Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Jorge se havia determinado mil vezes a exigir de Raquel a relação completa de seus sofrimentos; para isso entrava todos os dias no quarto dela; mas, vendo-a pálida e imóvel, sentada desleixadamente em seu leito, como esquecida de si própria, o pai não tinha ânimo de quebrar o silêncio da filha, de sondar aquele segredo doloroso, temendo ver redobrar tantos tormentos à menor pergunta; como certos pólipos, que se ensangüentam logo que são tocados, ele supunha aquela mudez semelhante à camada de cinza que envolve a brasa ardente... e, portanto, Jorge ficava defronte de Raquel horas inteiras, pensativo... melancólico... silencioso como ela mesma. O coração de Jorge devia, pois, estar também violentamente amargurado; um dia, enfim, ele se resolveu a penetrar a todo o custo o segredo de sua filha, e dirigiu-se para isso à câmara dela: foi na manhã em que Raquel tinha recebido o último bilhete de Honorina.
Jorge encontrou a triste moça na mesma posição e no mesmo estado em que
constantemente a achava. Como receando perder o ânimo, se olhasse para seu rosto, o pai sentouse, e, desviando os olhos do leito onde estava Raquel, disse:
— Minha filha, o que é isso?... o que tens?...
A moça levantou os olhos para seu pai; mas logo depois os abaixou, corando fortemente. — Outrora tu depositavas todos os teus inocentes segredos no meu seio; tu me fazias confidente de tuas passageiras tristezas, e longas alegrias; tu me dizias o que sentias; tudo o que pensavas; por que, pois, não continuas a praticar o mesmo?... já te fiz arrepender da doce confiança que em mim tinhas?... não sou sempre o teu amigo?... Raquel!... minha Raquel!... já deixei eu de ser pai?...
A triste senhora, ouvindo esta última pergunta de seu pai, feita com voz pungente e quase desesperada, saltou do leito, e, sufocada em soluços, soltando um dilúvio de lágrimas que presas estavam há muito tempo, caiu de joelhos aos pés de seu bom velho e abraçou-se com ele ternamente.
— Raquel!... minha Raquel!... não chores assim!... tem piedade de teu pobre pai!...
— Meu pai!... balbuciou a infeliz levantando-se nos braços de Jorge.
E os dois ficaram aí docemente abraçados... chorando ambos... misturando seu pranto de pai e de filha, que se combinava tão bem, quando bastantes lágrimas tinham corrido, e eles sentiram menos pesados os corações... sem corar de seus soluços... desatando-os sem tentar comprimi-los, sentaram-se defronte um do outro.
— Raquel, disse Jorge; eu sei que tu amas...
— Sim, meu pai, eu amo.
Pelo modo com que lhe respondeu sua filha, Jorge conheceu que tudo lhe ia ser relatado; que a mútua e antiga confiança se restabelecera.
— Pois, então, minha filha, continuou Jorge, por que esconder-me tanto tempo esse doce sentimento?... quem pode furtar-se a essa mimosa lei da natureza?... a escolha de teus olhos deverá ser por força digna de teu coração...
— Eu creio que sim, meu pai; é um moço nobre e destemido...
— Sabe ele que tu o amas?...
— Não, meu pai, nem o saberá nunca.
— Como não o saberá nunca, minha filha?... se tu o amas, se ele é digno de ti, poderei eu querer que chores assim toda a vida, que não sejas venturosa ao lado dele?...
— É porque meu pai não sabe que há uma barreira enorme, que para sempre me separa desse homem!...
— Seria possível, perguntou Jorge confuso, que minha filha amasse um homem casado?...
— Eu penso, com razão, que ele é solteiro.
— Que te falta pois?...
— O amor dele, respondeu amargamente Raquel.
— Raquel... não te faltam encantos.
— Meu pai, há outras mais belas do que eu.
— És rica...
O rosto de Raquel tornou-se rubro de vergonha; ela, que já amava, compreendeu, então, facilmente a verdade que Honorina exprimira a semelhante respeito: “é torpe! é um horrível sacrilégio negociar um homem com a desgraçada simpatia que lhe tributa uma mulher!... é torpe, é um horrível sacrilégio ir um homem ajoelhar-se aos pés do altar, receber a bênção do sacerdote, estendendo a mão para uma triste mulher, com os olhos no seu rosto e o pensamento no seu dinheiro”!...
— Honorina tinha bem razão!... murmurou ela baixinho.
Depois voltou-se resoluta para seu pai e disse:
— Meu pai, eu vou dizer-lhe tudo; a verdadeira causa de meus tormentos não está no amor, está no desespero.
— No desespero?...
— Eu não posso esperar ser amada.
— E por quê?...
— Eu não devo trabalhar para sê-lo.
— Mas qual a razão?...
— Tenho um único partido a seguir... chorar em segredo.
— É que eu não compreendo...
— Meu pai vai saber tudo.
Então Raquel passou a referir a Jorge todas as circunstâncias de seu amor; sem esquecer uma só delas, disse tudo; a amizade e confiança que merecia de sua amiga; o amor do moço loiro por ela; a cena passada em casa de Sara... tudo enfim.
Jorge escutou atento e admirado a estranha revelação que lhe fazia a filha; no fim dela, deixou-se ficar mudo, pensando no mísero estado de sua pobre Raquel, e na misteriosa existência desse moço, que podia mover tanto amor e tantas lágrimas.
— E então, meu pai?... perguntou Raquel tristemente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.