Por Aluísio Azevedo (1897)
"— É Bonaparte que reúne os seus soldados para a guerra... Não vês além esfervilhar aceso o oceano de baionetas?... Olha! vão baterse! Agitamse por toda a parte as águias vitoriosas! multidão saúdao grande corso! Ele agora passa em revista as tropas, montado no seu cavalo branco... Fervem gritos de entusiasmo, clarins ressoam, atroa os ares o rufo dos tambores! Oficiais, refulgentes de ouro, galopam sobre os rastros do meu Imperador. Como vai belo! Da palidez da sua fronte e da sombra de seus olhos transparecem fulgurações divinas. O seu sorriso É um clarão de glória... Eilos que partem! Já mal se avista o fuzilar das armas e mal se ouvem trovejar os tambores. É a tempestade que se afasta para rebentar além. Rompeu o fogo! Estão em plena batalha! A pólvora os embebeda numa nuvem de fumo. Ninguém mais se entende! Chocamse os esquadrões, retinem os ferros, ronca a metralha! Avante! Avante!
"E Laura, de pescoço estendido, a boca aberta, o olhar disparado em flecha, deixouse cair sobre as mãos, numa atitude de esfinge, e murmurou, apenas percetivelmente:
''— Viva Napoleão
"E, num estranho chorar de morta, começaramlhe as lágrimas a escorrer dos olhos pelas faces emurchecidas, sem um soluço, nem um gemido.
"— Laura chamei, tomandoa nos meus braços.
"Ela deixou pender molemente a cabeça sobre meu ombro, estirou os membros, e um extremo suspiro lhe fugiu do peito.
"Já não vivia.
"Apodereime dela então, louca, sem consciência de mim (Ainda era tão formosa!) e colei meu lábios aos seus amortecidos, e enlaceia toda fria contra o meu colo ardente, bebendo o derradeiro calor daquele idolatrado corpo já sem vida.
"E foi a última vez que amei... para sempre!"
— Vês tu? interrogou Ambrosina, entre sorrindo e triste, quando Gustavo fechou o livro; para sempre!...
Ele demorouse um instante a contemplar, muito abstrato, a capa do manuscrito; depois, como se despertasse, o restituiu à dona, e foi buscar o chapéu e a bengala.
— Adeus... disse.
— Para onde te atiras? indagou ela.
— Não sei...
— E quando voltas?
— Nunca mais...
— Hein? Nunca mais?!
— Sim. Adeus.
Houve um silêncio, durante o qual o desgraçado em vão esperou que a amante lhe cortasse a retirada com uma carga de carícias; Ambrosina não se moveu do divã em que estava, e murmurou afinal, de olhos meio cerrados:
— Pois adeus...
Gustavo despejouse para a rua, levando a morte no coração. Dizialhe no íntimo um sinistro pressentimento que desta vez não iria a caprichosa, como das outras, desencoválo donde se escondesse ele, para o reconduzir, escoltado de beijos, ao seu delicioso presídio.
— Está tudo acabado! Tudo acabado! monologava o infeliz, atravessando a praça de D. Pedro I.
E era ela quem, de olhos secos e boca vazia, lhe fechava a porta da alcova; e era ele quem agora estalava de ansiedade por lhe cair de novo aos pés, rogandolhe que lhe deixasse continuar a ser martirizado e aviltado!
Ah! não se pode avaliar dessas primeiras horas de abandono, sem se ter sido um dia desprezado de súbito pela mulher amada; são séculos de uma agonia constante e mortífera, que nos converte a existência na mais pesada das grilhetas, e nos reduz o coração a uma carnaça babujada e dilacerada pela matilha dos ciúmes e das saudades. Todo o nosso organismo se transforma então num laboratório de fel bilioso, onde o espírito vai buscar a tinta negra e amarga com que veste os seus gemidos e os seus lutuosos pensamentos; agre período de desfibração do nosso pobre ser, durante o qual perdemos todas as forças de resistência para as lutas da vida moral e física.
Só dois dias depois dessa inquisitorial tortura, em que de todo ele apenas se conservou inabalável o próprio mal que o devorava, foi que Gustavo descobriu por fim a verdadeira razão daquele insólito desabrimento de Ambrosina, e da proterva franqueza com que lhe patenteara as secretas podridões da sua libertinagem; é que a vil tinha já de olho, em virtual preparação, quem o devia suceder no amor exofício, um guardamarinha de dezoito anos, moreno e meigo, tímido como as primeiras violetas de junho, e lindo como o primeiro amor dos adolescentes.
Gustavo os vira juntos uma vez, por acaso, ao fundo de um camarote no Politeama, tão felizes e tão invejados, que teve de fugir dali para não cometer algum crime. Depois começou a encontrálos por toda a parte, sempre inseparáveis e confidenciais; encontrouos nas corridas do JockeyClub, no jardim do hotel Dori, nos gabinetes particulares do Paris, nos bailes do Rocambole e na caixa do Alcazar.
E sua alma pôsse mais negra e infecta do que a lama dos esgotos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.