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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Melhor ainda? e qual?

– É meu filho, disse a viúva apontando para Cândido.

Salustiano ficou estupefato.

Cândido aproximou-se dele, e oferecendo-lhe a mão, disse com acento comovido:

– Meu irmão...

A voz de Cândido despertou Salustiano, que, soltando uma risada de escárnio, exclamou:

– Impostor!

Cândido corou até a raiz dos cabelos, e recolhendo a mão que havia estendido, cruzou de novo os braços.

Mariana apertou entre as suas uma das mãos do mancebo, dizendo-lhe:

– Não cores assim, meu filho; que importa que teu irmão te desconheça, se tua mãe te abre os braços?... vem... eu quero apertar-te contra meu seio diante dele; vem!

E depois de abraçar apertadamente seu filho, continuou dirigindo-se a Salustiano:

– Vê bem que já não receio o veneno da sua língua. Acabou-se o senhor, desapareceu a escrava. Agora eu o desafio orgulhosa!

– Ainda quando o que se representa aqui não fosse uma miserável comédia, respondeu Salustiano, ainda quando o que está dizendo tivesse todos os visos de verdade, acredita, minha senhora, que toda a esperança de vingar-me estava perdida para mim?

– Oh!... ainda?...

– Pois bem... o sr. Cândido é seu filho? qual é o nome do pai de seu filho?

Mariana fez um movimento.

– Senhor...

– Não responde?... tanto melhor. Irei perguntar ao sr. Henrique...

A viúva empalideceu; lembrou-se do amor daquele que o inesperado aparecimento de seu filho fizera esquecer tanto tempo. Duas lágrimas eloqüentes penderam das pálpebras de Mariana.

Cândido com um olhar cheio de amor e de profundo sentimento, mostrou compreender a significação destas lágrimas.

– A resposta de Henrique, senhora, será pronta e nobre; não preciso dizer qual seja...

– Embora... balbuciou, como gemendo, a mãe de Cândido, olhando ternamente para seu filho.

– Deixarei Henrique, senhora, prosseguiu Salustiano, e hei de vir fazer a mesma pergunta a um honrado velho que vive de amar sua filha... que a julga pura, que...

Mariana soltou um grito; Cândido ia dar um passo, mas ela atirou-se entre ele e Salustiano.

– Embora! exclamou com fogo, embora! perca-se tudo! rompa-se este casamento que deveria fazer a ventura do resto da minha vida! derrame ainda meu pai lágrimas amargas por minha causa; mas renegar meu filho? afastá-lo de meus olhos? negar-lhe o meu seio? nunca, nunca! agora, senhor, antes de todos está meu filho.

E chorando lágrimas de amor, abraçou-se estreitamente com Cândido.

– Bem, senhora, disse Salustiano tomando o chapéu, eu me retiro... tudo está decidido entre nós.

Cândido tinha sentido vibrar todas as cordas do coração de sua mãe; compreendeu que ia ser a causa de seus tormentos e de sua desgraça; e fazendo um violento esforço, desprendeu-se dos braços que o apertavam, e lançando-se adiante de Salustiano, exclamou:

– Uma palavra, senhor!

– O que temos? perguntou com desprezo o moço.

– Conhece a letra de seu pai?

– Sim.

– Pois veja.

E tirando do bolso uma folha de papel, que mostrava ter estado por muito tempo guardada, Cândido abriu-a aos olhos de Salustiano.

Era o escrito pelo qual Leandro reconhecia Cândido por seu filho.

Salustiano quando acabou de ler, tremia da cabeça até aos pés, e estava pálido como um finado.

– Eu sou seu irmão, disse Cândido.

Salustiano não respondeu.

– Metade da fortuna de que se acha de posse pertence-me de direito,

Salustiano, com os lábios brancos e convulsos, olhou com um olhar espantado e feroz para aquele que lhe estava falando.

Cândido voltou o rosto para Rodrigues e perguntou:

– Diga-me, sr. Rodrigues, sabe pouco mais ou menos quanto devo receber do sr. Salustiano?

– Um milhão, respondeu o velho.

– Pois bem, tornou Cândido com todo o sangue frio:

– Sr. Salustiano... meu irmão, eu dou-lhe um milhão pela carta de minha mãe.

O velho deu um passo...

Mariana ficou extática...

Salustiano continuou a olhar espantado para Cândido,

– O caso é simples, continuou Cândido: o senhor não conseguirá nunca desposar aquela que pretende; ao muito fará infrutiferamente a desgraça de minha mãe. E para que isso, senhor? para que procurar um remorso? acabemos com isto. Eis aqui uma vela que arde, acendamos nela nossas duas folhas de papel. Um queima um escrito que lhe dá um milhão, outro extingue uma carta que vale uma desgraça. Senhor, outra vez, o caso é simples: trata-se de um milhão!

Salustiano instintivamente lançou a mão ao bolso e tirou dele um papel.

Os dois mancebos aproximaram-se um do outro; Salustiano estava desfigurado, Cândido risonho e animado.

– Senhor, disse este, permita que minha mãe examine se é essa a carta de que se trata.

Salustiano chegou-se a Mariana que, depois de ler a carta, respondeu:

– É ela mesma,

– Senhor, continuou Cândido dirigindo-se a seu irmão: jura pela sua honra, pela salvação de sua alma, e pelas cinzas de sua mãe e de nosso pai, que nunca abusará deste segredo?

– Juro, murmurou Salustiano.

– Então... ao fogo!

Chegaram-se os dois moços para junto da luz; mas o velho Rodrigues, suspendendo Cândido, exclamou:

– Mancebo, lembra-te que vais queimar um milhão.

(continua...)

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