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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Celebravam-se, porém, ainda mais duas, a de N. S. das Dores e a de S. José, cujos festeiros eram sempre seminaristas admitindo-se, no entanto, o concurso de devotos de fora do seminário, fazendo-se para esse fim eleição anual de juízes, procuradores, etc.

Vou agora mostrar, com a simples exposição de outros costumes e usos observados no seminário de S. Joaquim, como os pobres órfãos, os alunos chamados não contribuintes ou gratuitos, eram, de fato, contribuintes pouco mais ou menos como os outros.

Os seminaristas tinham por obrigação varrer a igreja do seminário e cuidar da sacristia, trazendo-as sempre no mais completo asseio, e dividiam entre si este serviço, fazendo semanas, de modo que cumprissem todos o mesmo dever.

Até aqui a regra era geral. Aparece, porém, em seguida, uma exceção que vai tornar, como disse, os seminaristas, gratuitos em nome, contribuintes de fato.

Os alunos pobres do seminário de S. Joaquim faziam semanas de coros, indo dois para o coro de S. Pedro, dois para o da Candelária e dois para o da Misericórdia, recebendo por esse serviço o seminário uma quantia anual.

Costumavam também sair em comunidade para acompanhar enterros, porque nos testamentos deixados por alguns finados achava-se a cláusula de uma esmola de quatrocentos, duzentos e cem mil-réis, no mínimo, legada aos pobres órfãos de S. Joaquim, com a obrigação de irem estes acompanhar ao último jazigo os restos mortais dos legatários, entoando na rua o salmo Miserere, e na igreja, depois da encomendação, um bem garganteado Liberame, dando o reitor do seminário a oração.

Ainda alguns devotos, mandando cantar missas por qualquer intenção, entendiam-se às vezes com o reitor do seminário de S. Joaquim, e lá iam os seminaristas entoar o seu cantochão mediante uma esmola mais ou menos elevada, que pertencia sempre ao estabelecimento.

Segue-se, portanto, que não podia haver gratuitos menos onerosos do que os pobres órfãos de S. Joaquim, que durante muito tempo andaram com sapatos e cintos diferentes dos que traziam seus colegas ricos, e nem ao menos comiam com eles toucinho à mesma mesa, e tinham ou recebiam à parte o seu purgante da casa e o seu ponto e vírgula, como se até nos pontos e vírgulas e nos purgantes se devesse estabelecer diferença entre pobres e ricos!

Outro costume foi por muitos anos observado, pelo qual os órfãos pobres de S. Joaquim recolhiam auxílios certos e às vezes avultados, que aproveitavam, aliás, a todos os seminaristas, porque vinham a pertencer ao seminário.

Saíam os pobres meninos com as suas vestes, que os faziam chamar carneiros e levando nas mãos uma bolsa, corriam os diversos bairros da cidade, entoando em alta voz estas palavras despertadoras da caridade pública. “Dai esmola aos meninos órfãos de S. Joaquim, pelo amor de Deus!”

E não é preciso dizer que as bolsas voltavam recheadas dos óbulos da caridade, mas também é verdade que os meninos viam-se expostos aos motejos e às zombarias dos garotos e dos rapazes sem juízo ou sem generosidade.

Semelhante prática tinha em verdade graves inconvenientes. Não era certamente a mais própria para o complemento da educação moral dos meninos, e podia mesmo facilitar a sua desmoralização.

Outros meios havia para chamar a caridade pública em socorro do seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim, e foi assim que entendeu o reitor Padre Plácido Mendes Carneiro, que acabou com esse triste costume.

Faz a maior honra à memória do Padre Plácido o fato de se encontrar o seu nome ligado a todas essas pequenas, mas importantes reformas tendentes a melhorar a posição dos alunos pobres do seminário, e a porém um termo a todas as distinções mesquinhas e repugnantes que faziam correr uma linha divisória entre os seminaristas contribuintes e os chamados gratuitos, com ofensa evidente da caridade e aviltamento dos pobres.

Tais eram os sistemas de administração e de estudos, e os costumes do seminário dos órfãos de S. Joaquim.

No princípio do século atual, tinham os seminaristas por mestres de latim o padre João Batista de Meireles, que depois foi vigário da freguesia, hoje cidade de Vassouras, e por mestres de música, piano e cantochão o Padre José de Oliveira e José Joaquim, que era ainda mais conhecido pela alcunha Os cinco sentidos; e tantos progressos mostravam os estudantes, e tanto crédito merecia o seminário, que logo depois da chegada da família real, um e outro receberam uma prova de consideração da parte do príncipe regente o Sr. D. João.

(continua...)

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