Por Inglês de Sousa (1891)
Nessa manhã, no copiar da casa, banhado em cheio pelo sol brilhante de agosto que espalhava vida, luz e calor por todo o vale do Sapucaia, alegrando os pássaros do céu e os animais da mata, o Felisberto pela centésima vez contava como o padre santo João da Mata formara o sítio da Sapucaia para recompensar a dedicação do seu camarada João pimenta Em frente, ficava o curral do gado vacum, onde os bois, contemplando com o olhar triste a verde relva luzidia do campo e as folhas claras do arrozal da beira do rio, pareciam mordidos do desejo de se atirar pelo sítio fora, numa orgia de liberdade e de folhas verdes. Enquanto o Felisberto falava, padre Antônio de Morais pensava que até aquela hora ainda não se atrevera, ou não pudera, dizer à Clarissa o que sentia, e que perdia o tempo, na pasmaceira do sítio da Sapucaia, sem adiantar um passo na senda amorosa que se decidira a seguir, sentindo-se incapaz de resistir ao seu temperamento de campônio. Seria realmente o idiota do Felisberto que lhe criava os embaraços, ou o acanhamento invencível do novato, talvez um resto de dignidade ou mesmo remorso, que lhe prendia os movimentos e lhe dava um nó na garganta toda a vez que tinha de dizer alguma coisa à adorável criatura que lhe ocupava os pensamentos? Se tivesse ocasião de se achar a sós com ela, teria maior coragem, ou faltar-lhe-ia o ânimo de se declarar duma vez, rompendo com o seu passado, e com a fé do seu juramento? Era uma pergunta que a si mesmo dirigia pensativo, ouvindo o som monótono e corrente do fraseado do Felisberto, e olhando distraidamente para o curral onde o touro, o único touro da manada dava sinais de impaciência, escavando com os pés o solo e ameaçando com as pontas a cerca, que lhe tolhia a liberdade e o gozo do arrozal, mas hesitando ainda, em dúvida se poderia vencer a resistência. Padre Antônio não tinha uma resposta clara, desconfiava de si mesmo, e começava a pensar que talvez tivesse exagerado os perigos que corria no sítio de João Pimenta e a gravidade da moléstia que o afligia. Provavelmente o seu hediondo pecado não passaria da intenção, por muito condenável, mas que no fim de contas não lhe podia trazer os mesmos funestos resultados duma falta irremediável. Pecara gravemente contra a castidade, entregando-se complacentemente aos ardores estéreis de noites em claro, povoadas de imagens lúbricas, de desejos sensuais, mas a sólida educação, que recebera no Seminário, o fundo de religião e de moralidade com que o dotara a natureza e a firme vontade de ser superior às fraquezas humanas, sem dúvida venceriam, estava seguro disso e o reconhecia com orgulho, as tentações da sua carne de vinte e três anos. Agora que a noite passara, carregando consigo os sonhos bestiais, sentia-se incapaz de ultrapassar os limites do pecado intencional. O seu anjo da guarda o protegia, livrando-o das tentações do demônio durante o dia, quando mais fácil lhe era cair e se afundar na infâmia. Por um fenômeno singular, cuja causa ele buscava em vão, com o dia lhe vinham a calma, o bem-estar, o vegetar tranqüilo e satisfeito sob o olhar meigo da moça, iluminado pelo seu sorriso espirituoso e honesto. Sentia um prazer indefinível em estar assim, enchendo-se de emoções ternas e boas, com os sentidos adormecidos, sem pensar em coisa alguma, sem preocupações de qualquer ordem, deixando sucederem-se as horas uniformes no caminhar incessante do sol para o seu eterno fadário, e se não fossem o Felisberto, as tremendas estopadas que lhe pregava, moendo-o com a sua parolice interminável, de bom grado ficaria assim toda a vida. Não havia, pois, motivo para desesperar da salvação. Por um lado o Felisberto, por outro as boas tendências do seu espírito e do seu coração, o amparo da educação recebida e a proteção do seu anjo tutelar lhe impediriam a queda. Mas, coisa singular! esta idéia não o confortava, não lhe dava confiança no futuro, e a modo que o irritava, ou pelo menos, causava-lhe uma emoção desagradável, que ele procurava explicar pela insistência com que o Felisberto lhe espicaçava o fígado, saturando-o de aborrecimento. No fundo do coração, fraco e receoso, começava a aparecer como um sentimento de emulação infantil, o desejo de provar ao neto de João Pimenta que só da vontade dele, o padre Antônio, dependia o aproximar-se de Clarinha, e mesmo de afastar para longe o Felisberto e as suas eternas histórias, recendentes a cera e a incenso queimado. E enquanto o mestiço falava, com o olhar sereno e sem luz fixo no rosto do padre, as mãos cruzadas sobre o peito em atitude humilde, e a boca mole a escorrer verdades monotonamente proferidas, o missionário pensava, olhando distraído para o curral, onde o touro continuava a ameaçar a cerca, com má catadura, enfurecendo-se com a permanência do obstáculo que o impedia de gozar livremente o campo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.