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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

De repente, como se uma resolução enérgica lhe tivesse afogueado o sangue, o touro recuou três passos, e arremeteu com a cerca num ímpeto tal que em parte a derribou e pôs meio corpo fora. O ruído dos paus quebrados arrancou a Felisberto ao encanto melodioso das próprias palavras. O neto do tuxaua, receando que solto o touro se atirasse às plantações novas, estragando o trabalho de muitos dias, correu a acudir ao desastre, gritando que se o maldito se soltasse, o avô ficaria danado quando chegasse de Maués. Padre Antônio, desinteressado, retirou-se para o seu dormitório passageiro, à procura dum livro - um dos dois livros do finado padre santo - com que dava pasto ao espírito nos intermináveis vagares do sítio da Sapucaia.

A Clarinha lá estava. Curvada sobre o leito, a fazer a cama, oferecia-lhe às vistas a redondeza cativante das formas rijas de mameluca jovem. A comoção do padre foi tão grande, ao ver-se a sós no quarto com a encantadora rapariga, que ficou algum tempo sem movimento. Mas não devia perder aquela ocasião que o acaso lhe deparava e o loquaz tapuio não deixaria renovar-se facilmente. Era preciso vencer a timidez de seminarista, abalançar-se a uma declaração de amor! Aí estava, porém, toda a dificuldade. Jamais se resolveria a pronunciar a sacrílega palavra, e com certeza deixaria fugir aquela ocasião única! Não, não, jamais poluiria os lábios com palavras impróprias da sua dignidade sacerdotal. Sufocaria aquele insensato amor, aquela paixão criminosa, embora ela tivesse de reduzir-lhe o coração a cinzas. Morreria desesperado e louco, mas não ofenderia a pobre menina, confiante e carinhosa, falando-lhe dum sentimento que a moral e a religião repeliam, e que ela não poderia aceitar sem perder a alma pura e inocente. Entretanto, ao passo que assim pensava, uma agitação extrema o perturbava, como se tivesse diante de si um tesouro inapreciável a que bastasse estender a mão para o possuir. O vento de virtude que perpassara pelo seu cérebro exaltado abalara-o profundamente, e inconscientemente, sem saber o que fazia, torturado por uma angústia, começou a falar, doce e convincente, com uma tristeza infinita na voz, mal percebendo o efeito das suas palavras sobre a rapariga, que a princípio se voltara surpresa e, depois, se deixara ficar sentada na cama, ouvindo-o de olhos baixos, com os braços caídos, inertes, para o chão.

O coração do padre foi-se abrindo pouco a pouco, com a precaução com que abriria uma gaiola de pássaros gentis, para não deixar sair os sentimentos a uma, em tropel confuso. Disse que felizmente para ela e infelizmente para ele, em breve teria de retirar-se daquele abençoado sítio de que levava as mais gratas recordações da vida. Deixaria de incomodar aquela boa gente, e muito mais cedo do que o poderiam supor, teriam notícia de sua morte em alguma aldeia de mundurucus. A moça levantou para ele os olhos úmidos de lágrimas, como se aquela idéia de morte lhe cortasse o coração.

Sim, continuou padre Antônio, morreria em breve, e dele naquela casa ficaria a lembrança dum hóspede importuno.

E como a rapariga protestasse com um sinal de cabeça gentil, ele, por sua vez, repetiu que todos os obséquios recebidos no sítio da Sapucaia lhe ficariam para sempre gravados na memória. Não pensasse a Clarinha que dizia uma banalidade amável, não sabia mentir, ainda que para agradar ou agradecer favores. Desde a sua infância, passada na triste fazenda paterna, erma de afetos, nunca tivera o sorriso carinhoso duma mulher, mãe ou irmã, a animá-lo no caminho escabroso da vida. E quando se vira doente, perdido em pleno sertão, numa casa estranha, entre gente que pela primeira vez o via, e que o amparava na desgraça, uma mulher lhe sorrira, tratara-o com o afeto de mãe e irmã ao mesmo tempo, despertando-lhe no coração as mais doces emoções que tivera a sua mocidade árida e isolada, toda preenchida pelo estudo e pela dedicação austera do sacerdócio. Essa mulher, era ela, a Clarinha, sempre solícita, bondadosa e paciente, aturando as impertinências e rabugices da moléstia, passando noites em claro para velar-lhe à cabeceira, dandolhe coragem e resignação, exortando-o a viver quando o sofrimento o despenhava no desespero. Agora, que tinha de seguir o seu fadário, cumprir a missão que se impusera, terminando por uma morte gloriosa e útil uma vida estéril, queria ao menos, como alívio e derradeiro consolo, dizer-lhe, assegurar-lhe que jamais se esqueceria dela, da sua bondade, dos seus carinhos, e que na hora da morte, se alguma idéia, algum pensamento profano pudesse acudir-lhe, seria o de Clarinha, meiga e afável, dedicando-se, sem vislumbre de interesse, pela vida do hóspede melancólico que o acaso lhe trouxera...

(continua...)

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