Por Aluísio Azevedo (1895)
Ergueu-se, foi até ao parapeito do quintal; esteve a olhar por algum tempo para um tanque cheio de roupa que lhe ficava defronte dos olhos e disse depois suspirando:
- Como tudo isto é bom e consolador! É como se eu voltasse ao meu passado; estou vendo o momento em que entra por aquela porta, com a sua lata na cabeça, aquele velho que nos levava todos os dias o almoço e o jantar. Como se chamava, lembras-te?
- Sebastião.
- Era isso mesmo. Sebastião. Muito fiz eu sofrer o pobre diabo! Recordar-te de uma vez em que o obriguei a improvisar um bestialógico encarapitado sobre a mesa e com uma garrafa equilibrada na cabeça? Bom tempo!
Coruja erguera-se para ir à cozinha ver o que havia para almoçar, mas o outro, percebendo-lhe a intenção, gritara:
- Olha! Vão chegar aí umas coisas que mandei vir do hotel.
- Bom, disse André, risonho como havia muito tempo não o viam, porque o nosso almoço, força é confessar, não vale dois caracóis!
- Com certeza já tivemos outros piores! Replicou Teobaldo, encaminhando-se também para a cozinha. Deixa estar que ainda havemos de fazer aqui um jantar. Nós dois!
- Quando quiseres!
- Nós dois é um modo de dizer! Tu não entendes patavina a respeito de cozinha!
- Mas posso servir de teu ajudante.
Pouco depois chegou a encomenda do hotel. Teobaldo foi por suas próprias mãos abrir a caixa da comida e, para cada prato que tirava de dentro dela, tinha uma exclamação de afetado entusiasmo:
- Bravo! bravo! Bolinhos de bacalhau! Costeletas de porco! Maionese de camarões! Peixe recheado! Pato assado!
E, tão à vontade se mostrava na pobre casa de D. Margarida, que ninguém diria estar ali o ministro mais amigo da etiqueta, mais apaixonado pela sua farda e pelas suas bordaduras de ouro, como por tudo aquilo que fosse brilhante, luxuoso e ofuscador.
- Como vai a velha? perguntou ele.
- Assim, respondeu Coruja. Pouco melhor.
- Ah! está doente?...
-- Ora! Pois então não sabes? Eu já te falei nisso por mais de uma vez. - É exato, agora me lembro.
- E a filha?
- Essa esta boa. Vou chamá-la.
- Não, deixa-a lá por ora. Virá depois. Olha. Recomenda-lhe que nos arranje o almoço, enquanto conversamos no teu quarto. Onde é?
- Aqui. Entra.
No quarto, o ministro, sem se mostrar nem de leve impressionado pelo aspecto de miséria que o cercava, tirou fora o paletó e pôs-se a examinar o que havia sobre a mesa do Coruja.
O grande maço de anotações históricas, já suas conhecidas, era a coisa mais saliente entre todo aquele oceano de papéis e alfarrábios.
- Está muito adiantado? perguntou, batendo com o dedo sobre as notas.
- Pouco mais. Ultimamente não tenho podido fazer quase nada. Ainda me falta muito para concluir a obra.
- Pois é tratares de concluir, que eu te arranjarei a publicação dela à custa do governo.
- Prometes!
- Ora!
- Ah! só assim tenho esperanças de não perder o meu trabalho, porque juro-te que já iame fugindo o gosto...
- Podes ficar certo que a tua história será impressa.
- Não calculas o alegrão que me dás com essas palavras!
- E então digo-te mais: a obra será adotada na Instrução Pública e transformar-se-á para ti em uma mina de ouro!
- Que felicidade!
- Hás de ver!
E na sua febre de fazer promessas agradáveis, Teobaldo perguntou a razão por que o amigo não se metia aí em qualquer repartição do Estado.
- Ora, que pergunta! Bem sabes que não é por falta de esforços da minha parte...- Pois digo-te que agora também serás empregado. É verdade que a época não é das melhores para isso: os bons lugares estão todos preenchidos, mas.
- Não! qualquer coisa me serve... declarou André. Tu bem me conheces; desde que não haja necessidade de concurso...
- Que diabo! Se eu pensasse nisto há mais tempo, já podias até estar com o teu emprego.
- Olha! Vê se me arranjas alguma coisa na Biblioteca. Isso é que seria magnífico!
- Homem! e é bem lembrado. Havemos de ver.
Assim conversaram até a ocasião de irem para a mesa.
O almoço foi alegre e comido com bastante apetite. Inezinha preparou-se antes de aparecer ao senhor ministro, mas, apesar das insistências deste, não tomou lugar à mesa, para ficar servindo.
Dona Margarida, lá mesmo da cama onde continuava amarrada pelo reumatismo, dirigia o serviço, lembrando de quando em quando à filha tudo aquilo que podia ser esquecido. - Areaste o paliteiro? perguntava ela do quarto. Se não areaste é melhor por o outro de louça, que está na gaveta do armário.
- Já pus, sim senhora.
- Não te esqueças dos guardanapos. Os melhores são os de debrum encarnados.
- Eu sei, mamãe.
- Olha que o café esteja pronto quando eles acabarem! Mas o Sr. Teobaldo talvez prefira o chá. Pergunta-lhe.
- Café! café! respondeu o próprio Teobaldo, de modos a ser ouvido pela velha.
E então uma conversa de gritos se entabulou entre os dois.
-S. Exa. nos desculpe, pedia a dona da casa, bem sabe quais são as nossas circunstâncias!
- Ora, por amor de Deus, D. Margarida! Acredite que há muito tempo que eu não almoço tão bem ou pelo menos com tamanho prazer.
- Que diria se eu não estivesse presa a esta cama! Não acredito que Inez tenha dado conta do recado!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.