Por Aluísio Azevedo (1897)
Dera motivo à correcional viagem de que agora tornava sua Alteza, uma terrível diabrura celebrizada nos anais contemporâneos da vida fluminense; e foi que um dia, depois de uma formidável desordem no jardim do Alcazar, a polícia, no meio de grande pancadaria, cadeiras partidas, mesas e cabeças rachadas, colhera vários estudantes da Praia Vermelha, entre os quais se achava o incorrigível príncipe.
D. Felipe foi, com os seus colegas de curso acadêmico e companheiros de pândega, conduzido pela força policial à Escola Militar, porque só aí podiam, ele como aqueles, serem submetidos à prisão.
Imaginese em que estado não iriam!
Eram três horas da madrugada quando lá chegaram, e o fato, aliás comum, teria passado sem notoriedade, se o demônio do rapaz não se lembrasse de, ao enfrentar com o corpo de guarda da imperial academia, sacar da algibeira o Tosão de Ouro que levava consigo, e, com ele pendurado ao pescoço, entrar solenemente no bélico recinto.
Como de rigor, o Oficial de guarda mandou bradar armas ao Tosão de Ouro, o que equivalia a dar sinal da presença do Imperador, pois no Brasil só este até aí ousara servirse dessa cavaleiresca ordem de Felipe o Bom, apesar de ser ela facultativa aos outros membros varões da família imperial brasileira.
Fezse alarma. Toda a Escola ferveu logo num levante, ao estrugido de tambores e clarins que chamavam a postos o Estado Maior.
E os velhos professores tiveram, em sobressalto, de afrontar o seu reumatismo, e precipitaremse estremunhados aos competentes uniformes de grande gala, para receber a suposta visita de Sua Majestade.
Foi por entre a formatura em peso da veneranda corporação da Escola, que D. Felipe, esbodegado e sorridente, atravessou para a prisão.
Calculese daí o efeito de semelhante escândalo, e por ele quanto se não chocaria o circunspecto Monarca.
Agora, de volta à Corte, D. Felipe vira uma vez Ambrosina às pernadas com um pobre cançoneta, naquele mesmo famoso teatrinho onde se engendrara pretexto a referida anedota histórica, e logo correu à caixa para se fazer apresentar à festejada exibicionista de belas formas, procurando incontinenti requestála de assalto.
Ora, a D. Felipe não dava o Brasil mais do que um conto de réis por mês, casa, trens, criados e cavalos; mas, como sabiam todos os mercadores do Rio de Janeiro que as contas do pândego príncipe, por maiores e absurdas, eram sempre, mais cedo ou mais tarde, liquidadas pelo erário imperial, nem só não lhe regateavam crédito, como ainda procuravam espertalhonamente meterlhe pela cara tudo aquilo que pudessem.
Ambrosina tinha disso perfeita ciência, e rejubilava por conseguinte com a sua heráldica conquista.
Sua Alteza, ao cabo de alguns meses, propôs, tomála para si exclusivamente, com a condição, porém, de que a amante não havia de pôr os formosos pés em tábuas de ribalta, nem dar trela a guardasmarinhas, enquanto estivesse em companhia dele.
Ela aceitou, arroubada de contentamento. E foi essa a fase mais brilhante do seu efêmero fastígio; foi como vai ver o leitor, o momento apogístico da sua venusta glória, o delicioso instante da embriaguez de Safo, mas também o Leucale fatal, donde havia de rolar a Condessa Vésper ao abismo comum das mercadorias de amor.
XLVI
APOGEU E OCASO
D. Felipe pôslhe casa em Botafogo, mandou, por inspiração própria e segundo desenho seu, aparelhar o brasão de armas da Condessa Vésper — uma grande estrela de prata em campo azulceleste, cortado em diagonal por duas ordens de lágrimas vermelhas; em cima a coroa condal, e por baixo do escudo um ramo de camélias brancas e deulhe lacaios de libré agaloada, tomando do brasão as duas cores carmim e prata; e deulhe jóias, e deulhe rendas tão preciosas que valiam ainda mais que as jóias, e vinhos tais, que valiam mais que as rendas.
Vésper tocara ao seu zênite, à fúlgida culminância que precede ao fatal declínio.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.