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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Estava-se no rigor do inverno e chovera durante toda a tarde. As calçadas refletiam em ziguezague a luz vermelha dos lampiões. Alguns telhados ainda gotejavam melancolicamente, e o céu, todo negro, pesava sobre a cidade que nem uma tampa de chumbo. Não obstante, chegava bastante gente para a festa; velhas carruagens enfileiravam-se na Rua Formosa, despejando golfadas de seda e cambraia. As damas, finamente envolvidas nas ondas dos seus pufes, subiam, arrepanhando a cauda, aos salões do baile, pelo braço de homens sérios de casaca. Havia luxo. Os lances da escadaria mostravam-se juncados de flores desfolhadas e folhas de mangueira, e os degraus, de quatro a quatro, estavam guarnecidos por grandes vasos de pó de pedra, vazios de planta. Espelhos de bom tamanho refletiam de alto a baixo, no corredor, os pares que subiam. Em todas as portas havia alvas cortinas de labirinto.

O presidente acabava de chegar, e a banda do 5.° de Infantaria tocava embaixo o Hino Nacional. Todos se agitavam para vê-lo; comentavam-lhe já, em voz soturna, a figura, os movimentos, o andar, a cor, e os botões da camisa.

Na sala de honra, as senhoras, parafusadas nas suas cadeiras, numa resignação cerimoniosa, espichavam discretamente o pescoço, para ver o “Presidente novo”. Os rapazes, com o cabelo dividido em duas pastas sobre a testa, fumavam nos corredores ou bebiam nos bufetes Na varanda jogavam em silêncio os inalteráveis pares do voltarete A casa toda recendia a perfumaria francesa.

Reinava um constrangimento pesado e estúpido; poucos se animavam a conversar, e ninguém ria. Mas de improviso, a orquestra deu o sinal da primeira quadrilha e uma onda de homens invadiu brutalmente as salas, por todas as portas. Era uma aluvião mesclada; havia o croisé de luva branca, a casaca sem luva, o fraque de três botões com o lenço de seda azul debruçado na algibeira; sobressaíam as enormes gravatas de cambraia engomada, com as pontas em bico sistematicamente espichadas sobre a negrura da lapela. Alguns tinham um tique pretensioso; outros um ar encalistrado e cheio de rubores. Principiava-se a suar.

Destacavam-se os filhos dos negociantes ricos, que haviam ido à Europa “estudar comércio” e os acadêmicos de Pernambuco, Bahia e Rio, que estavam de férias na província. A dança abalava-os a todos as senhoras iam-se já levantando; arrastavam-se cadeiras; a luz do gás mordia os ombros nus e fazia faiscar os diamantes; as rabecas começavam a gemer.

As quadrilhas e as valsas sucederam-se quase sem intervalo. O entusiasmo apoderou-se dos ânimos.

Tremia no ambiente o vozear frouxo dos cochichos, das coisas amorosas, dos pequeninos risos delicados, do tilintar dos braceletes, do farfalhar das saias, do rumorejar dos leques e do surdo arrastar dos pés no tapete.

As mulheres presas pela cintura, num abandono voluptuoso, com a cabeça esquecida sobre a espádua do cavalheiro. De envolta com os extratos de Lubin, saturava a atmosfera um cheiro tépidos e penetrante de carnes e cabelos. Pares fatigados prostravam-se nos canapés, amolecidos por um entorpecimento sensual; dilatavam-se as narinas, ofegavam os colos e as pálpebras bambeavam num quebranto de febre.

Em breve, porém, um frenesi galvânico eletrizou todos os pares “Galop!” gritaram E um turbilhão doido, desenfreado, precipitou-se pelas saias, percorrendo-as aos saltos, numa confusão de casacas e caudas de seda; anovelando-se, abalroando-se e rebentando afinal numa vozeria medonha, atroadora, num bramido de onda que espoca em plena tempestade.

Rasgaram-se vestidos, espicaçaram-se folhos de renda, desfloraram-se penteados e soltaram-se exclamações de prazer.

Um rapaz, ao terminar a quadrilha, refugiava-se, coxeando, na varanda Tinham-lhe pisado o melhor calo.

— Maus raios te partam, diabo!

E foi assentar-se a um canto, segurando carinhosamente o pé.

— Ó seu Rosinha, fale com os amigos velhos!.. disse o Freitas, aproximando-se dele e estendendo-lhe a mão. Não sabia que o tínhamos aqui em nossa terra, doutor!

Estava o mesmo homem, sempre engomado e teso, com o seu eterno colarinho à Pinaud e a sua unha de estimação. “Então!. que lhe contava o caro Sr.

Rosinha, depois que se viram a última vez? Já lá se iam três anos!...”

Rosinha achava-se em férias; era terceiranista de Direito em Pernambuco.

O Freitas notou que ele estava rapagão; estava muito melhor; mais desenvolvido!

O Faísca sorriu. Com efeito engrossara de ombros e deitara melhor corpo.

(continua...)

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