Por Aluísio Azevedo (1881)
Contava-se o fato de mil modos; inventavam-se lendas; improvisavam-se romances. O cadáver fora recolhido pela Santa Casa de Misericórdia; procedeu-se a um corpo de delito; verificou-se que o paciente morrera a tiro de bala, mas a policia não descobriu o assassino.
Nessa mesma tarde os caixeiros de Manuel, vestidos de luto, entregavam de porta em porta a seguinte circular “Ilmo. Sr.
Manual Pedro da Silva e o cônego Diogo de Melo Freitas Santiago participam a V.Sª que acabam de receber o profundo golpe do falecimento de seu prezado e nunca assaz chorado sobrinho e amigo Raimundo José da Silva; e, como o seu cadáver tenha de baixar ao túmulo, hoje às 4 e l/2 horas da tarde, no cemitério da Santa Casa de Misericórdia, esperam receber de V.Sª o piedoso obséquio de acompanhar o féretro da casa de seu inconsolável tio à Rua da Estrela n.° 80, pelo que desde já se confessam etemamente agradecidos.
Maranhão, etc, etc “
A Misericórdia uma sepultura. mediante a quantia de 60$000 réis. O enterro foi a pé e bastante concorrido. Muitos negociantes acompanharam-no por consideração ao colega; grande número de pessoas por mera curiosidade.
O cônego ungiu o cadáver com água benta e encomendou-o a Deus. Maria Bárbara. para completo descargo de consciência e porque soubessem que ela não tinha mau coração, prometeu uma missa por alma do mulato.
Dias só apareceu em casa a tarde, à hora do saimento Notaram que o bom rapaz muito se sentira daquela morte e que, no ato de baixar o caixão à sepultura, afastara-se de todos, naturalmente para chorar mais à vontade. Não constou que mais ninguém, além dele e o cônego, tivesse chorado.
De volta do cemitério, Freitas, em conversa com os caixeiros de Manuel, mais o Sebastião Campos e o Casusa, lamentou com palavras finas o lastimável falecimento do infeliz moço, e disse que sentia bastante não ter a policia descoberto o autor do crime; mas que, segundo a sua modesta opinião' aquilo fora, nada mais, nada menos, do que um suicídio, e que Raimundo viera até à ponta da nua nas agonias da morte.
— Uma fatalidade! rematou ele, filosoficamente, a espanar com o lenço os seus sapatos envernizados. - Não me posso conformar com o diabo deste pó vermelho de São Pantaleão!. . mas creiam que me comoveu bastar te a morte do pobre Mundico! Era um moço hábil.. Tinha muita habilidade para fazer versos...
— E muita presunção, vamos lá!
— Não, coitado! tinha seus estudos, tinha! não se lhe pode negar!...
— Mas também não era lá essas coisas que queria ser!...
— Ah, sim, não digo o contrário... Concordou delicadamente o pai de Lindoca porque não tinha por costume contrariar ninguém. - Uma fatalidade!... repetiu, meneando a cabeça
— E talvez não fique nesta!.. observou Sebastião A pequena está bem perigosa!...
— E! Ouvi dizer que sim.
— O Jauffret mandou que a carregassem pra fora.
— Segue, num dia destes para a Ponta-d’Areia.
— Não. Para o Caminho Grande.
— Ah! Ela era perdida pelo Raimundo!... — Tolice.
E deram de mão o assunto para ouvir Casusa, que contava alegremente o caso de um bêbado que uma vez fora parar no cemitério e lá ficara fechado; e que. depois, acordando pelas altas horas da noite, levantara-se para ir até ao portão pedir fogo ao ronda. que fumava muito distraídos encostado de costas nas grades, e que o soldado, sentindo, passar-lhe no pescoço a mão fria do borracho, deitara a correr e a pedir socorro em altos berros.
Todos acharam graças, e o Freitas contou logo um fato equivalente que lhe sucedera no tempo de rapaz. Esta anedota puxou por outras, e cada qual exibiu as que sabia: de sorte que. ao entrarem na Rua Grande ainda empoerados da terra vermelha de São Pantaleão, riam-se a bom rir apesar da profunda tristeza do crepúsculo, que nesse dia não vestira as galas do costume.
O Pescada, mal o tempo levantou, mudou-se, junto com a filha e a sogra, para um sítio ao Caminho Grande, onde Ana Rosa esteve à morte Chegaram a fazer Junta de médicos.
Desde então o pobre Manuel vivia muito apoquentado. Falou-se que os seus cabelos tinham embranquecido totalmente e que ele agora se dedicava ao trabalho como nunca, com uma espécie de furor, um desespero de quem bebe para esquecer a sua desventura.
A nova firma comercial, Silva e Dias, nasceu entretanto, no meio da mais completa prosperidade.
Seis anos depois, em meado de fevereiro, havia uma partida no Clube Familiar Era uma galanteria que os liberais dedicavam a um seu correligionário político, chegado da Corte por aqueles dias, com destino à presidência do Maranhão.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.