Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
O reitor governava o seminário, nomeava algum empregado subalterno de que havia necessidade e respondia pelo comportamento moral e religioso dos seminaristas.
O vice-reitor era o ecônomo da casa, dava todas as providências a fim de que nada faltasse daquilo que se garantia aos meninos, velava pela pontualidade dos atos da comunidade, fazia as compras necessárias, cobrava as rendas do patrimônio do seminário, bem como de uma terça parte do rendimento de um trapiche que se chamava da Ordem, e a que o estabelecimento tinha direito. Assistia ao refeitório e celebrava missa todos os dias às sete horas da manhã.
Os outros dois superiores eram um professor de latim que dava lições diárias das oito às dez horas da manhã e das três às cinco da tarde, à exceção das quintas-feiras, que eram dias feriados; e um professor de cantochão, que lecionava duas vezes por semana somente, nas tardes das quartas-feiras e sábados.
Criou-se também no seminário uma aula de música, que em pouco tempo desapareceu, deixando os seminaristas reduzidos ao monótono cantochão.
Já se vê que, em matéria de administração, nada podia haver mais simples, e em matéria de instrução nada podia haver mais pobre e limitado.
Não poderia merecer uma queixa razoável este simplicíssimo sistema administrativo. Não se sentia necessidade de uma administração complicada, nem de um grande pessoal dela incumbido.
Não me refiro ao que se passa no imperial colégio de Pedro II, que em seu governo interno está felizmente livre de notáveis complicações. Se, porém, quisesse falar de outras instituições e de diversos ramos da administração pública, provaria sem a menor dificuldade que, quanto maior é a nau, maior é a tormenta, que, quanto menos simples é o mecanismo do serviço e a teia administrativa, e mais numeroso o pessoal envolvido neles, tanto mais sensivel é a atrapalhação e tanto mais larga a sangria que recebe o tesouro público, sem que o Estado colha um proveito que realmente corresponda à elevação da despesa.
É verdade que as atrapalhações administrativas devidas ao pessoal numeroso empregado no serviço, que se subdivide e se sujeita a trinta mil seções, distinções, e mais isto e mais aquilo, são às vezes indispensáveis para se arranjarem afilhados de excelentíssimos padrinhos, e por conseqüência, não há que dizer, nem que notar. Pague o tesouro as custas e faça-se em quinze dias o que se podia acabar em dois ou três.
Direi oportunamente quais as modificações por que teve de passar a administração do seminário dos orfãos de S. Joaquim.
Quanto à instrução, que era impossível que mais resumida fosse, ainda assim era um apreciável benefício naquele tempo.
Os meninos que concluíam os seus estudos de latim e cantochão no seminário dos órfãos de S. Joaquim achavam nos seminários de S. José e da Lapa, e em uma ou outra aula, recursos para completar o seu curso de humanidades.
A maior parte dos seminaristas de S. Joaquim destinavam-se ao sacerdócio, e neste seminário gastavam quatro, cinco e às vezes mais anos em aprender o latim, embora somente de latim e de cantochão se ocupassem.
Ficais, sem dúvida, tomados de espanto, depois de receber esta informação.
Comparais os estudantes de outrora com os estudantes de hoje e vos sentis abismados, considerando a fácil compreensão da mocidade do nosso tempo.
Façamos justiça aos nossos maiores.
Houve então, como hoje há, belas inteligências e estudantes igualmente aplicados e talentosos. Hoje, porém, os sistemas de instrução se acham aperfeiçoados, os livros sobram, os mestres não faltam e pode-se aprender muito mais, e mais depressa.
Entretanto, é preciso não confundir a verdade com o sofisma. Podeis relatar-me trinta ou quarenta fatos de meninos prodígios que em dois ou três anos, e até mesmo em alguns meses, aprenderam latim, francês, inglês, história, geografia, aritmética e geometria, filosofia, retórica e outras coisas mais, e foram aprovados com louvor em seus exames de preparatórios em certas academias do império.
Não ponho em dúvida os fatos. Mas não creio no prodígio. Todos sabem como esses milagres se arranjam, e apesar do patronato, o menino prodígio não passará de um nihil in omnibus.
Aprendia-se antigamente o latim durante cinco anos e mais nos seminários. Mas os estudantes saíam das aulas sabendo alguma coisa, e os padres liam o seu breviário com consciência e entendendo o que liam, o que era por certo muito melhor do que ver-se um analfabeto que, aborrecido da taverna em que é caixeiro, determina ser padre, e no fim de alguns meses toma ordens de presbitério sem saber como concorda o sujeito com o verbo, sem poder cantar uma epístola, se não entre um chuveiro de silabadas e fazendo ouvir a palavra de Deus sem compreendê-la, como um papagaio que repete: “Quem passa? É o rei que vai à caça.”
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.