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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Quando a porta se abriu, e Manduca entrou, os dois primos recuaram boquiabertos e ficaram espantados um do outro.

Havia seis dias que Félix não via Manduca; ora, a enfermidade e a medicina tinham-se dados as mãos para pôr o pobre rapaz com um físico de espantar crianças.

Pálido, descarnado, com os olhos encovados e sombreados por duas notáveis olheiras roxas, com o grande nariz que de seu pai tinha herdado, tão afilado como luzente, com enormes mãos caídas esquecidamente das mangas da casaca, com as pernas muito finas, em uma palavra com todo o corpo dançando largamente dentro da roupa que vestia, Manduca semelhava uma múmia.

Félix, no estado de exacerbação em que se achava, pouco sentiu faltar-lhe para crer-se na presença de uma alma do outro mundo; mas, em compensação, Manduca teve também de que espantar-se.

Félix estava ainda mais pálido que seu primo; seus olhos, possuídos de indizível expressão de terror, vagavam incertos e espantados em derredor dele; convulsivo tremor quase que o não deixava suster-se em pé, e, querendo encobrir sua perturbação, o moço espalhava à força em seus lábios um sorriso insípido e mal fingido, que estremecia terrivelmente, obedecendo à convulsão dos músculos labiais.

Depois de um momento de admiração silenciosa, Manduca rompeu o silêncio:

— O que é isto?... o que tens, primo?...

— Nada, balbuciou Félix, absolutamente nada... eu sofri... um ataque nervoso... minhas loucuras... tinha passado uma noite em claro... em orgia... depois... um dia inteiro a trabalhar...

— Então, por que não vem o médico?...

— Não!... nada de médicos: tudo está acabado; estou bom; perfeitamente bom... — Sim... mas...

— Mas é que também estás muito abatido, primo, sofreste muito então?...

— Apenas hoje pude levantar-me.

— E vieste logo ver-me; obrigado... nós nos estimamos sempre muito...

— Porém, a minha visita de hoje não era puramente de amizade; eu vinha falar-te sobre objeto muito grave.

— Muito grave?... perguntou Félix estremecendo tão violentamente, que se agarrou à cadeira, onde se sentara; muito grave?... e para quem?...

— Para ti, e para...

— Para mim!!!

— Todavia, acho-te em estado tão cruel, que julgo melhor deixar para amanhã.

Félix pensou um instante; em sua vida só havia um crime; esse crime era absolutamente conhecido do homem que oculto os estava ouvindo; portanto, não teve receio de que Manduca falasse; o que o podia envergonhar já não era mistério para aquele; de nada mais se acusava Félix; além disso, se era de seu crime, que vinha seu primo ocupá-lo, fazia-se preciso conhecer quanto os outros sabiam desse segredo fatal, para mais acertadamente prevenir as conseqüências. — Meu primo, disse, pois, Félix, convém não demorar, o que é importante; eu estou pronto para ouvir-te.

— E se o que eu vou dizer te fizesse mal?...

— Não; nada mais sofro; fala.

— Pois como insistes, lá vai.

Manduca dispôs-se a começar, mas esteve bons cinco minutos a preparar um exórdio para seu discurso. O pobre rapaz, que tinha suas vontades de ser orador, esquecia-se de que o gosto da época e do país, quanto a discursos, não se dá muito nem com forma, nem com matérias, nem regras; o que se quer é falar, e falar muito: a beleza do discurso está na razão direta do tempo que se gasta em pronunciá-lo, embora se diga muita coisa vã, fútil e intempestiva.

Graças à sua pouca habilidade, Manduca convenceu-se de que não arranjaria um exórdio capaz nem em quinze dias; e, pois, começou ex-abrupto, dizendo:

— Meu primo, tu sabes que eu sou irmão de minha mana Rosa...

Em outras circunstâncias Félix teria interrompido a seu primo com uma risada; mas, na triste posição em que se via, contentou-se com dizer:

— Eu sei.

— Pois que a mana Rosa é minha irmã, segue-se que eu devo ter todo o cuidado nela. — Sem dúvida.

— Ora, acontece que anda-me ela de cabeça à roda por tua causa... — Por minha causa?...

— Que tu a tens entretido com esperanças de casamento, sei eu muito bem.

— Está bom, primo, pensei que querias falar de outro objeto. Trataremos disso amanhã ou depois; temos muito tempo.

— Nada, agora já que principiei hei de acabar. Sim, senhor, como ia dizendo... com que... o que dizia eu?...

— Primo, falaremos disso em outra ocasião.

— Pior é essa, meu primo: já te disse que hei de acabar o que comecei. Estava eu dizendo que tu lhe tens dado esperanças de casamento...

— Sim... e depois?...

— É que aqui não temos depois: o que se há de fazer amanhã, faz-se hoje... o que se promete, cumpre-se.

— Manduca... está-me doendo a cabeça.

— O negócio também não é para tanto; acaba-se tudo com um sim, ou com um não; isto é, com o sim, ficamos arranjados.

— E com o não?...

— Hás de dizer-me o porquê.

— E se eu disser, pode ser?...

— Eu cá não me entendo com pode ser. A mana Rosa já está em idade de casar e é de crer que não tenha vontade de esperar muito tempo. Além disso...

— Além disso o quê?...

— Há um célebre noveleiro que anda espalhando boatos pouco agradáveis...

— Boatos?... perguntou Félix estremecendo de novo.

(continua...)

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