Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Soca chamam os índios à lagarta, que é também como bichos-daseda, quando querem morrer que estão gordos, a qual se cria de borboletas grandes que vão de passagem. Às vezes se cria essa lagarta com muita água e morre como faz sol; outras vezes se cria com grande seca e morre como chove. Uma e outra destrói as novidades de mandioca, algodão, arroz; e faz mal à cana nova de açúcar, e às vezes é tanta esta lagarta, que vão as estradas cheias delas, e deixam o caminho varrido da erva, e escaldado. E quando dão nas roças da mandioca chasqueiam de maneira que se ouve um tiro de pedra, às quais comem os olhinhos novos, e depois as outras folhas; e muitas vezes é tanta que comem a casca dos ramos da mandioca; e se se não muda o tempo, destroem as novidades de maneira que causa haver fome na terra, e o chão por onde esta praga passa, ainda que seja mato, fica escaldado de maneira que não cria erva em dois anos.Imbuá é outra casta de lagartas verdes pintadas de preto e a cabeça branca, e outras pintadas de vermelho e preto, e todas são tão grossas como um dedo, e de meio palmo de comprido, com muitas pernas, e as quais crestam a terra e árvores por onde passam.Há outras, mais pequenas que as de trás, que são pretas, de cor muito fina, todas cheias de pêlo tão macio como veludo, e tão peçonhento que faz inchar a carne se lhe tocam, com cujo pêlo os índios fazem crescer a natura; e chamam a estas socaúna.Nos limoeiros e em outras árvores naturais da terra se criam outras lagartas verdes, todas cobertas de esgalhos verdes, muito sutis e de estranho feitio, tão delgados como cabelos da cabeça, o que é impossível poder-se contrafazer com pintura; estas têm os índios por mais peçonhentas que todas, e fogem muito delas; e afirmam que fazem secar os ramos das árvores por onde passam com lhes morderem os olhos.Em que outras árvores, que se chamam cajueiros, se criam umas lagartas ruivaças, tamanhas como as das couves em Portugal, todas cobertas de pêlo, as quais sentem gente debaixo, sacodem este pêlo de si, e na carne onde chega, se levanta logo tamanha comichão, que é pior que a das urtigas, o que dura todo um dia; e criamse estas nos ramos velhos.
C A P Í T U L O CXVII
Que trata das lucernas, e de outro bicho estranho.
Na Bahia se criam uns bichos, a que os índios chamam mamoás, aos quais chamam em Portugal lucernas, e outros caga-lume, que andam em noites escuras, assim em Portugal como na Bahia, em cujos matos os há muito grandes; os quais entram de noite nas casas às escuras, onde parecem candeias muito claras, porque alumiam uma casa toda, em tanto que às vezes uma pessoa de súbito vendo a casa clara, deitando-se às escuras, de que se espanta, cuidando ser outra coisa; dos quais bichos há muita quantidade em lugares mal povoados.Também se criam outros bichos na Bahia mui estranhos, a que os índios chamam buijeja, que são do tamanho de uma lagarta de couve, o qual é muito resplandecente, em tanto que estando de noite em qualquer casa, ou lugar fora dela, parece uma candeia acesa, e quando anda é ainda mais resplandecente. Tem este bicho uma natureza tão estranha que parece encantamento, e tomando-o na mão parece um rubi, mui resplandecente, e se o fazem em pedaços, se torna logo a juntar e andar como dantes; e sobre acinte se viu por vezes em diferentes partes cortarse um destes bichos com uma faca em muitos pedaços, e se tornarem logo a juntar; e depois o embrulharam num papel durante oito dias, e cada dia o espedaçavam em migalhas, e tornava-se logo a juntar e reviver, até que enfadava, e o largavam.
C A P Í T U L O CXVIII
Que trata da diversidade e estranheza das aranhas e dos lacraus.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.