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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

A sua vida foi sempre assim, sempre triste e fria dentro do coração, embora os lábios sorrissem obedecendo ainda à vaidade, que os mandava sorrir. Era uma vida partida em duas bem distintas uma da outra: uma, a vida exterior, que era a mentira, que lhe brincava no rosto; outra, a vida interior, que era a verdade, que lhe roía o coração. Resumidas e combinadas ambas essas vidas, davam em resultado a pior de todas: a vida de desgosto de si mesma.

Ao menos, porém, estava no meio de tudo isso, triunfando, a sua vaidade.

Ela era sempre rainha.

Mas uma noite... em uma dessas noites de festa, de ardor, de prazeres fugitivos, um mancebo se apresentou junto dela, deu-lhe o braço, e aproveitando um passeio, pronunciou a seus ouvidos duas palavras somente.

O terrível mancebo sabia tudo!...

A rainha caiu do seu trono... uma palavra só daquele mancebo a podia tornar objeto de sarcasmos e de maldições...

E a vaidade ainda triunfou. Mariana ainda se não quis resignar; e para continuar a ser incensada naquele mundo, que era tudo para ela, sujeitou-se a representar daí por diante o triste papel de escrava de Salustiano.

O resultado de tudo isto já não se ignora. Mariana estava sofrendo também o castigo de seu crime, imposto pelo poder de um homem.

E o seu destino tocava um terrível extremo. A hora fatal batia.

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A desgraçada filha de Anacleto havia ficado em seu quarto pasma e aterrada logo depois que seu pai a deixou só.

Agora é o começo da tarde.

Mariana havia descido, e achava-se sentada no sofá, na sala de visitas do “Céu cor-de-rosa”.

Tinha vindo esperar Salustiano. No entretanto meditava.

O aspecto da triste viúva trazia em si um não sei quê de sinistro. Seus supercílios, bastos e negros, estavam dolorosamente enrugados de modo que quase se confundiam um com o outro. No entretanto, e apesar disso, seus olhos brilhavam, mas não com o fogo da vida... todas as suas feições se achavam contraídas, e quando ela falava, notava-se em sua voz alguma coisa que se não podia explicar, mas que produzia uma impressão sobremodo desagradável.

Estava toda vestida de branco, mas trazia cingindo-lhe a cintura uma fita negra, cujas pontas caíam até o chão. Essa fita era lúgubre.

Conservou-se muito tempo na mesma posição, imóvel e indiferente a tudo. Parecia haver medido perfeitamente o fundo do abismo aberto debaixo de seus pés, e como que penetrada da certeza de não poder salvar-se dele. Não estava sossegada, estava inerte.

Mariana tinha tomado todas as medidas para não ser incomodada por testemunhas importunas naquelas horas. Seu pai deveria voltar bem tarde; e a rogos dela, Celina prometera não descer ao primeiro andar senão quando fosse chamada.

E, portanto, ela esperava somente uma pessoa; esperava Salustiano... a morte.

Depois de algum tempo de sinistra imobilidade e mudez, a viúva levantou a cabeça que tinha um pouco inclinada, e, como se falasse a alguém, murmurou com voz pausada:

– Eu lhe disse um dia, que ele se não lembrava de que se os homens sabem matar, as mulheres sabem morrer.

Sorriu terrivelmente, e disse:

– Provar-lhe-ei.

Sorriu de novo, e ainda mais terrivelmente; depois tirou do seio um pequeno embrulho de papel; abriu-o com mão firme e olhou; o que havia dentro era um pó branco.

– Arsênico!... balbuciou a mísera com ironia amarga e despedaçadora: arsênico!... o único amigo que nesta crise me acompanha e me salva é um pouco de arsênico!...

Guardou de novo o embrulho no seio, e depois prosseguiu:

– Vejamos se ainda me lembro do que li.

Ela pareceu recordar-se de alguma coisa, e foi repetindo compassadamente.

– Sabor acerbo e metálico... constrição de garganta... soluços... síncopes...

resfriamento do corpo... sede... vômitos... prostração... delírio... convulsões...

morte!...

Passado um instante perguntou a si mesma:

– E depois?!

E respondeu a si mesma com um tom horrivelmente lúgubre:

– Depois, a eternidade.

E estremeceu da cabeça até os pés.

Ficou por algum tempo muda, e como que aterrada; mas enfim começou a dar um livre curso a seus pensamentos.

– O suicídio!... o suicídio!... que quer dizer o suicídio? Quer dizer que um homem ou uma mulher tem horror de si mesmo, julga-se demais na terra, acusa-se perante si próprio, sentencia-se, condena-se e executa-se!... Oh! tenho eu o direito de matar-me?... Dizem que não; mas o mundo não tem também o direito de cuspirme no rosto.

– Mas a religião proscreve o suicídio... e o que faço eu?... troco um martírio horrível por outro mais horrível ainda... troco os martírios da carne pelos tormentos da alma... troco o mundo pelo inferno!

A mísera soltou uma risada nervosa.

– Ainda bem! prosseguiu; ainda bem que o sei... o inferno me pertence.

O rosto de Mariana tomou uma expressão medonha... ela murmurou no meio de uma dilatação de lábios, que não era riso, que era quase uma convulsão horrorosa:

– Eu sou um demônio... eu matei meu filho!...

Respirou dolorosamente e continuou:

(continua...)

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