Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Eu?...
— Sim, senhor; em breve falaremos. No entanto, o Sr. Félix vai responder-me sem dúvida: é certo que deu à senhora sua prima a esperança de com ela casar-se?...
Félix não respondeu; ele tremia mais que nunca; porque o riso do sarcasmo, o riso insultante da ironia estava nos lábios do desconhecido; Félix tremia de medo... e de raiva.
— É certo?... repetiu o desconhecido levantando a voz; verdade, Sr. Félix, verdade; é certo?...
— Sim... balbuciou o infeliz moço.
— Pois, senhor, disse o desconhecido voltando-se para Manduca; pode assegurar à sua irmã que seu primo está pronto para cumprir o que disse; não é assim, Sr. Félix?...
— Sim...
— Será possível!... exclamou Manduca espantado; porém, que diabo de homem é o senhor?...
— Um íntimo amigo de seu primo; não é assim, Sr. Félix?...
— Pois, senhor, fico-lhe muito agradecido pelo obséquio que acaba de fazer-me; e como desejo ir já levar a resposta à mana Rosa, espero que me diga qual é o negócio que tem comigo esta noite.
O desconhecido tirou o relógio, e depois de examinar as horas, disse:
— Às nove horas da noite esteja o senhor junto à igreja da Lapa do Desterro.
— Posso saber para quê?...
— Basta saber que é para salvar de um perigo iminente a Sr.ª D. Honorina... armam-lhe terrível laço.
— Quem?...
— Um homem chamado Brás... — Por alcunha — o mimoso?...
— Exatamente.
— Estou pronto; lá estarei. Adeus, meu primo; senhor, até às nove horas da noite.
— Junto à igreja da Lapa do Desterro.
Manduca saiu. Apenas se viu só com Félix, o desconhecido o segurou pelo braço, e levantando-o da cadeira:
— Agora a cruz cravada de brilhantes!... disse ele.
Félix dirigiu-se à carteira, abriu-a... descobriu um escaninho de segredo, e daí tirou uma boceta forrada de veludo preto; abriu depois esta, e o desconhecido viu uma cruz cravada de brilhantes.
— O senhor acha-se vestido... tome a casaca, e saiamos.
— Para onde?... perguntou Félix.
— Para ir à casa de Hugo de Mendonça entregar a cruz de brilhantes a Honorina.
— Oh!... não!... senhor!... eu não posso!...
— Há de ir: eu lhe prometi que seria por eles perdoado; disse-lhe que bastariam duas únicas palavras.
— Será possível?...
— Eu lho prometo de novo pela minha honra.
— Mas a quem direi essas palavras?...
— A Honorina.
— E quais são essas palavras?...
— Peça-lhe de joelhos, que ela obtenha o perdão e o esquecimento de seu crime... digalhe que só uma pessoa no mundo foi capaz de obrigá-lo a ir restituir-lhe a cruz de brilhantes, e a provar assim a inocência de seu primo Lauro de Mendonça; mas que essa pessoa exige dela que lhe perdoe, e que faça com que sua família perdoe também e esqueça o seu delito... Honorina lhe perguntará quem pôde fazer tanto, e o senhor responderá que foi... note bem, senhor, aqui vão as duas palavras...
— Diga-as...
— O moço loiro.
XXXV
Jorge e Raquel
Há uma dor aguda e profunda que punge como nenhuma outra; uma dor para a qual não há medicina possível — é o amor sem esperança.
Os que dizem que o tempo faz esquecer um amor não retribuído, não fazem mais do que repetir uma blasfêmia que ouviram; e o primeiro homem que o disse, o blasfemo, pensou ter amado sem que verdadeiramente amasse; e, quando procurou o amor, e achou vazio o coração, julgou que o tempo o tinha extinguido, semelhante àquele que, despertando de um sonho, buscasse a seu lado o objeto com que sonhava. Ama-se uma só vez na vida; e esse amor, o verdadeiro, é aroma do coração, que nunca se evapora de todo; é chama do espírito que nem se extingue, nem se abranda.
E, pois, o amor sem esperança é o martírio extremo da alma; é a dor terrível... inexplicável... incurável... eterna.
Aquele a quem morreu a formosa amada, sofre muito... muito; mas ainda sofre menos que o amante infeliz; porque na vida de lágrimas, que vive, tem a lembrança do amor que gozou; soam a seus ouvidos as doces palavras que ouviu; tem a saudade com sua agridoçura tão maviosa; tem o espírito repleto de imagens e de recordações; tem o coração cheio de vida de lágrimas...
Mas quem ama sem esperança, não tem nada no mundo... tudo é feio... estéril... negro; ontem... hoje... amanhã... sempre tudo feio... estéril... negro: ou então tem diante de seus olhos a beleza da mulher insensível, fazendo o seu cruel martírio; tem a felicidade dos outros risonha e galante defronte de sua desgraça carrancuda e feia; tem a vida dos outros desenhada em alegre painel ao pé de seu quadro de horrores; tem tudo belo fora... longe... alheio... dos outros; e tem em si somente a noite na alma... a morte no coração.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.