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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Como para lhe fazer sentir melhor a dor da separação, o último dia da sua estada no sítio se anunciava esplêndido. A natureza revestia-se de todas as galas, ostentando uma profusão de cores e de luz. Nunca o sítio de João Pimenta lhe parecera tão belo. Fora certamente num dia como aquele que padre João da Mata aportara àquele lugar e o escolhera para seu retiro. O sol, erguendo-se por trás das matas da outra banda, coloria de azul a rica vegetação das terras, deixando ainda na sombra as tranqüilas águas do estreito, abrigadas pelas árvores colossais da beirada, e vinha dourar a pindoba do teto da casa de moradia, dando-lhe reflexos metálicos. O céu, dum azul esbranquiçado, alourando para o oriente, parecia uma grande cúpula transparente, que limitava por todos os lados o horizonte, engatandose na linha ondulante das árvores longínquas, ou abaixando-se para o poente até encontrar a orla da campina, que crescia para ele numa atração de amor.

Os pássaros despertos enchiam a mata de mil vozes confusas, a que respondia o mugir das vacas de leite, presas no curral e ansiosas por correr livremente o campo, cuja verdura namoravam.

Todos dormiam ainda na casa. Padre Antônio caminhou para o porto. Despiuse por detrás duma moita, e meteu-se no banho. A branda tepidez matutina da água acalmou-lhe os nervos, refrescou-lhe a cabeça, e restituiu-lhe o vigor, e quando sentiu que a gente da casa acordava, saiu do banho, vestiu-se às pressas, confiando ao sol o cuidado de secar-lhe a roupa.

Na disposição de espírito em que se achava nada lhe seria mais insuportável do que a prosa soporífera do quase imbecil Felisberto, e em vez de voltar para a casa, onde o assustava também a idéia dum encontro com a Clarinha, rodeou o laranjal, e internou-se no cacaual, no propósito de meditar calma e livremente.

O banho acalmara-lhe a exaltação extraordinária em que gastara a noite, e podia agora refletir melhor sobre o que lhe cumpria fazer. Ao período de excitação nervosa sucedera o de colapso físico em que a alma pudera reassumir o governo do corpo. Essa mudança permitia-lhe ver claro na sua loucura. Sustentara um combate terrível com o inimigo do gênero humano, donde safra são e salvo por um milagre da graça divina, mais do que pela robustez da sua fé. Havia no cacaual uma sombra cheia de umidade, que penetrava os ossos e dava uma sensação singular de frio. Os papagaios e os macacos devoravam os cacaus que a inércia de João Pimenta deixara apodrecer na árvore, e fugiam à aproximação do padre. O missionário passeava sob os cacaueiros, enterrando os chinelos nas folhas úmidas que lastravam o chão, parando de vez em quando inconscientemente se alguma idéia mais grave lhe atravessava o cérebro.

Sentia um grande conforto de virtude. Liberto da presença encantadora e dominante da neta de João Pimenta, sentia que a honradez nativa retomara o antigo império no cérebro farto de aninhar uma paixão impossível e vá, e que o ardor religioso se reacendia exaltando-lhe os sentimentos. Parecia-lhe que tinha agora o coração limpo duma moléstia incômoda ou que safra duma embriaguez de vinho, readquirindo a lucidez do espírito. Não, não recairia naquele abatimento moral que o pusera às bordas do abismo, havia de furtar-se, uma vez para sempre, às tentações indignas que o iam fazendo esquecer a grande e sublime missão que Deus lhe reservara na terra, e no íntimo de seu peito, ainda há pouco opresso por desejos insensatos, nascia um honrado orgulho da vitória da sua integridade.

O orgulho ia crescendo e se transformando numa necessidade irresistível de se aplaudir a si mesmo, e de comparar-se para se convencer do próprio mérito. O beato Luiz de Gonzaga, de virginal memória, não lhe ficaria superior se se atendesse à gravidade e número das tentações sofridas por um e desconhecidas do outro. Sim, estava contente consigo mesmo. Partiria no dia seguinte, sereno e tranqüilo, sem saudades do tesouro de deleites que sacrificara à glória do próprio nome e à propagação da fé nos sertões do Alto Amazonas.

Não se diria que padre Antônio de Morais, depois de vencer tantos obstáculos, fadigas e perigos, atravessando incólume inóspitas paragens, esmorecera no fim da empresa, deixando-se cativar pelos olhos duma tapuia, ele que sentira sobre si, orgulhoso e indiferente, os olhares cobiçosos de mulheres brancas do Pará e das suas mais belas paroquianas de Silves.

Seguiria para o porto dos Mundurucus, morreria às mãos do gentio ou o converteria à religião de Cristo, e o próprio Chico Fidêncio lhe faria justiça.

(continua...)

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