Por Aluísio Azevedo (1881)
Ana Rosa sentia já certo interesse aterrorizado; quis de novo deixar a janela; agora, porém, o que se passava lá na rua atraía-lhe irresistivelmente o olhar. A fúnebre procissão aproximava-se entretanto chegando-se para a parede do lado em que ela estava Ia deixar de ver, mas não lhe convinha abrir a janela, por causa do vento; além disso ameaçava chuva; era até muito natural que estivesse chuviscando. Continuou a olhar atentamente, com o rosto achatado de encontro aos vidros.
A rede adiantava-se a pouco e pouco, jogando com a irregularidade da rua e do caminhar desencontrado dos carregadores; o que obrigava o lençol a fazer e desfazer fartas nugas instantâneas. Ana Rosa sentiu-se inquieta e sobressaltada, como se aquilo lhe dissera respeito; a rede ia desaparecer de todo a seus olhos, porque cada vez mais se aproximava da parede, já mal podia alcança-la com a vista. Céus! Dir-se ia que se encaminhava para a porta de Manuel!
Uma rajada de nordeste esfuziou nos vidros. Os chapéus dos transeuntes saltaram como folhas secas; as janelas de diversas casas bateram contra os caixilhos num repelão de cólera; o vento zuniu com mais força e, numa segunda refrega, arrancou de uma só vez o lençol que cobria a rede.
Ana Rosa estremeceu toda, deu um grito, ficou lívida, levou as mãos aos olhos. Parecia-lhe ter reconhecido Raimundo naquele corpo ensangüentado.
Duvidou e, sem animo de formular um pensamento, abriu de súbito as vidraças.
Era com efeito, ele.
O povo olhou todo para cima e viu uma coisa horrível. Ana Rosa, convulsa doida, firmando no patamar das janelas as mãos, como duas garras, entranhava as unhas na madeira do balcão, com os olhos a rolarem sinistramente e com um riso medonho a escancarar-lhe a boca, as ventas dilatadas, os membros hirtos. De repente, soltou um novo rugido e caiu de costas.
A mãe-preta acudira logo e arrastou-a para o quarto
A moça deixou atrás de si, pelo chão, um grosso rastro de sangue, que lhe escorria debaixo das saias, tingindo-lhe os pés. E, no lugar da queda, ficou no assoalho uma enorme poça vermelha.
CAPÍTULO XIX
No dia seguinte estaria tudo pronto! ele no primeiro vapor seguiria para a Corte, acompanhado da esposa, feliz, independente! sem lembrar-se, nunca mais, do Maranhão, dessa província madrasta para os filhos!'
Ao chegar ao Largo do Carmo, assentou-se num banco. Um vento fresco agitava as árvores: ameaçava chuva; ouvia-se o surdo e longínquo marulhar da costa, e, por ali perto, em algum sarau, urna garganta de mulher cantava ao piano a “Traviata”.
Raimundo passou a mão pela testa e reparou que estava suando] frio. Deram duas horas. Um policia aproximou-se vagarosamente r pediu-lhe um cigarro e o fogo, e seguiu depois, com ar preguiçoso de quem cumpre uma formalidade inútil aborrecida. E Raimundo ficou a escutar os passos sonoros do rondante, cadenciados com a regularidade monótona de uma pêndula.
Deram três horas Chuviscava.
Raimundo levantou-se e seguiu pela Rua Grande. “Agora talvez dormisse um pouco... Estava tão fatigado!...”” Quando atravessou o campo de Ourique, pensou sentir alguém acompanhando-o, olhou para os lados e não descobriu viva alma. “Enganara-se com certeza... Era talvez o eco dos seus próprios passos...” Continuou a andar, até chegar a casa.
Mas, do vão escuro, em que se formava 0 limite da parede, rebentou um tiro, no momento em que ele dava volta à chave.
Este tiro partira de um revólver fornecido ao Dias pelo cônego Diogo. Todavia, no instante supremo, faltara ao pobre-diabo coragem para matar um homem, mas as palavras do padre ferviam-lhe na cabeça, em tomo da sua idéia fixa. “Como poderia agora perder num momento o trabalho de toda uma existência, destruir o seu castelo dourado a sua preocupação, a coisa boa da sua vida?... Perder o jogo no melhor lance!... inutilizar-se reduzir-se a lama, quando, só com um ligeiro movimento de dedo, estaria tudo salvo!...”
Isto pensava o caixeiro de Manuel escondido na treva, por detrás de um montão de pedras e barrotes, ao lado dos espeques de um casebre em ruínas. Mas o tempo corria, e Raimundo ia entrar pra casa, sumir-se numa fronteira inexpugnável, e só reapareceria no dia seguinte, à luz do sol. “Era preciso aviar!... Um instante depois seda tarde, e Ana Rosa passaria às mãos do mulato e a cidade inteira ficaria senhora do escândalo, a saboreá-lo, a rir-se do vencido! E, então, estaria tudo acabado, para sempre! sem remédio! E ele, o Dias, coberto de ridículo e... pobre! “
Nisto, rangeu a fechadura. Aquela porta ia abri-se como um túmulo, onde o miserável sentia resvalar o seu futuro e a sua felicidade; no entanto, tamanha calamidade dependia de tão pouco! O grande obstáculo da sua vida estava ali, a dois passos, em magnífica posição para um tiro.
Dias fechou os olhos e concentrou toda a energia no dedo que devia puxar o gatilho. A bala partiu, e Raimundo, com um gemido, prostrou-se contra a parede.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.