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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

O príncipe regente apelou ainda para as recordações do passado do seminário e logo lhe veio à lembrança o nome do cônego Plácido Mendes Carneiro, que tinha já sido reitor e que com tanta solicitude, caridade e inteligência servira, e procedendo com o cônego Plácido como havia procedido com Gesteira e Insua, não encontrou a menor di ficuldade em dar um excelente reitor ao seminário, que imediatamente começou a funcionar.

Foi assim que o príncipe regente deu em muito poucos dias nova vida ao seminário de S. Joaquim. É impossível desconhecer a boa vontade do Sr. D. Pedro. Supôs ele, porém, que bastavam essas medidas para fazer prosperar a instituição, e nisso se enganou. Ou lutava com graves embaraços financeiros, que realmente se fizeram sentir naquela época, e não pôde por isso dar o necessário desenvolvimento nem acudir com recursos pecuniários indispensáveis ao estabelecimento. E em tal caso não há que observar.

Outra vez restabelecido, mas de certo não melhorado na sua organização e condições, o seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim continuou como dantes a oferecer aos seus alunos instrução limitadíssima e a arrastar uma vida difícil.

A mão da caridade não lhe trazia meios suficientes para que lhe fosse possível desenvolver-se convenientemente, e a mão do Governo não se estendia para ele a fim de elevá-lo a um grau mais nobre e que mais utilidade oferecesse à juventude, e, portanto ao país.

Um fraco batel não pode resistir a grandes e violentas tempestades, e dez anos depois da reorganização do seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim rebentou no seio do país uma borrasca política que pôs tudo em movimento, e determinou em quase tudo mudanças mais ou menos importantes.

Em 1831, na madrugada do dia 7 de abril, o Imperador Sr. D. Pedro I abdicou a coroa em seu Augusto Filho o Sr. D. Pedro II.

A abdicação do primeiro Imperador importou um triunfo completo do Partido Liberal, que lhe fizera decidida e constante oposição desde o dia da dissolução da Constituinte em 1823.

Digo decidida e constante oposição ao Imperador e não ao Governo, porque o Partido Liberal, representado pelos seus deputados nas câmaras, nunca pretendeu governar no primeiro reinado, e até olhava com desconfiança para um ou outro dos seus membros que, acudindo ao convite do monarca, aceitava uma pasta ministerial.

Aponto o fato sem entrar em considerações sobre ele. A ver dade histórica é essa.

O triunfo do Partido Liberal deu incremento a novas idéias. Os pensamentos tomavam outra direção, mas os tumultos e as rusgas que se foram logo sucedendo faziam estremecer os estabelecimentos organizados e as instituições de diversas naturezas.

Os três primeiros anos depois da abdicação foram de grandes lutas, de grandes receios e de grandes dedicações.

Não haverá jamais um historiador imparcial e justo que não reconheça e proclame os serviços relevantíssimos e o patriotismo do Partido Liberal moderado, que salvou a monarquia constitucional e a integridade do império nessa época difícil.

Entre as instituições que mais vacilaram no meio da crise, notava-se o seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim que ia em uma decadência completa.

Em dezembro de 1831, o Governo olhou para esse seminário.

Era então ministro do Império o Dr. José Lino Coutinho, deputado pela província da Bahia.

O Dr. Lino Coutinho era um médico de alguma e variada instrução, e muito cedo foi ainda mais político do que médico.

A província da Bahia o mandou, em 1821, como um dos seus deputados à Constituinte de Lisboa e aí Lino Coutinho foi um corajoso defensor da causa da sua pátria.

De volta ao Brasil, teve assento na Câmara temporária, logo na primeira legislatura, e foi um dos mais vigorosos e ardentes oradores da oposição liberal.

Lino Coutinho sentava-se na câmara ao lado de Vasconcelos, o célebre lidador do nosso parlamento, e, se não era como este um discutidor profundo, mostrava-se em compensação muito mais ameno. Primava pela graça, pelo espírito, e às vezes, por um sarcasmo pungente. E o povo, que muito se aprazia de ouvi-lo, chamava-o o deputado das galerias, isto é, o deputado querido das galerias.

Em 1830, a Câmara temporária, achando-se em desacordo com o Senado a respeito do orçamento, nomeou para uma comissão que devia ir propôr ao Senado a fusão das câmaras os três Deputados Liberais Vas concelos, Lino Coutinho e o Sr. Limpo de Abreu, atual visconde de Abae té. E, quando a comissão partia, o povo entusiasmado arrancou as bestas do carro e levou em triunfo os três deputados de sua confiança.

Não aplaudo o fato, não gosto de ver o povo rebaixando-se a fazer papel de cavalo ou de besta de tiro. Mas vou dizendo as coisas como elas se passaram.

(continua...)

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