Por Aluísio Azevedo (1897)
E Gustavo, arfando, deixouse cair em uma cadeira, a segurar a cabeça com as duas mãos.
— Não foi um homem... segredou Ambrosina, indo afagarlhe os cabelos. Põe à larga o coração e reprime os teus zelos... Vou confiarte um manuscrito, que outros olhos não viram além dos meus... Se o leres, ficarás inteiramente tranqüilo... e talvez curado.
— Um manuscrito?
— Sim, querido, uma simples nota de minha pobre vida, mas pela qual poderás penetrar até ao fundo do meu coração, e de lá voltares sarado para sempre da poética ilusão de amor que te inspirei. Espera um instante.
E daí a pouco voltava ela com um pequeno livro de capa negra, que passou a Gustavo.
Este abriu o livro, e leu na primeira página:
"LAURA"
— Que significa este nome? exclamou o rapaz.
— Lê! disse Ambrosina. É quase nada... obra de alguns minutos de leitura...
Gustavo afastou o reposteiro da janela e, à luz que vinha de fora coada pelas cortinas, começou a ler o seguinte:
"Era no inverno, um céu de lama enlameava a terra. Eu vagava pelas ruas, sem destino, embriagada e foragida.
"Nesta noite havia rompido com o meu amante, o meu primeiro homem, porque a súbita loucura do outro, que tive por marido, não lhe deu tempo para me fazer mulher.
"Na questão com meu amante era deste a razão e minha toda a culpa: fora eu nessa mesma tarde surpreendida por ele a traílo, ao fundo da chácara, sob um caramanchão de jasmins, com um miserável que lhe parasitava a bolsa e lhe corrompia o caráter.
"Fugi de casa com medo que ai me matassem numa crise de ciúmes, e quando me achava lá fora, prestes a sucumbir ao cansaço e ao desamparo, fui socorrida por um pobre homem, generoso e rude, que carregou comigo e me recolheu ao leito virginal de sua idolatrada filha.
"Foi então que conheci Laura.
"Um sonho! Dezesseis anos, olhos negros e ardentes, boca desdenhosa e sensual, dentes irresistíveis e um adorável corpo de donzela.
"Acordei essa noite nos seus braços.
"Foi o meu único amor em toda a vida. Jamais em delírio de sentidos, paixão, esquecimento de tudo, alma e carne se fundiram numa só lava de desejo insaciável e ardente, como com as nossas sucedeu para sempre nessa noite imensa, misteriosa, revolta e sombria como um oceano maldito.
"Fugimos as duas para a Europa.
"O pai de Laura morreu de desgosto.
"E para nós outras se abriu uma estranha vida de delícias trancendentais e cruéis. Primaveramos em Nice e fomos de verão a Paris. O velho mundo, sistematicamente orgíaco, nos era indiferente e banal. Vivíamos uma para a outra.
"Laura, porém, ao declinar do estio, começou a sofrer. As violetas dos seus olhos, mais doces que as estrelas do Adriático, iamse fanando e amortecendo; vinhamlhe às faces sinistras manchas corderosa, e, aos primeiros crepúsculos do outono, todo o seu mimoso corpo de flor impúbere caiu a definhar, pendido para a terra.
"Eu passava os dias e as noites ao lado dela, numa vigília de beijos angustiosos, em que o meu amor libava dos seus lábios murchos a derradeira essência.
"Prazer horrível! Quantas vezes não imaginei que naqueles nossos sombrios êxtases, ia beberlhe o último alento? mas em vão tentava a morte intimidarme, rondandonos as carícias e disputando da minha boca a doce e cobiçada presa; mais forte do que ela, era a sangüínea onda do desejo que nos arrebatava, num só vulcão de fogo, aos páramos do supremo delírio da carne.
"Laura voltava sempre estarrecida e chorosa desses fatais arrancos dos sentidos. Eu bebialhe as lágrimas. "Uma noite, ergueuse a meio na cama, e fitoume estranhamente. Tinha os olhos em sobressalto, a boca desvairada.
"— Laura! exclamei, sacudindoa nos meus braços.
"Ela conservouse imóvel.
Laura! minha Laura! não me atende? é a tua Ambrosina que te fala! Ouve! escuta, meu amor, minha vida!
"E cobrialhe o trêmulo corpo de aflitivos beijos.
"Laura, porém, continuava estática e de olhos fitos nos meus. Afinal levantouse sobre os joelhos, volveu a cabeça vagarosamente de um para outro lado, e depois, soerguendo o seu débil braço de virgem, a apontar à toa na inspiração do delírio que a arrebatava para os meus remotos devaneios da puerícia, disseme com a voz comovida e quase extinta:
"— Não ouves?..
"— O quê?!
"— O som longínquo dos tambores...
"— Minha Laura!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.