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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Vou principiar pelo princípio. Façam de conta que batia à porta do seminário de S. Joaquim um menino que queria entrar para ali. Havia lugares vagos em qualquer das três classes de seminaristas. Abria-se a porta.

O menino devia ser admitido com certas formalidades e eis aqui o que se praticava.

Se o menino era rico, o reitor o conduzia à igreja, cujas portas se abriam ao público, e depois de benzer os hábitos de seminarista, que o novo aluno trocava pelos seus vestidos seculares, fazia-o escolher e tomar o nome de algum santo, como se praticava nas casas professas, e enfim entoava um Te-Deum com toda a solenidade.

Mas se o menino era pobre, arranjavam-se todas essas cerimônias à capucha, no coro da igreja, e dispensava-se o Te-Deum.

Por conseqüência, os louvores a Deus eram rendidos pelo dinheiro que o menino rico vinha pagar e não pelo novo aluno que o seminário recebia, e que ia educar de modo conveniente ao Estado.

Passo a dizer-vos como se vestiam os seminaristas de S. Joaquim.

No interior do seminário traziam uma túnica de linho branco apertada com um cinto preto e calçavam meias brancas e sapatos pretos. Os pobres, porém, usavam a princípio sapatos de couro branco e traziam cinto de couro preto, em vez de cadarço dessa cor, com que se cingiam os ricos.

Nas solenidades dentro e fora do seminário os hábitos eram os seguintes: túnica, murça e barrete de baetilha branca, cinta de cadarço preto, uma cruz vermelha ao lado esquerdo da murça.

Dessas vestes brancas proveio aos seminaristas a alcunha de carneiros, por que eram conhecidos na cidade, e que provavelmente lhe foi posta pelos estudantes dos outros seminários, que, aliás, também foram alcunhados, como oportunamente direi.

O Padre Plácido Mendes Carneiro, sendo reitor do seminário de S. Joaquim, fez desaparecer completamente as diferenças que se notavam nos hábitos dos seminaristas ricos e pobres, bem como veremos que pôs termo a outras distinções e usos inconvenientes.

Este mesmo reitor obteve do Bispo D. José Caetano da Silva Coutinho, por despacho de 17 de agosto de 1811, a mudança dos hábitos dos seminaristas, que ficaram usando de túnica preta, barrete e meias da mesma cor, cinto roxo com uma pequena faixa, murça também roxa com uma cruz vermelha ao lado esquerdo e sapato com fivela.

Quando os seminaristas saíam em comunidade para alguma função ou cerimônia religiosa, iam assim trajados e levavam cruz alçada, cruz que se chamava pontifical, por isso que sustentava a tiara pontifícia e as chaves de São Pedro. Aos lados da cruz mostravam-se os competentes ciriais, e os seminaristas que levavam estas insígnias trajavam sobrepelizes que o seminário lhes fornecia.

Passados alguns anos, e tendo sucedido no reitorado ao Padre Plácido Mendes Carneiro, que fora nomeado cônego da capela real, o abade de Alverca, José dos Santos Salgueiro, o Bispo S. José Caetano permitiu, a pedido deste, que os seminaristas usassem de sobrepeliz, trazendo sobre esta a murça roxa e cabeção encarnado, com o que exultaram os jovens alunos por se acharem mais bonitos e vistosos que dantes.

O mesmo reitor conseguiu também do Sr. D. João VI para os seminaristas a concessão de uma medalha de honra, que eles traziam pendente de uma fita de seda preta, quando usavam hábito, e presa ao lado esquerdo do peito, quando se apresentavam de casaca.

A medalha era dourada e de figura oval. Em uma de suas faces via-se em relevo um livro atravessado por um cajado, lendo-se na circunferência pouco mais ou menos a seguinte inscrição: Pulitamum orphanotrophium divo Joachinodicatum. E na outra face estava a efígie do rei com esta outra inscrição:

Joannes Portugalioe, Brasilioe et Algarbiorum Rex et orphanorum Pater.

Asseveram-me que estas inscrições foram ditadas pelo célebre e venerando Silvestre Pinheiro.

Já se vê que os órfãos de S. Pedro, depois de terem mudado de nome uma vez pelo menos, mudaram ainda mais vezes de vestidos. Parece, porém, que gozaram de alguma consideração no reinado do Sr. D. João VI, pois que mereceram a concessão de uma medalha de honra. Mas isso não os livrou de perderem, nessa mesma época, o seu seminário, como teremos de ver em breve.

Cabia em tal caso lembrar o ditado que diz: “Pobre, quando vê muita esmola, desconfia.”

É, porém, conveniente não atropelar os fatos, nem confundir a história.

Ainda tenho bastante que dizer antes de chegar a essa primeira violência feita aos órfãos de S. Joaquim. Ficarei aqui, por hoje.

II

A administração do antigo seminário dos órfãos de S. Joaquim foi a princípio, e durante muitos anos, da maior simplicidade, e pouco mais ou menos como fora primitivamente a do colégio dos órfãos de S. Pedro.

O chefe supremo do estabelecimento era o bispo diocesano do Rio de Janeiro, sendo por provisão dele nomeados o reitor, o vice-reitor e os professores.

Os superiores do seminário eram quatro, a dois dos quais estava especialmente incumbida a administração.

(continua...)

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