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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

E Gustavo entrava cada vez mais fundo no aviltamento, em cujo lodo a sua inteligência, arrastando as asas encharcadas, nem sequer ousava já erguer os chorosos olhos para nenhum dos seus primitivos ideais. Faltava­lhe agora coragem para tudo, para todo e qualquer esforço; era com dificuldade até que ainda comparecia ele de quando em quando ao seu emprego público, apesar das repetidas admoestações do chefe da repartição. Estava desleixado, preguiçoso, subserviente e tristonho. À tarde e à noite, nuns incoercíveis apuros de dinheiro, percorria as casas de jogo, jogando quando podia, e arranjando modos de jogar com as sobras dos alheios lucros, quando de todo lhe faleciam os próprios meios.

Um dia recebeu a demissão.

O que seria dele agora?... pensava desanimado. Ambrosina, porém, não se mostrou afligida ao receber tal notícia, declarou ao contrário que chegava a estimar o fato, pois assim o seu bebê ficaria dela exclusivamente.

E a queda do desgraçado ganhou daí em diante vertiginosas proporções. Gustavo chegou a aceitar obséquios reais da amante, e muitas vezes encontrou nas algibeiras dinheiro, que ele não sabia donde procedia.

Revoltou­se a princípio, mas Ambrosina, tapando­lhe a boca com a dela, lhe afogou a última reação do brio com a lama dos seus implacáveis beijos.

E assim quase dois anos decorreram. Por essa época justamente morria Genoveva no hospital. A pobre mulher consentira em ir morar com a filha, mas não pudera suportar por muito tempo o triste papel, que ao lado daquela lhe impunham as fatais circunstâncias do meio. Tinha às vezes, bem a contragosto, coitada! de intervir nas degradações de Ambrosina, e isso lhe doía ainda por dentro, como se lhe fosse direito a algum ponto de sua alma, porventura conservado intacto. Doía­lhe a cumplicidade nos embustes e tramóias da filha contra a bolsa dos libertinos ricos, nas mentirosas desculpas aos amantes explorados e iludidos, na comédia, sempre repetida, da conta apresentada por terrível credor no melhor momento de um matinal idílio, cujo preço devia, em boa consciência, estar já compreendido nas largas despesas da noite anterior. E ainda mais lhe doía o ver­se em muitos casos obrigada a comissões degradantes, passando por hipócrita e ávida de propinas quando tentava revoltar­se, fazendo rir quando de todo não podia conter o pranto, e ouvindo monstruosidades quando tentava escapar aos estroinas, que lhe davam palmadas nas ilhargas e derramavam champanha pela cabeça.

Em público, a Condessa Vésper achava muita graça em tudo isso, e aplaudia a estroinice dos seus libertinos com gargalhadas profissionais, mas em particular, quando se achava a só com a mãe, tinha para esta palavras de filha e pedia­lhe desculpa daquelas brutalidades. Genoveva, porém, não se consolava e, apesar das suas abstrações de demente, preferiu que a metessem num hospital, e no fim de contas lá morreu, inteiramente desamparada.

Ambrosina chorou nesse dia, mas, para não dar na vista, foi até ao Alcazar, e não deitou luto.

Pouco depois, Gustavo lhe apareceu uma bela manhã mais expansivo, e tomando­a pela cintura, disselhe que tinha arranjado um emprego rendoso, e queria propor­lhe uma cousa...

— O que vem a ser?... perguntou ela.

— Oh! uma cousa muito séria, cuja realização depende exclusivamente da resposta que me deres ao que te vou perguntar!

— O que é?

— Diz­me francamente, Ambrosina, tu me amas?...

Ambrosina olhou em silêncio para ele, e riu­se.

— Não zombes... Responde! Preciso saber se me amas deveras!...

— Mas para quê?...

— Preciso... Responde!

— Dize primeiro para que é...

— Pois bem; ouve: preciso saber se deveras me amas, porque se assim for, quero que despeças todos os teus amantes e fiques somente comigo!

— Ora essa! Para quê?... e por quê?...

— É boa! Porque te adoro! porque preciso de ti para viver! porque não posso continuar a suportar as tuas relações com outros homens! Agora, que já tenho um ordenado, desejo dividi­lo honestamente contigo, na paz de uma existência confessável, e trabalhar muito! Mas, para a realização de todos esses sonhos, é indispensável primeiro saber se me amas por tal forma que sejas capaz daquele sacrifício...

Ambrosina não respondeu; ficou a cismar.

— Então?... insistiu Gustavo, responde, minha amiga! uma palavra tua dar­me­á mais coragem que todos os clamores do meu caráter! Lembra­te de que por ti esqueci tudo, desviei­me do meu futuro, cortei minha carreira, acovardei­me, perdi­me! Vamos! Não me queiras obrigar agora a amaldiçoar o destino que nos aproximou! Fala! Diz­me alguma cousa!

— Mas o que queres tu que eu te diga?...

— Quero que me digas se me amas e se és capaz de um sacrifício por esse amor; se tens, finalmente, alguma cousa no coração que te dê ânimo para esquecer todo o passado, abdicar do luxo, privar­te dos prazeres ruidosos, e viver só comigo e exclusivamente do nosso amor! Fala! Dize! Lavra a minha sentença!

(continua...)

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