Por Aluísio Azevedo (1897)
Ambrosina fez um ar concentrado, foi até ao sofá, assentouse, cruzando as pernas e deixandose cair sobre as almofadas; depois ofereceu a Gustavo um lugar ao pé de si, e disselhe:
— Queres que te fale com toda a franqueza?
— Decerto.
— Olha lá!
— Não quero outra cousa.
— Talvez venhas a arrependerte e nesse caso o melhor é ficarmos calados...
— Não! Fala!
— Bem; vais ouvir então o que nunca imaginaste, nem eu a ninguém revelaria espontaneamente... vais saber de cousas minhas, cuja transcendência nem compreenderás talvez. Vou levantar a lousa de meu coração e consentir que, pela primeira vez alguém penetre nele. Coragem, e escuta!
Gustavo estremeceu da cabeça ao pés, e concentrouse ansioso, com a alma suspensa dos rubros lábios de leoa.
XLIV
VIVA NAPOLEÃO!
— Toda e qualquer mulher, principiou a Condessa Vésper, uma vez viciada pela ociosidade farta e pelo hábito quotidiano da satisfação de todos os seus instintos e de todos os seus caprichos, nunca jamais se poderá contentar com a banal existência de chá com torradas, que lhe ofereça um rapaz pobre e honesto, de roupa bem escovadinha, lenço cheirando a águadecolônia, e algibeiras cheias de máximas filosóficas em prosa e verso...
E, a um gesto interlocutório do amante, disse ela entre parênteses:
— Não tens de que te espantar com esta franqueza! Que Diabo, filho! eu bem te preveni!
E prosseguiu, sem esperar pela réplica:
— Acredita numa triste cousa, meu pobre Gustavo; essa denominação que vulgarmente nos conferem de "mulheres perdidas" é muito justa e muito verdadeira, pois com efeito não há salvação possível, para a desgraçada uma vez presa na voragem da ostentação mantida pelo próprio corpo. Podemos, por alguns dias, alguns meses, alguns anos até, reprimir e disfarçar os vícios da nossa vaidade; mas, lá chega um belo momento em que, só o simples espetáculo de uma mulher que nos passe defronte dos olhos triunfante no seu phaeton tirado por animais de raça, exibindo um rico vestido à última moda, e a idéia de que com uma simples pirueta na vida a suplantaríamos imediatamente, é quanto basta às vezes para tranverser toda a nossa pseudoregeneração e de novo atirar conosco à primitiva e sedutora lama! Não te revoltes, meu amigo! Falote com o coração nas mãos e segura do terreno em que piso. Para nenhum outro homem teria eu esta franqueza, porque isso me poderia acarretar gravíssimas desvantagens profissionais, mas contigo, que nada mais tens para mim do que o teu amor de poeta...
— Cínica! atalhou Gustavo.
— Oh! nada de palavrões! Não tens direito de enfadarte, nem eu estou agora disposta a uma cena violenta.
— Pois então não me provoques com palavras que me humilham!
— Não sei por que te hás de julgar humilhado. Suporás acaso que enxergo alguma superioridade nos homens mais ricos do que tu? Se eles têm mais dinheiro, é porque o herdaram, ou roubaram, ou o ajuntaram à força de paciência e economia; isso, porém, não vale a milésima parte do teu talento e ainda menos do pobre desprezo que tens pelas vaidades burguesas e pelas ambições vulgares. Todavia, filho, o teu talento, por maior, nem todos os teus brilhantes méritos, seriam capazes só por si de darme a deliciosa febre, o delírio do gozo de oprimir pela inveja às mulheres honestas, os loucos transportes dos vícios ultrahumanos e sensacionais, o insubstituível prazer de vingar esta carne que se vende, a ela escravizando e com ela envenenando os que a compram e conspurcam de beijos luxuriosos!
— Oh! Se me amasses, nem uma só dessas cousas te acudiria ao pensamento, quanto mais aos lábios!
— Mas, valhate Deus! tudo neste mundo é relativo. Se eu te não amasse, filho, não estaria tu aqui assim, ao meu lado, a pagarme em palavras duras o direito que meigamente te confio de dispor de mim, como se foras meu dono... Creio pelo menos não haver eu recebido nenhum decreto do Imperador, mandandome que te ature; se o faço é porque te amo, toleirão!
— Entretanto, disse ele, erguendose, bem diferente é o amor que me inspiraste!... Eu também vivia preso a uma outra vida, melhor que a tua; não feita de falsas e ostensivas vaidades, mas de justas e sinceras aspirações, e com a qual tive de romper por amor do teu amor... Sonhos, esperanças, ideais, tudo calquei aos pés, para às cegas seguir o destino que teus olhos avistassem! Tu não tens coragem para deixar um vestido à moda e um carro, e eu tive para abandonar o caminho que conduz a todas as considerações públicas e a todas as felicidades íntimas! Ah, não! tu não me amas, desgraçada! tu nunca a ninguém amaste!
— Como te enganas!... murmurou Ambrosina, com um suspiro profundo. Oh, se amei!
— Ah!
— Oh, se amei! Tudo o que agora sintas, e muito mais, tudo isso já passou por esta alma perdida e gasta!... Pede a Deus nunca te faça a ti sofrer o que eu sofri...
— Ah! então tu não me amas, porque já amaste demais? Não me amas porque foste já inteiramente de outro?! Oh! por piedade não me mates deste modo! por piedade não me fales em outro homem!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.