Por Aluísio Azevedo (1882)
Seguiu-se então o mais estranho e enovelado processo de que se pode gabar a justiça brasileira. Nesse tempo não se falava noutra coisa: o escândalo agitou por muitos dias a curiosidade do público e fechou todos os personagens deste romance no mesmo círculo de interesse.
O conde de S. Francisco trazia consigo, felizmente, os documentos justificativos da herança que Gregório acabava de receber do Minho. Entretanto, era necessário descobrir os verdadeiros autores do roubo e do assassínio. O processo continuava.
Apresentaram a Gregório a fotografia de Pedro Ruivo. Gregório disse francamente o que sabia da vida daquele homem, contou as aventuras da Avenida Estrela; o delegado fez vir à sua presença o Papá Falconet, o padre Almeida, o Augusto e o Afonso, mas nenhum deles adiantou o menor esclarecimento.
Estava reservado a Tubarão destruir as trevas acumuladas em torno do crime. Foi ele quem chamou a atenção da justiça sobre o comendador Portela, quem falou nos documentos deste, quem contou a intervenção de João Rosa, o motivo do ataque que sofreu Pedro Ruivo e, finalmente, o roubo cometido pelo Talha-certo, que Tubarão afirmou se achar naquele momento escondido em casa do Portela.
Talha-certo, com efeito, foi encontrado ali e conduzido imediatamente para a casa de correção. O Gonçalves reembolsou parte do dinheiro roubado; o ladrão e assassino foi condenado a galés perpétuas, e o Portela gramou quatro meses de prisão e multa correspondente, além de perder de todo a esperança de casar com Matilde, a rica pupila do boticário Moreira, a qual havia coisa de um ano deixara a casa de D. Januária, para acompanhar uma família conhecida da sua, que seguia para S. Paulo.
Bem previa Portela que os tais documentos ainda lhe haviam de dar água pela barba!
O que causou grande impressão nos tribunais, foi a vida do marinheiro, contada por ele próprio, com toda a eloqüente singeleza da sua linguagem expressiva e grosseira.
Tubarão disse tudo o que sabia a respeito do seu saudoso comandante e falou em Clorinda, em Henriqueta e D. Januária. Esta circunstanciou o que havia a respeito de sua filha adotiva e relatou as particularidades da mesada, cuja suspensão coincidia com a morte de Leão Vermelho.
O conde pediu perdão a Clorinda por lhe haver tão violentamente arrancado o noivo dos braços, e disse que, daquele dia em diante, ela devia olhar para Gregório como para um irmão, pois que eram filhos do mesmo pai. Mas o marinheiro, com uma simples carta de Cecília, dirigida no Porto a Pedro Ruivo, provou que os dois moços nenhum parentesco tinham entre si e, na sua rude franqueza, patenteou a verdadeira procedência de Gregório.
Este compreendeu tudo, compreendeu que era filho do ladrão assassinado, e afastou-se do júri sumamente triste.
No dia seguinte, quando o velho Jacó, que acompanhava Gregório no palácio do conde de S. Francisco na Tijuca, entrou de manhã no aposento do amo, encontrou-o morto e coberto de sangue. Ao lado, sobre o velador, havia uma carta dirigida ao dono da casa.
A carta explicava minuciosamente que Clorinda era a única pessoa que tinha direito a herdar os bens de Leão Vermelho.
Esta inesperada e nobre morte abalou o Rio de Janeiro. O processo havia já atraído sobre Gregório a atenção do público e ligado aos fatos românticos de sua vida a curiosidade dos homens e o voluptuoso interesse das mulheres.
Não se falou noutra coisa durante muitos dias.
Alguns meses depois do enterro, que foi deslumbrante, encontramos Teresa. Estava muito acabada, muito desfeita. Com a morte de Olímpia, que era o seu único socorro, ficou completamente ao desamparo. Andava tirando esmolas e rezava na porta das igrejas ajoelhada sobre as pedras da rua.
Às vezes viam-na dormindo nos degraus do convento da Ajuda.
Ninguém mais soube dar notícias do João Rosa, e consta que o Dr. Roberto continua a viver muito bem com a sua inalterável e moleirona esposa, que ultimamente o presenteou de uma só vez com dois pequenitos.
Júlia Guterres vendeu a Clorinda o seu chalezinho da Tijuca, e retirou-se para Niterói. Jacó acompanha a família do conde de S. Francisco, e, ao que parece ainda hoje vive.
Fim
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.