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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Impacientava-se por preparar o enxoval do seu filhinho Um enxoval bom, completo, a que nada, nada, faltasse Ah! ela sabia perfeitamente como tudo isso era feito; qual a melhor flanela para os cueiros quais as melhores toucas e os melhores sapatinhos de lã. Via em sonhos um berço junto a sua rede, com um entezinho dentro, todo rendas e fitas cor-de-rosa, a vagir uns princípios de voz humana. E fazia-se muito pressurosa, a queimar alfazema, para defumar os panos da criança; a preparar água com açúcar, para curar-lhe as cólicas; a evitar em si mesma o abuso do café e de todo o alimento que pudesse alterar-lhe o leite, porque ela queria ser a própria a criar o seu filho, e por coisa nenhuma desta vida, o confiaria à melhor ama. E, a pensar nestas coisas, que, aliás, nunca ninguém procurara ensinar-lhe, esquecia-se inteiramente dos vexames e das dificuldades que a sua falsa posição teria de levantar; nem sequer, lhe passava pela idéia a hipótese de não casar com Raimundo. “Oh, isso havia de ser, desse por onde desse e sofresse quem sofresse!” Assim lhe correu o dia. Só despertou dos seus devaneios às duas e meia da tarde, quando o sino da Sé badalou o dobre dos finados “Por quem estaria dobrando?...” perguntou de si para si, tomada de compassiva estranheza. Parecia-lhe absurdo que alguém cuidasse em morrer, quando ela só pensava em dar à vida aquele outro alguém que tanto a preocupava.

Todavia, o dobre continuou ao longe, rolando no espaço, como um soluço que se desdobra. E aquele som lúgubre, ali, na saia toda fechada, parecia fazer o dia mais triste e o céu mais sombrio e chuvoso. Ana Rosa sentiu um ligeiro tremor de medo indefinido arrepiar-lhe as carnes; lembrou-se de rezar, chegou mesmo a dar alguns passos na direção da alcova, mas deteve-a um rumor de vozes que vinha da nua.

Foi até à janela. O zunzum do povo crescia “Alguma briga!...” pensou ela, encostando a cara na vidraça, para espiar o que se passava lá fora

O motim recrescia à proporção que um grupo imenso de homens e mulheres se aproximava cheio de curiosidade Ana Rosa pôde então compreender a causa do ajuntamento: dois pretos traziam um corpo dentro de uma rede, cuja taboca carregavam no ombro.

— Credo! Que agouro!... disse impressionada.

E quis afastar-se da janela, mas deixou-se ficar, por curiosidade. “Algum pobre homem que ia doente para o hospital... ou talvez fosse algum defunto, coitado!...” E procurou pensar no filho, para desfazer a impressão desagradável que acabava de receber.

O corpo estava inteiramente coberto por um lençol de linho e parecia ser de um homem de boa estatura. Algumas manchas vermelhas destacavam-se aqui e ali na brancura do pano.

Ana Rosa sentia já certo interesse aterrorizado; quis de novo deixar a janela; agora, porém, o que se passava lá na rua atraía-lhe irresistivelmente o olhar. A fúnebre procissão aproximava-se entretanto chegando-se para a parede do lado em que ela estava Ia deixar de ver, mas não lhe convinha abrir a janela, por causa do vento; além disso ameaçava chuva; era até muito natural que estivesse chuviscando. Continuou a olhar atentamente, com o rosto achatado de encontro aos vidros.

A rede adiantava-se a pouco e pouco, jogando com a irregularidade da rua e do caminhar desencontrado dos carregadores; o que obrigava o lençol a fazer e desfazer fartas nugas instantâneas. Ana Rosa sentiu-se inquieta e sobressaltada, como se aquilo lhe dissera respeito; a rede ia desaparecer de todo a seus olhos, porque cada vez mais se aproximava da parede, já mal podia alcança-la com a vista. Céus! Dir-se ia que se encaminhava para a porta de Manuel!

Uma rajada de nordeste esfuziou nos vidros. Os chapéus dos transeuntes saltaram como folhas secas; as janelas de diversas casas bateram contra os caixilhos num repelão de cólera; o vento zuniu com mais força e, numa segunda refrega, arrancou de uma só vez o lençol que cobria a rede.

Ana Rosa estremeceu toda, deu um grito, ficou lívida, levou as mãos aos olhos. Parecia-lhe ter reconhecido Raimundo naquele corpo ensangüentado.

Duvidou e, sem animo de formular um pensamento, abriu de súbito as vidraças.

Era com efeito, ele.

O povo olhou todo para cima e viu uma coisa horrível. Ana Rosa, convulsa doida, firmando no patamar das janelas as mãos, como duas garras, entranhava as unhas na madeira do balcão, com os olhos a rolarem sinistramente e com um riso medonho a escancarar-lhe a boca, as ventas dilatadas, os membros hirtos.

De repente, soltou um novo rugido e caiu de costas.

A mãe-preta acudira logo e arrastou-a para o quarto.

A moça deixou atrás de si, pelo chão, um grosso rastro de sangue, que lhe escorria debaixo das saias, tingindo-lhe os pés. E, no lugar da queda, ficou no assoalho uma enorme poça vermelha seguinte.

No dia seguinte por todas as ruas da cidade de São Luís do Maranhão, e nas repartições públicas, na Praça do Comércio, nos açougues nas quitandas, nas saias e nas alcovas, boquejava-se largamente sobre a misteriosa morte do Dr. Raimundo.

Era a ordem do dia.

(continua...)

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