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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Esta deliberação que pela manhã, à luz do dia, sob o olhar sereno da moça, tomara com virtuosa energia, sustentava-a agora no silêncio do quarto, reputando-a, à luz mortiça do candeeiro de azeite, acertada e salvadora. Pela primeira vez, a noite não lhe trouxera uma modificação nas idéias e nos sentimentos que o dia lhe proporcionara Agora, a sós, no exame de consciência a que se entregava sentia um grande asco da sua hipocrisia, da sua moleza, da rápida degradação moral em que ia caindo. Horrorizava-o aquele amor infame que o salteara de improviso, como um cão danado se atira à garganta do transeunte, e que lhe abalara a fé, a crença, a honradez e a virtude, reduzindo-o a uma criatura sem moral e sem dignidade, vítima indefesa das tentações do inimigo, presa fácil de demônios cobiçosos. Agora, a sua vaidade estava satisfeita, aplaudia-o pela prova que dera, naquela manhã, de que sabia dominar as paixões e os instintos baixos da natureza egoísta. A resolução de deixar a Clarinha, inabalavelmente firmada, mostrava à sua vaidade que assim como rompera naquele dia os laços que o prendiam ao sítio da Sapucaia, os saberia arrebentar em qualquer tempo que a dignidade imperiosa o ordenasse. Bem se sabia forte, incapaz de se deixar dominar por uma mulher, ainda que ela realizasse o ideal da Grécia antiga, a correção palpitante das formas, ainda que conhecesse os segredos lúbricos de Popéia e tivesse as manhas da feiticeira Circe! Podia perfeitamente colher a flor que encontrava no caminho, sem receio de que o perfume o embriagasse, tirando-lhe a razão e fazendo-lhe esquecer o ideal da sua vida de padre! Não pertencia ao número dos fracos, dos que não podem levar aos lábios a taça do prazer, sem que se lhes agarre à boca, e lhes tire o ânimo de a deixar cair ainda cheia! Oh! se ele, padre Antônio de Morais, quisesse gozar as inefáveis doçuras dum amor partilhado, nem por isso a sua carreira se cortaria desastradamente, não se afundaria no lodaçal da sensualidade, que, como o fizera a feiticeira aos companheiros de Ulisses, converte os homens em porcos. Não, tinha a necessária energia e força de vontade para conter-se à borda do abismo, e a calma precisa para lhe sondar a profundeza a olho frio e seguro. Homem, poderia ceder às exigências da natureza sem que por isso se tornasse incompatível com as grandes empresas que demandam coragem, lealdade, desprezo da vida e dos prazeres. Para um homem sensato, o problema era dominar o prazer, regularizá-lo, utilizá-lo mesmo, e não se deixar subjugar pelo gozo; tomá-lo como um acidente agradável na vida, como estimulante para os grandes combates da existência, e não como o seu objetivo principal. Assim, segundo esta filosofia verdadeira, a convicção da própria fortaleza aconselhava-o a encarar a deliberação de seguir viagem como um ato cujos efeitos morais eram importantes, mas suficientes. Desde que ele se via capaz de quebrar o encanto que o prendia ao sítio, para que privar-se de satisfazer as exigências de sua natureza de vinte e três anos, adiando a partida por uma semana ou por um mês? O principal era experimentar a sua força de vontade; uma vez provada, os terrores deviam desaparecer, a dúvida esvaía-se, a regeneração era certa, o arrependimento salutar.

À medida que as horas se adiantavam e a atmosfera do quarto refrescava com a brisa da madrugada, aquela segurança ia dando à resolução inabalável da manhã o caráter duma rematada tolice. Perdido o receio de se deixar dominar por um amor terreno, ao ponto de lhe sacrificar a glória da religião e a salvação eterna, que necessidade havia de perder também a ótima ocasião de consolar o isolamento de toda a mocidade com o gozo dum amor de virgem? Partiria para o sacrifício e para a morte sem ter libado algumas gotas de felicidade neste mundo, sem conseqüências fatais ao seu nome, porque secreta, e à salvação da alma, porque não absorvente, e antes, pelo contrário, sempre possível dum arrependimento oportuno e sincero? Sairia, deixando a Clarinha, aquele tesouro de graças e de beleza, à disposição do primeiro regatão ousado que se aventurasse por aquelas paragens? Que mal resultaria duma hora de esquecimento, de embriaguez mesmo, uma vez que havia certeza de recuperar a razão, para o guiar no governo da vida, tirando toda ação nociva à bebida inebriante? O sacrifício que ia fazer nas brenhas da Mundurucânia, exemplo raro de crença e de fé, não era bastante para resgatar uma culpa?

(continua...)

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