a dor?
- Decerto. Sofrem apenas os que desejam sofrer.
Ora essa! Então se eu lhe pisar o melhor calo, o senhor não dá por isso?
- Pode ser que sinta a pressão do seu pé sobre o dedo em que se acha o calo, mas jurolhe que não experimentarei com isso impressão mais agradável ou desagradável do que se me dessem um beijo.
- Então por que exigiu o senhor que eu fosse buscar isso com que está se regalando? Se a fome não o incomodava, para que satisfazê-la?
- Porque ela assim o quer; isso não é comigo, é com o meu estomago, que funciona por conta própria, sem me consultar absolutamente. Apenas o que eu faço é auxiliá-lo, emprestando-lhe outros membros e outros órgão. Por exemplo.
E tomou um pastel de sobre a mesa:
- O estomago deseja este pastel, para quê - não sei, nem quero saber, mas precisa dele e reclama-o. Eu, que faço? Agarro no pastel. levo-o à boca...
E, mastigando:
- Mastigo-o... Engulo-o e agora cada um que se arranje!
- E se o senhor não tivesse o pastel à mão?
- Teria outra coisa. Se não fosse hoje, amanhã ou depois ou daqui a oito dias. Com a diferença, porém, que daqui a oito dias, se não me aparecesse um pastel, ou cousa semelhante, lançar-me-ia às orelhas do primeiro cidadão que me passasse ao alcance dos dentes.
- Bem - observei, já farto de ouvir as extravagantes teorias do meu ressuscitado. - Deixemos por ora a sua filosofia e vamos tratar do que nos interessa.
- A mim nada interessa - atalhou ele.
- Perdão, mas não se trata só do senhor.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Mattos, Malta ou Matta? Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1725 . Acesso em: 15 mar. 2026.