Por Aluísio Azevedo (1884)
Um delírio!
E no dia seguinte, descrições e mais descrições jornalísticas; necrológios, artigos fúnebres, notícias biográficas e poesias dedicadas à “triste morte daquelas vinte primaveras”.
E, o que é mais raro, o fato não caiu logo no esquecimento , porque aí estava o novo processo do assassino para lhe entreter o calor, à feição de um banho-maria. Continuavam, pois, as notícias jurídicas; Coqueiro ia se popularizando, ia conquistando opiniões e simpatias; ia aos pouco se instalando no lugar vago pelo desaparecimento do outro. Mitos colegas se voltavam já a favor dele; até o Simões até o Paiva!
O Paiva, sim! que agora , completamente restaurado com as roupas herdadas de Amâncio , deixava-se ver a miúdo nos pontos mais concorridos da cidade e, entre as palestras dos amigos, mostrava-se todo propenso a justificar o ato do irmão de Amélia.
— Não!, dizia ele, quando lhe tocavam nesse ponto não! O Coqueiro andou bem!...Eu, se tivesse uma irmã, fosse ela quem fosse, faria o mesmo naturalmente!...
* * *
Entretanto, pouco depois do enterro, no meio do burburinho de passageiros chegando no vapor do Norte, uma senhora já idosa, coberta de luto, saltava no cais Pharoux.
Vinha acompanhada por uma mulata, que trazia constantemente os braços cruzados em sinal de respeito, e por um velho gordo e bem vestido, cujas maneiras faziam adivinhar que ele ali não passava de um simples companheiro de viagem.
Como se já tivessem resolvido no escaler o que deviam fazer logo que saltassem, o velho, mal se viu em terra, chamou por um carroceiro, deu a este a sua bagagem com o competente endereço, fez sinal à mulata que seguisse a carroça e, depois de ajudar a senhora a sair do bote, perguntou, solicitamente, se ela queria tomar um carro.
A senhora, muito inquieta, respondeu que preferia ir a pé, e os dois, de braço dado, puseram-se a andar na direção da Rua Direita.
Essa senhora era D. Ângela.
O Campos já lhe havia escrito, comunicando a prisão do filho. A princípio, não se achou com ânimo de falar nisso à pobre mãe; mas seus escrúpulos fugiram totalmente, desde que lhe chegou às mãos aquela terrível denúncia do Coqueiro.
Ângela não esperava pelo golpe e ficou a ponto de perder a cabeça. “Como?! Seria crível?...Seu filho, seu querido filho na prisão, com um processo às costas e sem ter quem lhe valesse!...Ó Santo Deus! Santo Deus! Que isso era demais para um pobre coração de mãe! – Que mal teria ela feito para merecer tão grande castigo?!”
E resolveu seguir para a Corte, imediatamente, no mesmo vapor. Sentia-se corajosa, capaz de todas as lutas, de todas as violências, para salvar seu filho. Esqueceu-se s de seus achaques, do estado melindroso de seu peito, para só cuidar dele; só pensar nessas criatura idolatrada que valia mais, no fanatismo de seu afeto, do que todas as grandezas da terra, todos os esplendores do mundo e todas a potências do céu.
— Oh! Haviam de restituir-lhe o filho!...Estava resolvida a atirar-se aos pés dos juizes, das autoridades, do Imperador, se preciso fosse, para resgatá-lo! — Não era possível que só encontrasse corações to duros, que resistissem a tanta lágrima, a tamanha dor e a tamanho desespero!
No primeiro paquete achava-se abordo, apenas seguida de uma escrava que, entre as suas, lhe merecia mais confiança.
Mas, agora, pelo braço de um estranho que a não desamparava por mera delicadeza, ou talvez por compaixão; agora, no grosseiro tumulto do cais, estremunhada no meio daquela gente desconhecida — a infeliz sentia-se fraquear.
Não sabia que fazer, — se ir em busca do Campos ou correr à toa por aquelas ruas, a gritar pelo filho, a reclamá-lo daquele mundo indiferente que formigava em torno de sua perplexidade.
E, por mais que se quisesse fingir forte, uma aflição crescia-lhe dentro e tomava-lhe a garganta. Tremiam-lhe as pernas e os olhos marejavam-se-lhe de lágrimas.
— Mas V. Ex.ª não disse que seu filho morava nas Laranjeiras?...perguntou o velho, compreendendo a perturbação de Ângela.
— Sim, foi para aí que ele me mandou dirigir as cartas...Tenho até aqui comigo o número da casa, mas, depois disso, já recebi a tal notícia da prisão , e...
— Bem, interrompeu o outro — o mais certo é irmos até lá. — Se não encontrarmos o rapaz, havemos de achar alguém que nos dê informações. É mais um instante! Eu ainda posso acompanhá-la ; não tenho pressa; o melhor, porém, seria tomarmos um carro.
— Não, não! respondeu a senhora, sempre inquieta, a olhar para todos os lados, como se esperasse, por um acaso feliz, descobrir Amâncio, de um momento para outro.
Estavam já na Rua Direita. Ela, de repente, estacou e pôs-se a fitar a vidraça de um armarinho.
— Algum conhecido? Perguntou o velho.
— Não. É que estes chapéus...tenha a bondade de ver se consegue ler aquele nome...eu, talvez me enganasse...
O velho leu distintamente ”Amâncio de Vasconcelos”. — É o título! Disse. — Eles agora batizam as mercadorias com os nomes que estão na moda. Algum tenor!
— É singular!...balbuciou a senhora.
— Por quê?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.