Por Inglês de Sousa (1891)
Começava a reconhecer que fora precipitado na determinação do dia da viagem, antes de ter saciado aquela imensa curiosidade de amor que o devorava, porque, com calma e reflexão, sondando o íntimo da sua natureza ardente de matuto, sem paixão nem cegueira, constatava, verificava e reconhecia que o gozo almejado lhe era tão necessário, como o alento da fé, que o trouxera das bordas do lago Saracá às paragens do Guaranatuba, era indispensável para a realização da grandiosa empresa que tentara. Sem satisfazer primeiro as exigências do temperamento animal, nunca seria capaz de levar a cabo a obra de dedicação e sacrifício, seria um homem incompleto, não encontraria um estimulante assaz forte para o robustecer contra as fadigas e descômodos da viagem, as fomes, as perseguições e as misérias; ficar-lhe-ia sempre na alma o espinho pungente daquele prazer não provado, daquela curiosidade insatisfeita, para o ferir no mais solene momento, para lhe fazer nascer a dúvida no espírito, para abalar a crença nos grandes atos de martírio com o pesar, talvez, das delícias incomparáveis que lhe teriam proporcionado os braços da Clarinha. E agora, nesse momento de grande sinceridade, em que se fazia justiça severa, podia confessar que o sangue de Pedro de Morais não lhe corria nas veias sem que influísse sobre o seu caráter indolente, comodista e sensual, que só um grande sentimento, o remorso por exemplo, um profundo arrependimento de grandes pecados cometidos, poderia arrastar ao mais' completo sacrifício que a um homem é dado fazer da sua pessoa e das suas aspirações.
Exaltava-se, recordando-se de que tivera a Clarinha ali, naquela cama, quase nos seus braços, palpitante e apaixonada, e que nem sequer ousara tocar-lhe, limitando-se a dizer-lhe coisas tristes. Tinha acessos de raiva quando pensava que deixara escapar ocasião tão favorável, que provavelmente não se repetiria no curto prazo que lhe restava. Dava murros na cara para se castigar da falta que cometera. Ele, padre Antônio de Morais, tão ousado de imaginação que se arrojara aos mais inconfessáveis pensamentos, levando a ponta da sua curiosidade investigadora às mais sagradas regiões dos mistérios divinos, deixara-se ficar como um palerma ao pé de uma rapariga que se lhe oferecia, com os braços pendentes e resignados, os olhos úmidos, a boca entreaberta, solicitando beijos.
Havia já algum tempo que desertara a macia rede de linho, e passava as noites na marquesa de palhinha, em cama feita carinhosamente de alvos lençóis finos, na convicção de que evitaria assim mais facilmente as tentações da carne. Mas a lembrança de que ali estivera assentada a Clarinha, deixando um vago perfume de sua pessoa naqueles linhos brancos, e como que o sinal do seu corpo na leve depressão das roupas da cama, tornava-lhe mais perigoso aquele leito do que jamais o fora o regaço macio da rede. Ocupava o mesmo lugar que ela ocupara, e sentia desmaios de gozo e ardores formidáveis com aquela aproximação ideal dos corpos. A idéia de que perdera tudo levava a paixão às raias do delírio, havia momentos em que pensava em assassinar o velho tuxaua e o Felisberto, e fugir com a Clarinha para o mato, para a amar, debaixo dos castanheiros, sob o sol ardente, à luz esplêndida de um dia de verão, em pleno ar, em plena liberdade, ao som da música dos passarinhos e à face de toda a natureza, que desejava provocar a um desafio insensato. O sonho da carne nua, palpitante à luz do sol, lembrava-lhe aquele trecho de epiderme acetinada e colorida, entrevisto ao chegar, nas formas excitantes da mameluca, e os seus olhos negros e aveludados, cheios de ternura, os cabelos recendentes do cheiro afrodisíaco das mulatas paraenses, e tinha alucinações cruéis... A Clarinha estava ali, sentada na cama, como na véspera, mas despida, só com aquele cabeção indiscreto com que a surpreendera à chegada, e ele, num frenesi agarrava-a pela cintura, atirava-a sobre os travesseiros; cobria-a de beijos loucos, e desfalecia de prazer nos braços da mameluca, embrutecido por um perfume ativo de trevo e de pipirioca.
O dia o veio achar num abatimento indescritível. Ergueu-se a custo, com a cabeça pesada e o corpo lânguido, abriu a porta do quarto e saiu para a varanda, vestido como se deitara, com uma camisa de chita e umas calças de brim.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.