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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Sim: um tal nosso amigo, o Sr. Brás-mimoso, a quem se meteu em cabeça requestar a filha do Sr. Hugo de Mendonça, e que para espantar do lado dela os homens de mérito, que a possam pretender, atreve-se a dizer que ela é uma namoradeira...

Manduca interrompeu-se, ouvindo certo ruído semelhante ao de uma porta que se abre devagar.

— Que é isto? parece que nos escutam... disse Manduca observando.

— Não... não há aqui ninguém... seria o vento... ou alguma outra coisa...

Isto dizendo, Félix olhou para o guarda-roupa e viu uma das portas meia aberta, e pela fresta o olho do homem desconhecido.

— Mas, como ia contando, continuou Manduca, o tal Sr. Brás-mimoso arrojou-se a dizer que tu és um dos apaixonados de D. Honorina...

— É falso... é uma calúnia!

— Ora, isso não fez muito bom cabelo, nem à mana Rosa, nem a mim mesmo; um dia... houve lá em casa o diabo a quatro...

— Meu primo...

— Qual, meu primo, se tu estivesses lá, verias como se pôs a mana Rosa; olha que quando se enfeza é uma víbora; também tirando disso é uma pomba sem fel.

— Está bem... está bem...

— Pois a mana Rosa acreditou tudo quanto lhe quis dizer o Brás-mimoso; pôs a boca no mundo contra a pobre D. Honorina, e te desandou uma descompostura de tirar couro e cabelo; eu, que vi o caso mal parado, protestei, que o negócio havia de acabar bem, e aqui vim hoje, por não ter podido vir há mais tempo.

— Mas... meu primo...

— Espera, primo Félix, devo confessar-te que também tenho interesse na questão: eu estou perdido de amores pela filha do Sr. Hugo de Mendonça, e concebo minhas esperanças de alcançar a posse de seu coração; ideei um plano vastíssimo; estou cabalando para ser deputado provincial, e apenas encartar-me na assembléia e tiver pronunciado o meu primeiro discurso, que há de durar sessão e meia, apresento-me à moça... e tu bem sabes que uma fisionomia de deputado é sempre simpática, por conseqüência... mas que diabo ia eu dizendo?...

— Tu ias dizendo... ias dizendo...

— Ah!... por conseqüência é preciso decidir-te; levarei o teu sim à mana Rosa, e então toda a nossa família trabalhará de acordo comum para o meu casamento.

— Pois bem, primo; fico ciente do que exiges de mim, e pensarei para responder-te. — É que tudo já devia estar pensado há muito tempo.

— Como?...

— Digo que deverias ter pensado suficientemente, quando principiaste a fazer-te de engraçado com a mana Rosa...

— Manduca!

— Ora, vê lá se queres negar a mim mesmo: então a mim, que tantas vezes servi de pau de cabeleira!

— Contudo... quando se trata de um casamento, ninguém se resolve de repente... — Mal vai o negócio, meu primo; e se eu te perguntar qual era, portanto, o teu propósito, quando te punhas a piscar os olhos para mana Rosa?...

— Eu nunca lhe pisquei os olhos.

— Piscavas... e fazias mais; pisavas-lhe no pé por baixo da mesa; e, quando jogavas o diabrete com ela, ficavas sempre burro sem vergonha nenhuma...

— Primo... está bom: já te disse que me decidirei.

— Pois vamos lá... resolve-te.

— Daqui a quinze dias. — Não estou por isso.

— De hoje a oito dias...

— É muito; para esse tempo já a mana Rosa deverá estar casada.

— Isso é uma loucura!

— Loucura é andar desinquietando as filhas dos outros!

— Não posso responder agora; estou doente...

— Nada... já estás muito melhor, vamos ao caso.

— Tenho a cabeça em fogo.

— Não me importa isso; também em fogo anda a cabeça da mana Rosa. Vamos... vamos...

— Pois queres obrigar-me...

— Se tanto for necessário...

— Meu primo!...

— Anda... anda... vamos depressa, que mana Rosa me está esperando.

— Tu és um louco.

— Sim ou não?...

— Isto é insuportável!... exclamou Félix.

— Sim ou não?...

— Meu primo!... deixa-me!... deixa-me!...

— Sim ou não?...

— Meu primo!... isto chama-se abusar!...

— Sim ou não?... gritou Manduca.

— Não, não e não!

— Pois, então, disse Manduca com o maior sangue-frio, vamos ao morro de Santa Teresa pôr termo às nossas dúvidas.

— Um desafio?...

— Sem dúvida.

— Estarei às suas ordens amanhã todo o dia... agora é impossível... é noite.

— Nada: há de ser agora mesmo; eu não tenho medo de errar o tiro.

— Amanhã... amanhã somente.

Não senhor, nessa não caio eu; sei bem como se arranjam as coisas para chegar uma denúncia aos ouvidos do chefe da polícia...

— Senhor!...

— Agora, se está com medo... é outra coisa...

— Não! vamos!... já que o quer... saiamos!...

Félix, exasperado, dava um passo para sair, quando as portas do guarda-roupa se abriram, e o desconhecido saltou entre os dois.

— O Sr. Félix não pode sair, disse ele.

Félix tornou a cair sobre sua cadeira, enquanto Manduca, espantado, perguntou:

— Onde estava o senhor metido?...

— Dentro daquele guarda-roupa, respondeu ingenuamente o desconhecido.

— E, então, diz que meu primo não há de sair comigo?...

— Sim; e digo ainda mais, que ele o vai satisfazer prontamente.

— Como?...

O desconhecido voltou-se para Félix:

— Sr. Félix, a sua vida por hoje me pertence. Portanto, não a pode ir assim parar no jogo de um duelo: façamos, porém, por concluir isto amigavelmente... e tanto mais que o senhor seu primo tem que fazer comigo esta noite.

(continua...)

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