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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Tratando-se de celebrar a semana santa na capela real, mandou o príncipe regente que o cura da capela, o Padre Antônio Pedro, escolhesse em todos os coros existentes na cidade do Rio de Janeiro cantores com boas vozes e capacidade reconhecida para ajudar às cerimônias daquela suntuosa solenidade, e só do seminário de S. Joaquim foram tirados sete meninos que depois receberam do Sr. D. João, em nome da rainha, a nomeação de capelães cantores, e desses vive ainda hoje um, que é o Sr. Padre-mestre Joaquim Severino Gomes de Abreu.

No tesouro do imperial colégio de Pedro II conserva-se ainda atualmente uma âmbula de ouro de grande merecimento artístico, que pertencera desde longa data ao seminário de S. Joaquim. O Sr. D. João, príncipe regente, notando que ela precisava de conserto, mandou efetuar este à sua custa, mostrando neste fato, aliás muito simples, que se interessava pelo estabelecimento, e depois distinguiu os seminaristas de S. Joaquim concedendo-lhes a medalha de que já falei.

Mas esta proteção da majestade arrefeceu no fim de breves anos, e em 1818, recebeu o seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim o primeiro golpe e a primeira injustiça.

Acabava de chegar, em outubro de 1817, ao Rio de Janeiro uma divisão de tropas portuguesas, e sendo necessário acomodar os soldados, e não bastando para isso os quartéis existentes e alguns que se improvisaram, transformou-se também em quartel o seminário de S. Joaquim.

Por decreto de 5 de janeiro de 1818, e sob informações e parecer do Bispo D. José Caetano da Silva Coutinho, foi extinto o seminário de S. Joaquim, sendo o edifício e suas dependências incorporados aos próprios da coroa, percebendo os rendimentos do patrimônio do extinto seminário o episcopal de S. José, para o qual deviam passar os alunos que tivessem vocação e habilitação para o estado eclesiástico, ficando os outros adidos ao corpo de artífices engenheiros da divisão portuguesa, que para quartel de um dos seus corpos recebera aquela casa, propriedade dos órfãos pobres.

Este arranjo violento foi uma espécie das célebres aposentadorias que logo depois da chegada da família real portuguesa fizeram o tormento dos habitantes da cidade do Rio de Janeiro.

Admira a sem cerimônia com que se arrancou uma propriedade a seus legítimos donos! Mas, ao menos naquele bom e suavíssimo tempo, o Governo não dava contas de seus atos e fazia violências sem receio de responsabilidade.

Deve-se supor, para de algum modo desculpar esse ato cruel, que o seminário de S. Joaquim se apresentava em lamentável decadência em 1818, e que, parecendo árvore incapaz de dar bons frutos, o Governo julgou acertado cortá-la pela raiz.

Admitindo-se, porém, essa hipótese, o que cumpria ao Governo fazer era regenerar a instituição, dar-lhe elementos de vida e de prosperidade, chegar terra à árvore e cultivá-la, e tratá-la com esmero e zelo para que ela frutificasse.

Se a instituição fosse filha do Governo, se o patrimônio do seminário pertencesse por alguma condição ao Governo, o decreto de 5 de janeiro de 1818 seria apenas um erro, uma medida mal aconselhada e inconveniente. Sendo, porém, a instituição inteiramente alheia do Governo, e o seminário e o seu patrimônio propriedade dos órfãos pobres de S. Joaquim, e propriedade havida por doações explícitas e claras, aquele decreto foi uma vidência que não tem explicação, e ainda menos escusa.

E, no entanto, o decreto de 5 de janeiro de 1818 teve a seu favor a informação e o parecer do Bispo D. José Caetano da Silva Coutinho, um príncipe da Igreja, venerando e sábio! Quandoque dormitat Homerus.

Aquele que deveria ser o natural defensor do seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim abandonou-o no momento supremo, e concorreu de sua parte para que se desmantelasse a obra concedida e começada a realizar pelo sacristão-mor da igreja de São Pedro, e desenvolvida pelo Bispo D. frei Antônio de Guadalupe e por seus sucessores, com o auxílio e o concurso de alguns homens benéficos e piedosos.

E sobre um mal veio logo outro.

Em 1818, desapareceram, com o arquivo do seminário de S. Joaquim, os títulos e documentos do respectivo patrimônio.

O ministro conde dos Arcos acudiu em socorro do patrimônio. Está visto que devia mostrar-se algum cuidado com o espólio do seminário morto.

O Dr. José da Silva Lisboa, depois visconde de Cairu, e uma das maiores ilustrações do Brasil, foi encarregado de colher as possíveis informações sobre a origem e história da instituição sacrificada. Recebeu a missão de escrever o necrológio da defunta e fez tudo quanto pôde para desempenhá-lo. Dos dois últimos reitores que ainda viviam, o abade José dos Santos Salgueiros e o cônego Plácido Mendes Carneiro, e dos benfeitores Joaquim Antônio Insua e José Severino Gesteira, obteve algumas notícias e esclarecimentos que lhe serviram para descobrir e recolher os poucos documentos que hoje se possui a respeito do seminário de S. Joaquim.

(continua...)

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