Por Inglês de Sousa (1891)
A moca estava comovida, os seus lábios trêmulos, os seus belos olhos chorosos diziam os sentimentos que as palavras do padre despertavam-lhe no peito. Quando o padre terminou dizendo que ninguém poderia sentir profundamente a sua morte, porque ninguém o amara, a rapariga fez uma negativa tão enérgica, que o padre eletrizado aproximou-se dela, sentou-se ao seu lado, com a cabeça perdida e a voz presa na garganta. Ficaram ambos enleados, namorando-se com olhos apaixonados. Os peitos arquejantes denunciavam a viva emoção que os unia num afeto ardente. Padre Antônio tinha os lábios secos, um forte tremor lhe sacudia as pernas, os braços, o corpo todo, dando-lhe a sensação dum frio intenso. A moça, de lábios entreabertos, com um sorriso doce, cravava nele os olhos, pedindo-lhe que falasse mais...
O Felisberto empurrou a porta, gritando muito alegre, que sempre contivera o touro no curral, para o impedir de comer o arrozal, mas vendo-os juntos, sentados na mesma cama, em atitude envergonhada, lançou ao padre um olhar de malícia velhaca, e gargalhou um riso nervoso e alvar, no gozo duma aspiração satisfeita.
A volta de João Pimenta, que no dia seguinte chegou de Maués, agitou novamente a questão da viagem de padre Antônio de Morais ao porto dos Mundurucus. O vigário de Silves não ousava adiar por mais tempo a realização do projeto de catequese, temendo despertar as suspeitas do velho índio, e logo que este lhe mandou dizer pelo Felisberto que estava às suas ordens, apressou-se em marcar a partida para daí a dois dias pela madrugada Clarinha tentou opor-se à partida, dizendo que aquela história de catequese não tinha razão de ser, que padre João da Mata para converter um tuxaua não precisaria sair de Maués, e que era pena arriscar uma vida preciosa para batizar tapuios.
Felisberto disse que entendia também que a viagem às tabas mundurucuas era uma asneira do padre, que ele Felisberto não compreendia. João Pimenta, porém, não manifestou opinião, e essa reserva obrigou o vigário, baldo de desculpas para a delonga, a insistir em partir no dia designado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.