Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Há, porém, coincidências e acasos singulares que o povo não deixa passar despercebidos.
Era notável e quase proverbial o constante e feliz estado sanitário do seminário de S. Joaquim. Os reitores, os seminaristas e toda a gente da casa gozavam sempre de excelente saúde, e tornara-se raro o caso de alguma enfermidade.
Observa-se mesmo que durante a terrível zamperini ninguém adoecera no seminário de S. Joaquim, e ainda mais notável observação se fizera, quando reinou a não menos fatal epidemia que recebera a alcunha de carcunda, e que tantas vidas ceifara no Rio de Janeiro. Porque, habitando então dentro do seminário cerca de oitenta pessoas, foram quase todas atacadas do mal e não houve uma só que sucumbisse a ele.
Passou o seminário a ser quartel de soldados, e começou logo entre estes a colheita da morte.
As moléstias se multiplicaram e as vítimas foram numerosas, entrando na conta delas um oficial e o capelão do corpo aquartelado.
E além das enfermidades, ocorreu também um desastre.
Diz uma tradição que um grande muro que havia, como hoje há, para o lado da Rua da Imperatriz, rua que então se chamava do Valongo, veio a cair um dia inesperadamente, e esmagou embaixo de suas pedras um menino que ia passando.
Tudo isso podia muito naturalmente acontecer. O povo, porém, que é crédulo, e que se deixa dominar por idéias que a razão nem sempre aceita e explica, acreditou que o decreto de 5 de janeiro de 1818 não tinha sido nem podia ser abençoado por Deus, que é pai dos órfãos e de todos os pobres, e que, portanto, condenava a injustiça e a violência feita aos órfãos pobres de S. Joaquim.
III
A extinção do seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim era um fato consumado desde janeiro de 1818. O poder absoluto havia arrancado aos pobres órfãos uma doação feita pela caridade de não poucos benfeitores, e não se admitia nesse tempo a menor oposição ao – quero e mando – do Governo, que assim mostrava desprezar o direito de propriedade.
Entretanto, dois anos e quatro meses tinham apenas corrido e já o Governo corrigia arrependido o erro que cometera, revogando todas as disposições do decreto de 5 de janeiro de 1818.
Ignoro completamente as razões que levaram o Governo a dar semelhante passo; e como é de crer que em dois anos e quatro meses tivessem arrefecido as queixas dos benfeitores da instituição, se é que estes por ventura ousaram alguma vez murmurar, devo supor que a medida fosse aconselhada pelo reconhecimento do direito que assistia aos órfãos pobres de S. Joaquim, ou também pelo natural desejo que tinha o novo Governo do Brasil de recomendar-se à estima da população.
Porque é preciso não esquecer que as datas do primeiro e do segundo decreto nos estão indicando que o de 5 de janeiro de 1818 pertence ao Sr. D. João VI, Rei de Portugal, Brasil e Algarve, e o outro, que foi de 19 de maio de 1821, pertence ao Sr. D. Pedro, então príncipe regente e lugar-tenente do rei seu pai no Brasil.
Pode ser que não tenha importância ou significação alguma polí tica o fato de ter o Sr. D. Pedro, príncipe regente, revogado aquela medida tomada pelo Governo do rei seu pai. Sempre é bom, porém, conservar de memória essas datas, que recordam duas épocas bem distintas e bem diversas em idéias, em aspirações e em esperanças, dúvidas e sonhos de futuro.
O certo é, em todo o caso que, logo depois da retirada do Sr. D. João VI para Portugal, o Sr. D. Pedro, por decreto da data já marcada, mandou restabelecer o seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim no mesmo pé em que dantes se achava, ordenando igualmente que o patrimônio, de que estava de posse o seminário de S. José, revertesse para aquele, como era de direito.
E como para deixar bem patente o seu interesse pela instituição que regenerava, o príncipe procurou chamar para ela o patrocínio e dedicação de alguns indivíduos cujos nomes já se achassem ligados à história do caridoso estabelecimento.
Assim lembrou-se de que um negociante de fazendas da Rua de S. Pedro, negociante chamado José Severino Gesteira, era sobrinho de outro Gesteira que gastara com o antigo seminário cerca de quarenta mil cruzados, e que Joaquim Antônio Insua, morador na Rua do Valongo, fora também benfeitor dos pobres órfãos de S. Joaquim. Mandou-os, pois, chamar a palácio, e declarou-lhes que os nomeava síndicos do seminário de S. Joaquim, e que a eles e outros benfeitores da instituição, que formariam uma junta administrativa e econômica, entregava o patrimônio do seminário, acabando, enfim, por dizer-lhes que queria que se preparasse tudo para que dignamente se fizesse a festa do patriarca, cujo dia se aproximava.
Os homens não tiveram que dizer. Aceitaram sem hesitar, e antes alegremente, a comissão, retirando-se do palácio muito penhorados das maneiras obsequiosas do príncipe regente.
A administração econômica do seminário estava, pois, arranjada e entregue a homens zelosos.
Faltava a direção superior dos estudos e da casa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.