Por Aluísio Azevedo (1882)
— De que espécie de interesses fala o senhor?
— Dos interesses pecuniários.
— Absolutamente, respondeu Júlia com um gesto de impaciência.
— E quais são os seus interesses em que ela se acha implicada? Sim! Visto ter a senhora, quando lhe falei dos interesses pecuniários, lembrando outros, é porque...
Referia-me aos interesses de meu coração, de minha felicidade!
— Ah!
— Posso dizê-lo abertamente, porque sou livre e senhora de minhas ações; peço-lhe todavia que não insista nesse terreno... Há certas coisas na existência de uma mulher, que lhe não poderiam ser arrancadas do coração sem um grande abalo do pudor, ou talvez de dignidade!...
— Compreendo perfeitamente, respondeu o chefe de polícia, colocando de novo as lunetas; mas a senhora deve saber que eu, no lugar em que estou, cumpro um dever sagrado! A justiça, minha senhora, tem por obrigação do cargo violar friamente todos os recintos e todos os segredos. Quanto não me custa ouvir às vezes os pormenores de uma desgraça vergonhosa ou de alguma negra miséria de família? Mas assim é preciso; eu aqui não sou um homem, sou simplesmente um instrumento da Lei. Tenha pois a bondade de abrir o coração e dizer-me tudo o que sabe a respeito de Gregório, que me poupará dessa forma o sacrifício de torturá-la com o meu interrogatório.
— Mas o que quer o Sr. que lhe diga?... Do que serve a minha pobre opinião a respeito de uma pessoa, a quem acabo de confessar que adoro?... Gregório, por pior que fosse para os outros, seria sempre para mim o ideal dos homens! O senhor, que naturalmente conhece o coração da mulher, deve compreender o que há de sincero e verdadeiro nas minhas palavras. Nós quando amamos, desejamos por tal modo descobrir boas qualidades e brilhantes dotes no objeto do nosso amor, que, seja ele a mais ruim das criaturas, nos aparece, à luz maravilhosa de nossa dedicação, radiante e belo como o sol!
— Conclui-se do que a senhora acaba de dizer, que, apesar de supor Gregório o melhor dos homens, não sustentará que ele seja incapaz de cometer um crime...
— Não tive semelhante idéia! Considero Gregório com os defeitos da sua idade e do seu temperamento. Ele seria capaz de cometer qualquer leviandade, qualquer tolice, mas nunca uma infâmia!...
— Sabe do que o suspeitam?
— Ouvi vagamente dizer, aqui mesmo, que se trata de um roubo e de um assassínio.
— E o que mais sabe a esse respeito?
— E justamente por não saber mais nada, que lhe vou pedir o obséquio de dizer o que há. Constou-me agora à noite que ele fora preso, mas tudo isso é tão vago e tão incerto que...
— Conhece este anel?
E o chefe passou a Júlia um anel de homem com pedra de cornalina.
— Sim, disse ela a examiná-lo; parece-me que o reconheço. E o mesmo ou é muito parecido com um que dei a Gregório no dia de seus anos.
— Este anel foi encontrado no lugar do crime e corrobora as suspeitas sobre Gregório.
— Valha-me Deus! exclamou Júlia; mas pode não ser o mesmo!...
— Temos ainda um outro corpo de delito. Examine bem este farrapo de casimira e queira ver se lembra de ter visto algum dia Gregório vestido com um paletó da cor desta fazenda.
A viúva tornou nas mãos o farrapo que lhe passou o chefe, e ficou a examiná-lo atentamente.
— Então?... disse a autoridade, vendo que ela não respondia. Lembra-se?
— Não sei, Sr. doutor; é isto uma circunstância tão pequena, que foge inteiramente da memória...
— E destas pequeninas circunstâncias que se tiram as conclusões lúcidas sobre qualquer crime, minha senhora; não podemos desprezar nada. Tenha a bondade de declarar se se recorda de ter visto Gregório algum dia vestido desta fazenda.
— Ele usava freqüentemente roupas escuras, mas algumas vezes, muito poucas, a passeio no campo ou de volta de um jantar de amigos, creio que o vi vestido de cor alvadia...
— Mas desta cor, precisamente desta, não o viu nunca, minha senhora?
— Não me recordo absolutamente, Sr. chefe.
— Ele era pródigo, extravagante?
— Para ser pródigo é preciso ter fortuna, e Gregório vivia do que ganhava com o trabalho...
— Não sabe se ele gostava de prazeres ruidosos?...
— Não; ao que suponho, não.
— Nunca o viu ébrio?...
— Nunca!
— Recebeu dele muitos obséquios?
— De que espécie?...
— Obséquios de valor, em presentes, em dádivas de preço...
— Os objetos que conservo dele, só têm valor para mim, porque vieram de suas mãos...
— Ele então não despendia muito com a senhora?...
— Não havia necessidade disso...
— Em que qualidade freqüentava a sua casa?
— Na qualidade de meu amigo, a quem me aprouve franquear toda a minha existência e todo o meu coração.
— Desejava vê-lo ainda?...
— Com muito gosto!
— Sabe onde ele esta,?
— Disseram-me hoje que estava preso.
— Sabe que ele tinha um casamento marca do para hoje à tarde?
Sei, respondeu a viúva, deixando transparecer o desgosto que lhe causava tal pergunta.
— E sabe o resultado desse casamento?
— A noiva esperou inutilmente; Gregório não apareceu.
— E por que ele não apareceu?
— Naturalmente porque o haviam prendido...
— Entretanto, ele não foi preso. Escondeu-se ou fugiu, justamente pouco depois do crime.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.