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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

O leitor, que já sabe de quanto era capaz Ambrosina, poderá facilmente imaginar o que não teria feito esse formoso demônio para captar o amor do impressionável moço, e o modo pelo qual não ficaria este, de corpo e alma, seu escravo.

Arrastado a princípio só pelos sentidos, depois atraído pelo sentimento e pelo hábito, pouco a pouco se foi o mísero convertendo em amant au coeur da Condessa Vésper.

E tal situação lhe criava sérias dificuldades, porque, embora se recusasse Ambrosina aceitar das mãos dele qualquer dádiva de valor, impunha­lhe todavia a dignidade, ainda não vencida de todo, contrariar freqüentemente a generosidade da amante, o que para o infeliz representava verdadeiro sacrifício.

D. Joana, a cujo cargo se achava Estela havia já cinco meses, embalde tentara chamar de novo o hóspede ao bom caminho. Gustavo, além de não realizar o casamento com a rapariga no prazo combinado, parecia disposto a sacrificar a pobre senhora, não pagando as atrasadas contas do que devia. Ela, por sua vez endividada com os fornecedores, revoltou­se afinal e declarou que, em atenção às circunstâncias, guardaria a órfã consigo, mas quanto ao outro, que não estava absolutamente disposta a continuar a dar­lhe casa e comida, antes da solvência dos seus próprios compromissos.

Gustavo retirou­se da casa, abrindo mão de tudo que possuía, menos roupa, livros e manuscritos, e lá se atirou ele para o centro da cidade, à procura de um cômodo mobiliado em um desses coloniais edifícios do tempo da independência, cujas formidáveis e vetustas salas, de paredes de metro e meio, se viam agora tristemente transformadas em verdadeiras colméias de pinho forrado de banalíssimo papel de cor, e aos quais davam os seus sublocatários o pomposo título de "Palacete de hóspedes". Não era muito valioso o espólio do que, a saldo do seu débito, deixara com D. Joana o literato, mas quanta perseverança, e quanta privação de, pequenos gozos vulgares, não representavam esses modestos e adorados móveis, lentamente adquiridos à proporção que iam aparecendo os recursos e se oferecendo as propícias ocasiões! Além dos objetos de utilidade prática, havia também alguns quadros comprados ao belchor e algumas pobres esculturas, que de preciosas só tinham a boa vontade de quem as conservava com tanto carinho.

Mas foi­se tudo, e com essas frágeis cousas também se lhe foi o equilíbrio da vida e do trabalho, tão penosamente conquistado, para de novo abrir­se sob seus pés os negros alçapões da boêmia, com todas as suas desordens, martírios e vergonhas, mas sem lhe renascer, ao lado disso, aquela primitiva febre de concepção intelectual, com que dantes o visionário durante longas horas do dia ou da noite desenhava seus romances, apenas alimentando, além de suas esperanças, por um pão comprado na véspera no quiosque da esquina e uma caneca de café nem sempre quentes.

Ambrosina, entretanto, ia para com ele se fazendo menos amorosa e muito mais exigente em sacrifícios de ordem moral. Queria agora que Gustavo a acompanhasse todos os dias aos ensaios no Alcazar, e que à noite se conservasse na caixa do teatro enquanto durasse o espetáculo, e que a levasse às compras à rua do Ouvidor, e saísse com ela de carro a passeio pelo Catete e Praia de Botafogo.

O rapaz protestava, mostrando a falsa posição e o ridículo que lhe provinham de tudo isso, sem falar no perigo de perder o seu escasso emprego, única fonte de recursos certos que lhe restava.

A tais protestos seguiam­se arrufos e rompimentos, que apenas duravam horas e terminavam numa doída explosão de carícias mútuas.

Ainda lhe acudiam, todavia, súbitos lampejos de dignidade, e ele nesses lúcidos instantes tentava reagir com ânimo forte, mas Ambrosina, inexoravelmente, se desfazia em lágrimas e soluços, enleando­o todo com inéditos juramentos de amor e mil beijos enlouquecedores, aos quais cedia o desgraçado, cada vez mais prisioneiro e vencido.

De outras vezes eram os ciúmes que o arrebatavam. Nessas ocasiões Gustavo perdia de todo a cabeça e esbravejava furioso. Ela, porém, sorria de si para si e bem pouco se movia com tais crises, segura, na sua provecta experiência do amor libertino, de que por simples zelos nenhum homem abandona à mulher amada; e tratava então de seguir a boa tática aconselhada em tais ocasiões. Fechar os braços e negar os lábios, deixando que agora chorasse ele por sua vez, enquanto ela descansava os olhos e a garganta, tranqüilamente à espera dos indefectíveis afagos da reconciliação.

(continua...)

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