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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— Como vinha o ladrão carregado! disse o Talha-certo, sacudindo de alegria pela descoberta que acabava de fazer.

— E os documentos?... perguntou Tubarão.

— Não estão naturalmente com ele, mas temos aqui coisa melhor: Um dinheirão! O maroto havia feito hoje uma linda colheita!

— Então tudo isso é dinheiro? perguntou o Tubarão, admirado por sua vez.

— Em magníficas notas do tesouro! respondeu o Talha-certo.

— Então foi algum roubo... não te parece?...

— Sei cá; o que te afianço é que isto não nos fará peso nas algibeiras...

— Não sou dessa opinião! resmungou o seu cúmplice. Dinheiro roubado pesa sempre, quando menos na consciência!

— Ora! replicou o Talha-certo, depois de acabar a revista das algibeiras do Ruivo, e tratando de afastar-se com o dinheiro para longe. Quem rouba a ladrão tem cem anos de perdão!

— Estás enganado! gritou-lhe o outro. Quem rouba a ladrão, fica ladrão como ele! Esse dinheiro será entregue ao dono, quer queiras, quer não queiras!

— Essa agora tinha graça!... considerou o outro. Era melhor que fôssemos nós daqui direitinhos entregar-nos à polícia.

— Podemos fazê-lo chegar às mãos do dono, sem que se saiba donde ele procede...

— Nesse caso, restituirás tu a tua parte. Vamos dividi-lo; cada um dará o destino que quiser àquilo que lhe tocar.

— Não! contradisse o Tubarão. Havemos de entregá-lo todo ao dono!

— Isso agora já passa à birra, replicou Talha-certo, impacientando-se. Que você faça fúrias com o que é seu, vá lá, mas com o que é dos outros!...

— Aqui não há meu, nem teu! nós não temos direito a ficar com aquilo que não ganhamos, nem tampouco nos deram!

— Mas que achamos! replicou ainda Talha-certo. Em todo o caso, vamos a casa dividir o cobre, e você da sua parte fará o que quiser... A minha pertence-me!

— Não! Tu me vais passar todo o dinheiro. Eu me encarregarei de restitui-lo ao dono.

— Ora veja se tenho algum T na testa!

— Eu é que te afianço que o dinheiro se há de restituir! Vamos! em teu poder não ficará ele!

Talha-certo, vendo que não conseguiria nada pela arrogância, resolveu comover o companheiro.

— Então, que é isso, Tubarão?... Que mania de escrúpulo é essa de tua parte com um velhaco daquela ordem? Olha! quem o mau poupa nas mãos lhe morre...

— Não se trata agora disso! replicou Tubarão: não se trata de dar cabo de nenhum mau; trata-se é de entregar um valor que nos não pertence. Enquanto querias uma ajuda para despachar aquele maroto, pronto! e não me arrependo disso; mas lá para roubar é que não me presto! Ou tu me entregas o dinheiro, ou eu te denuncio à polícia. Escolhe!

— Ora, deixa-te disso, pediu ainda o outro, procurando torcer o caráter do marinheiro.

— Já te disse o que tinha a dizer! volveu este. Ou entregas o cobre, ou vai tudo ao ouvido do Dr. Ludgero. Eu cá não sirvo de capa a ladroeiras! Não sou santo, mas nunca estas mãos se sujaram com o alheio!

E Tubarão, com ar firme de homem resoluto, ia forçar o companheiro a que lhe entregasse o roubo, quando este, recuando na ação destra da capoeiragem, acometeu contra ele, procurando abrir-lhe o pescoço com a navalha.

Mas Tubarão desviou-se prontamente, e a lâmina, mudando de direção, entranhou-se-lhe pelo pequeno peitoral do lado direito.

Talha-certo recuou com um novo salto e de novo investiu contra o companheiro, ferindo-o então no braço, porque o rijo marujo, apesar do sangue que lhe saltava da ferida, ainda se agüentava bem nas pernas e ainda se defendia, tentando apoderar-se do facínora.

Este deitou a correr, Tubarão tentou persegui-lo, mas a vista principiou a escurecer-lhe, as pernas a lhe fraquejarem, e com muito custo conseguiu ele chegar onde morava pobremente com um seu velho companheiro do mar.

O companheiro não estava em casa. Tubarão recolheu-se à cama e perdeu de todo os sentidos. Só os recuperou muito depois, quando a febre principiou a ceder. O médico, que o companheiro de casa fora buscar, recomendara que o não obrigassem a falar e não lhe dessem a beber senão os medicamentos receitados.

Entretanto, sabe já o leitor o caminho que, durante esse tempo, tomaram as coisas concernentes ao assassínio do Pedro Ruivo e ao roubo perpetrado na casa Paulo Cordeiro. A policia continuava a trabalhar, mas trabalhava muito reservadamente e quase sem resultado algum.

De Gregório ninguém dava notícias.

Nestas circunstâncias, chegaram as coisas ao ponto em que as deixamos, quando a desventurosa Clorinda se recolheu à casa de Júlia Guterres, onde a pobre velha Januária conseguia escapar ao peso dos seus sofrimentos.

Como vimos, a penetrante viúva foi a única que suspeitou das intenções de João Rosa e principiou a estudar a atitude que o antipático rapaz tomava ao lado da sua hóspede.

Por então, um paquete europeu ancorava na Guanabara e uma família saltava no cais Pharoux.

Nada menos que o conde de S. Francisco, a esposa, a filha e um moço de uns vinte e cinco anos, no qual o leitor, se o visse, reconheceria logo o nosso Gregório.

Ao lado deste caminhava o Dr. Ludgero, com o ar satisfeito de quem alcança

vitória.

(continua...)

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