Por Aluísio Azevedo (1897)
Deu então para beber, e, uma vez ébrio, ia provocar Ambrosina à casa desta, lançandolhe da rua todos os vitupérios de que era capaz o seu desespero; mas depois, às horas mortas da noite, quando, por um fenômeno do vício, mais forte lhe roncava por dentro o desejo dela, voltava o miserável, como um cão enxotado e fiel, a uivar à porta da prostituta as angústias daquele amor que lhe punha o coração em lepra viva; e chorava, e suplicava, com humildes lágrimas de mendigo faminto, a esmola dos sobejos do outro.
Ambrosina, sem lhe esconder ao menos os risos da festa ao sangue novo com que se banqueteava a sua gulosa carne, mandava correlo pelos criados; e, de uma feita, às três da madrugada, o fez levar preso por um soldado de polícia.
Gustavo foi de novo posto em liberdade no dia seguinte às nove horas da noite, e ao sair da enxovia levava no coração uma idéia sinistra e decisiva.
Consultou as algibeiras. Tinha de seu apenas quatrocentos réis.
— É quanto chega! disse ele.
E caminhou resolutamente para o centro da cidade.
XLV
A CONDESSA E A PRINCESA
Desceu a rua do Lavradio, atravessou a praça de D. Pedro I sem olhar para os lados, e seguiu pela rua da Carioca até o Largo do Paço. Penetrou no pequeno jardim defronte da Capela Imperial e assentouse um instante num dos bancos laterais, a olhar abstratamente para o mal iluminado palácio do Imperador, que nessa tarde havia descido de Petrópolis. Depois ergueuse com um grande suspiro, e, de chapéu na mão e passos lentos, encaminhouse para uma tasca do Mercado, pediu aguardente de cana, bebeu de um trago mais de meio copo, e tomou afinal a direção do ponto das Barcas Ferri.
Ao chegar aí, olhou para o mar; a noite estava límpida e toda afogada de estrelas. Muita gente descia de Niterói; senhoras e mulheres do povo recolhiamse à Corte, trazendo ao colo, ou arrastando pela mão, crianças tontas de sono que rabujavam.
Bateram onze horas.
Gustavo comprou o seu bilhete de passagem com os últimos duzentos réis que possuía, cruzou a estação, entrou na barca, subiu à coberta, e foi assentarse à proa com o cotovelo na grades da amurada e o rosto apoiado a uma das mãos.
Ninguém lhe via as lágrimas.
Em breve a máquina principiou a roufenhar, movendo no ar os gigantescos braços da balança, e a embarcação começou a mexerse e a desgarrarse do pontão flutuante, tranqüila, pesada e lenta, como um terciário paquiderme que abrisse o nado nas suas águas favoritas.
Havia poucos passageiros no tombadilho. Um grupo de rapazes, ameijoados num dos bancos do centro, conversava alegremente, dizendo versos em voz alta e falando de poetas brasileiros. Gustavo ouviu pronunciar o seu nome e ouviu declamar sonetos seus. O homem do leme vigiava o horizonte, a espiar o rumo da viagem pelo postigo da sua guarita.
E a melancolia do mar erguiase para o céu, bebendo a luz das estrelas.
Gustavo acendeu um cigarro, e pôsse a andar de uma ponta para a outra do convés.
A barca adiantavase, arfando.
Ao meio da baía, ele atirou fora o cigarro, procurou um ponto mais deserto e sombrio ao lado da chaminé, transpôs o gradil da amurada e, de pé sobre as bordas desta, olhou por algum tempo o mar; e depois cerrando os olhos, de um salto se precipitou nele.
As águas fecharamse sobre o seu corpo.
— Homem ao mar! gritou surdamente uma voz à popa.
Mas ninguém deu por isso, nem se moveu, e a barca continuou inalteravelmente a cortar a baía em direção de São Domingos de Niterói.
Só daí a três dias, quando as ondas rejeitaram à praia do Flamengo o cadáver do suicida e a polícia o recolheu ao fúnebre depósito da ladeira da Conceição, pois ainda não estava concluído o necrotério vizinho ao Arsenal de Guerra foi que, pelas circunstância das notícias da imprensa, veio a saber Ambrosina do triste fim da sua recente vítima.
O trágico desfecho daquele desgraçado drama de amor e de depravação, que os jornais diários trataram logo de explorar, a impressionou profundamente pelo seu lado espetaculoso, e veio a servir para acrescentar ao novo capricho da loureira pelo tal guardamarinha de dezoito anos, uma nota sentimental e fatídica, que o tornava muito mais esquisito e saboroso.
E a farsante Condessa teria sem dúvida tirado muito maior partido desse teatral episódio da sua espaventosa existência, se nessa ocasião não lhe aparecesse uma alta e sedutora empresa, a que ela de pronto se lançou, sem distração da menor partícula de sua atividade.
É que acabava de cair sobre o Rio de Janeiro, depois de uma divertida viagem de correção à volta do mundo civilizado, o famoso e estouvadíssimo príncipe D. Felipe sobrinho, do Imperador e aluno da Escola Militar.
D. Felipe era o tormento do velho Monarca, que na sua patriarcal rapidez de atos públicos e privados, nem lhe daria de novo acesso em palácio ao lado dos netos infantes, se não foram as intercessões da virtuosa e compassiva Imperatriz Dona Teresa. D. Pedro II não perdoava ao sobrinho as estroinices e extravagâncias, que às vezes, força é confessar, degeneravam em ribaldaria e maldade.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.