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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

E envolveu-lhe a testa com um lenço encarnado de seda.

— laia quer que eu te ajude?

— Não, mãe-pretinha, fique; você deve estar cansada.

A preta assentou-se junto à rede, encolheu as pernas, que abrangeu com os braços, e pôs-se a cochilar, escondendo a cara contra os joelhos. Ana Rosa levantou-se muito fraca e, lentamente, apoiando-se nos móveis, atravessou por entre o desarranjo do seu quarto e foi até à sala.

Fazia má impressão vê-la com aquele andar vagaroso e triste, acompanhado de suspiros e descaimentos de pálpebras. Parecia convalescente de uma longa moléstia grave; estava cor de cera, com grandes olheiras roxas; muito puxada, os cabelos, despenteados e secos, caíam-lhe por debaixo do lenço vermelho, que lhe dava à cabeça certa expressão pitoresca e graciosa Dela toda respirava um tom melancólico e dolorido: o longo roupão, desabotoado sobre o estômago, arrastando-se negligentemente pelo chão, os braços moles, as mãos frouxas, o pescoço bambo, os lábios entreabertos, estalando de febre, o olhar morto, infeliz, mas embebido de ternura. tudo nela transpirava um tácito queixume de fundas mágoas escondidas. Seus pezinhos traziam de rastros umas chinelas de criança e, por entre a abertura do vestidos, via-se-lhe a camisa de rendas amarrotada e um cordão de ouro escorrendo pela brancura do seio, com um pequeno crucifixo que se lhe balançava entre os peitos.

E, com a resignação dos doentes que não podem sair do quarto, passeava pela saia o seu isolamento, procurando entreter-se a examinar os objetos de cima dos consolos, minuciosamente, como se nunca os tivera visto. Tomou entre os dedos um galgozinho de jaspe e ficou a observá-lo um tempo infinito. P que seu pensamento não estava ali; andava lá fora, em busca de Raimundo em busca do seu cúmplice estremecido, o autor daquele delito que ela sentia dentro de si, enchendo-a de alegria e de medo. Amava-o muito mais agora, tal como se o seu amor crescesse também como o feto que se lhe agitava nas entranhas. Apesar da estreiteza da situação, achava-se cada vez mais feliz; sonhara a ventura de ser mãe e sentia-a realizar-se no seu corpo, no seu ventre, de instante a instante, com um impulso misterioso, fatal incompreensível. “Era mãe!... Ainda lhe parecia um sonho!... “

Impacientava-se por preparar o enxoval do seu filhinho Um enxoval bom, completo, a que nada, nada, faltasse Ah! ela sabia perfeitamente como tudo isso era feito; qual a melhor flanela para os cueiros quais as melhores toucas e os melhores sapatinhos de lã. Via em sonhos um berço junto a sua rede, com um entezinho dentro, todo rendas e fitas cor-de-rosa, a vagir uns princípios de voz humana. E fazia-se muito pressurosa, a queimar alfazema, para defumar os panos da criança; a preparar água com açúcar, para curar-lhe as cólicas; a evitar em si mesma o abuso do café e de todo o alimento que pudesse alterar-lhe o leite, porque ela queria ser a própria a criar o seu filho, e por coisa nenhuma desta vida, o confiaria à melhor ama. E, a pensar nestas coisas, que, aliás, nunca ninguém procurara ensinar-lhe, esquecia-se inteiramente dos vexames e das dificuldades que a sua falsa posiçãoteria de levantar; nem sequer, lhe passava pela idéia a hipótese de não casar com Raimundo. “Oh, isso havia de ser, desse por onde desse e sofresse quem sofresse!”

Assim lhe correu o dia. Só despertou dos seus devaneios às duas e meia da tarde, quando o sino da Sé badalou o dobre dos finados “Por quem estaria dobrando?...” perguntou de si para si, tomada de compassiva estranheza. Parecia-lhe absurdo que alguém cuidasse em morrer, quando ela só pensava em dar à vida aquele outro alguém que tanto a preocupava.

Todavia, o dobre continuou ao longe, rolando no espaço, como um soluço que se desdobra. E aquele som lúgubre, ali, na saia toda fechada, parecia fazer o dia mais triste e o céu mais sombrio e chuvoso. Ana Rosa sentiu um ligeiro tremor de medo indefinido arrepiar-lhe as carnes; lembrou-se de rezar, chegou mesmo a dar alguns passos na direção da alcova, mas deteve-a um rumor de vozes que vinha da nua.

Foi até à janela. O zunzum do povo crescia “Alguma briga!...” pensou ela, encostando a cara na vidraça, para espiar o que se passava lá fora

O motim recrescia à proporção que um grupo imenso de homens e mulheres se aproximava cheio de curiosidade Ana Rosa pôde então compreender a causa do ajuntamento: dois pretos traziam um corpo dentro de uma rede, cuja taboca carregavam no ombro

— Credo! Que agouro!... disse impressionada.

E quis afastar-se da janela, mas deixou-se ficar, por curiosidade. “Algum pobre homem que ia doente para o hospital... ou talvez fosse algum defunto, coitado!...” E procurou pensar no filho, para desfazer a impressão desagradável que acabava de receber.

O corpo estava inteiramente coberto por um lençol de linho e parecia ser de um homem de boa estatura. Algumas manchas vermelhas destacavam-se aqui e ali na brancura do pano.

(continua...)

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