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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Então, fechou novamente os olhos estremecendo, esticou o corpo — e uma palavra doce esvoaçou-lhe nos lábios entreabertos, coimo um fraco e lamentoso apelo de criança: – Mamãe!..

E morreu.

CAPÍTULO XXII

Começou logo a reunir povo na porta do hotel. Faziam-se grupos; os repórteres andavam num torniquete; via-se o Piloto por toda a parte, irrequieto, farisqueiro; e o fato ia ganhando circulação, com uma rapidez elétrica. Pânico sobressalto quebrava violentamente a plácida monotonia da Corte; mulheres de toda a espécie e de todas as idades empenhavam-se com a mesma febre na sorte dramática do infeliz estudante, e o Coqueiro, alado pela transcendência de seu crime, principiava a realçar no espírito público, sob a irradiação simpática e brilhante de sua corajosa desafronta.

Às dez horas da manhã já se não podia entra facilmente no necrotério, para onde fora, sem perda de tempo, conduzido o cadáver de Amâncio, entre um cortejo imenso de curiosos.

Choviam as interpretações, os comentários sobre o fato; todos queriam dar esclarecimentos, explicar os pontos mais obscuros do grande sucesso. “A bala atravessara-lhe as regiões torácicas e fora cravar-se num osso da espinha”, afirmava um homem alto, elegante, de cabelos brancos, cujo ar empantufado prendia a atenção dos mais.

Esse homem, que alguns tomavam por um médico, outros por qualquer autoridade policial; outros por um jornalista, outros por um dos professores da faculdade, onde estudava o defunto, não era senão o Lambertosa — o ilustre – gentleman da casa de pensão da Mme. Brizard.

E, sempre distinto, sempre viajado, pronto sempre a explicar as coisas cientificamente, agitava a bengala afagando a barriga bem abotoada, e de pernas abertas, pescoço duro, ia estadeando a sua “grande intimidade” com o célebre morto; citando fatos, contando magníficas anedotas que se deram entre os dois.

Ah! Era um moço de invejável talento! — Boa memória, compreensão fácil e gosto cultivado. Para a retórica ainda não vi outro...Não, minto — em Londres, em Londres, confesso que encontrei um outro nessas condições!...

E punha-se a falar de Londres, e passava depois à França, à Itália, à Europa inteira, e chegaria até aos pólos, se alguém quisesse acompanhá-lo na viagem.

Muitos outros dos antigos inquilinos de Mme. Brizard também apareceram no necrotério. Lá esteve a pálida

Lúcia, cheia de melancolia, a fitar o cadáver, em silêncio, com os seus belos olhos alterados pelo abuso das lunetas. Agora morava ela com o seu Pereira em Niterói, numa casa de pensão de um italiano, educador de cães e macacos. Era a terceira que percorria depois da Rua do Resende.

Lá esteve, de passagem, o Fontes, com as suas amostras de renda debaixo do braço; lá esteve o triste Paula Mendes, para fazer a vontade à mulher, que exigira ver a “vítima daquele grande cão!’; lá esteve o Dr. Tavares que parecia tomar cada vez mais interesse no “escandaloso assassínio”. E, quem diria? Até lá esteve o esquisitão do Campelo que muito dificilmente se abalava com as questões alheias.

Por toda a cidade só se pensava no “crime do Hotel Paris”; os jornais saíam carregados de notícias e artigos sobre ele, esgotavam-se as edições da defesa e da acusação de Amâncio; vendia-se na rua o retrato deste em todas as posições, feitios e tamanhos; moribundo, em vida, na escola, no passeio. E tudo ia direito para os álbuns, para as paredes e para as coleções de raridades.

Hortênsia, quando lhe constou o terrível desfecho daquele episódio que, na sua fantasia romântica, tomava as proporções de um poema, caiu sem sentidos e ficou prostrada na cama por uma febre violenta. Durante esse tempo, o marido procurava na prisão o assassino para lhe oferece os seus serviços e pôr à disposição dele o dinheiro de que precisasse. “Coqueiro podia ficar tranqüilo — nada lhe havia de faltar à família, nem mesmo a pensão de Nini.”

E foi em pessoa dar as providências para o enterro do outro.

* * *

O funeral atingiu dimensões gigantescas; parecia que se tratava das morte de um grande benemérito das Pátria.

Por influência do advogado de Amâncio, que era político e bem relacionado, compareceram muitos figurões e até alguns homens do poder. Houve senadores, ministros em vigor, titulares de vários matizes, altos funcionários públicos, artistas de nome, doutores de toda a espécie, clubes de todas as ordens, ordens de todas as devoções, jornalistas, negociantes, empresários, capitalistas e estudantes; estudantes que era uma coisa por demais.

A cidade inteira abalou-se, demoveu-se, para deixar passar aquela estranha procissão de um magro cadáver de vinte anos.

Veio muita gente dos arrabaldes. De todos os cantos do Rio de Janeiro acudia povo e mais povo a ver o enterro. As ruas, os largos, por onde ele ia, ficavam acogulados de gente; os garotos grimpavam-se aos muros, escalavam as árvores, subiam às grades das chácaras; as janelas regurgitavam, como num domingo de festa.

O caixão foi carregado a pulso , coberto de coroas; no cemitério ninguém se podia mexer com a multidão que afluía.

(continua...)

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