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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Passeava, fazendo gestos de extraordinária energia, expandindo os sentimentos que o agitavam. Falava, esquecido de que ninguém o ouvia, escapavam-lhe frases, cheias de intimativa aos silenciosos cacaueiros. De que valiam gozos terrenos ante a perspectiva da bem-aventurança eterna! Que era o amor duma mulher comparado com o amor da humanidade? Que era o prazer carnal, que voluntariamente deixava, em confronto com a glória que cobriria o seu nome, se morresse, e as honras e dignidades que recairiam sobre o obscuro padre matuto, se lograsse voltar com vida das aldeias mundurucuas? Vinha-lhe uma ambição de subir, de ocupar altos cargos, uma cobiça de honrarias. Podia ser chamado pelo seu bispo a ocupar a primeira dignidade da Sé paraense, e talvez que a fama levasse o seu nome ao Rio de Janeiro... aos pés do imperador, o dispensador dos benefícios. Decididamente não fora feito para vegetar numa paróquia sertaneja. Também não imitava, comprazia-se em o reconhecer, para se desculpar das ambições, não imitava o procedimento dos seus indolentes e debochados colegas do interior da província, não era um padre João da Mata, um padre José, o finado vigário de Silves.

E então, inchando de vaidade, e para melhor se convencer do direito que tinha às altas posições da Igreja, perguntava, possuído dum ódio súbito contra os outros padres: Que faria em seu lugar um desses sacerdotes espalhados pela diocese do Pará, desde a capital até os confins de Tabatinga? Levaria uma vida cômoda e fácil, entregue à adoração de Vênus, seguindo as doutrinas de Epicuro.

Ele não, não se confundiria com esses porcos de ceva, ignorantes e dissolutos. A sua missão estava traçada, havia de cumpri-la.

Sentia o cérebro perturbado pelo fumo da vaidade que lhe vinha de tais pensamentos, embriagava-se pouco a pouco com a idéia da superioridade do próprio mérito, à medida que evocava da história dos santos os nomes mais reputados em virtudes, e por um breve processo de comparação, levando em seu favor a diferença dos tempos e das situações, concluía, com a lógica poderosa que lhe ensinara padre Azevedo, que não lhes restava nada a dever. Novo S. Francisco Xavier, o apóstolo dos índios, casto como S. Efrém e S. Luís de Gonzaga, forte e sereno como o seu homônimo, vencedor do demônio, ele, padre Antônio de Morais, ilustraria os sertões da Amazônia e glorificaria a sua pátria, resumindo na sua simpática figura de mancebo forte os altos merecimentos que, separadamente, haviam eternizado a memória de tantos canonizados!

O dia adiantara-se. O sol, coando raios vivos pela folhagem dos cacaueiros, punha em plena luz a sua estatura elevada, o seu rústico vestuário, que lhe causou uma impressão de desgosto. Era tempo de sair do cacaual, de volta para a casa, a tratar dos preparativos da viagem que devia fazer no dia seguinte. Mal tomara a resolução, uma visão inesperada o colheu de surpresa, obrigando-o a dar um salto para trás e a esconder-se entre troncos de árvores. A Clarinha, a neta de João Pimenta, dirigia-se para o cacaual, com um alguidar vazio na mão, arregaçando a saia de chita para a não molhar no capim orvalhado, e deixando à vista, descuidosamente, uma perna roliça, até perto do joelho.

Ele a viu aproximar-se, encantadora, com o cabelo preso no alto da cabeça, com um simples vestido de chita, e os pequeninos pés nus a dançarem numas tamanquinhas de couro vermelho, encaminhar-se para o seu lado, e parar bem ao pé dele, sem o ver; depois chegar-se a um cacaueiro, carregado de frutas maduras, pôr o alguidar no chão, e começar a colher os cacaus, que partia batendo-os na árvore, e cujos bagos, cobertos de alva polpa aveludada, despejava no alguidar. Viua com o rosto pálido e sério, entregue àquela tarefa simples, e parecendo-lhe que chorara, porque tinha os olhos vermelhos, comoveu-se e acercou-se dela, perguntando-lhe o que tinha que a fazia tão triste.

(continua...)

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