Por Aluísio Azevedo (1881)
Raimundo passou a mão pela testa e reparou que estava suando] frio. Deram duas horas. Um policia aproximou-se vagarosamente r pediu-lhe um cigarro e o fogo, e seguiu depois, com ar preguiçoso de quem cumpre uma formalidade inútil aborrecida. E Raimundo ficou a escutar os passos sonoros do rondante, cadenciados com a regularidade monótona de uma pêndula.
Deram três horas Chuviscava.
Raimundo levantou-se e seguiu pela Rua Grande. “Agora talvez dormisse um pouco... Estava tão fatigado!...”” Quando atravessou o campo de Ourique, pensou sentir alguém acompanhando-o, olhou para os lados e não descobriu viva alma. “Enganara-se com certeza... Era talvez o eco dos seus próprios passos...” Continuou a andar, até chegar a casa.
Mas, do vão escuro, em que se formava 0 limite da parede, rebentou um tiro, no momento em que ele dava volta à chave.
Este tiro partira de um revólver fornecido ao Dias pelo cônego Diogo. Todavia, no instante supremo, faltara ao pobre-diabo coragem para matar um homem, mas as palavras do padre ferviam-lhe na cabeça, em tomo da sua idéia fixa. “Como poderia agora perder num momento o trabalho de toda uma existência, destruir o seu castelo dourado a sua preocupação, a coisa boa da sua vida?... Perder o jogo no melhor lance!... inutilizar-se reduzir-se a lama, quando, só com um ligeiro movimento de dedo, estaria tudo salvo!...”
Isto pensava o caixeiro de Manuel escondido na treva, por detrás de um montão de pedras e barrotes, ao lado dos espeques de um casebre em ruínas. Mas o tempo corria, e Raimundo ia entrar pra casa, sumir-se numa fronteira inexpugnável, e só reapareceria no dia seguinte, à luz do sol. “Era preciso aviar!... Um instante depois seda tarde, e Ana Rosa passaria às mãos do mulato e a cidade inteira ficaria senhora do escândalo, a saboreá-lo, a rir-se do vencido! E, então, estaria tudo acabado, para sempre! sem remédio! E ele, o Dias, coberto de ridículo e... pobre! “
Nisto, rangeu a fechadura. Aquela porta ia abri-se como um túmulo, onde o miserável sentia resvalar o seu futuro e a sua felicidade; no entanto, tamanha calamidade dependia de tão pouco! O grande obstáculo da sua vida estava ali, a dois passos, em magnífica posição para um tiro.
Dias fechou os olhos e concentrou toda a energia no dedo que devia puxar o gatilho. A bala partiu, e Raimundo, com um gemido, prostrou-se contra a parede.
Amanhecera um dia enfadonho, cheio de chuviscos e umidade. Pouca gente pela rua; nenhum sol, e um aborrecimento geral a abrir a boca por toda parte. Grossas nuvens, grávidas e sombrias, arrastavam-se pelo espaço, no peso da sua hidropisia; o ar mal podia contê-las. Ouvia-se um trovejar ao longe, que lembrava o rolar de balas de peça por um assoalho.
A casa de Manuel tinha a silenciosa quietação do luto; as janelas fechadas; os moradores tristes; a varanda e a sala de visitas totalmente desertas. Embaixo, no armazém, os caixeiros fingiam não saber de nada. Os pretos cochichavam na cozinha, com medo de falar alto, e iam dar trela à vizinhança, onde se comentava já o escândalo da véspera
Manuel só apareceu fora do quarto à hora do almoço, que nesse dia foi tarde, porque os escravos, privados da vigilância de Maria Bárbara e empenhados no mexerico, descuidaram-se das obrigações O pobre homem trazia no rosto, fotografada, a sua dor e a sua insônia tinha os olhos pisados e intumescidos. Mal tocou nos pratos, cruzou logo o talher e limpou com o guardanapo uma lágrima, que o lugar vazio de Ana Rosa lhe desprendera. Aquela cadeira sem dono parecia dizer-lhe com a tristeza: “Descansa, desgraçado, que filha nunca mais terás tu!...” Não quis descer ao armazém e fechou-se em cima, no seu escritório, recomendando que mandassem lá o Dias quando chegasse.
O sabiá trinava desesperadamente na varanda. Tinham-se esquecido de encher-lhe o comedouro.
Ana Rosa não saíra da rede; estava excitada, doente, toda nervosa, com uma irritação de estômago. A avó, cheia de mau humor, levara lhe um bule de chá de contra-erva, para a febre, e, depois de recomendar à neta que não saísse do quarto e fizesse por dormir, fechou-se com os seus santos, a rezar.
A rapariga ignorava o que ia lá por fora. Amância foi a única visita que apareceu, falando muito da palidez que lhe notara.
— Até lhe achei mau hálito, disse à Mônica, logo que saiu do aposento da enferma.
— É do estômago, explicou a cafuza. Ela, coitada, ainda hoje não comeu nada, e ainda não pregou olho desde ontem de manhã!
A velha passou à cozinha, à procura da Brígida, para indagar que diabo havia sucedido naquela casa, que andavam todos a modos de assombrados!
Ana Rosa achava-se, com efeito, muito abatida, num estado perigoso de irritação e fraqueza. Mônica obrigou-a a tomar um mingau de farinha, e ela vomitou-o logo.
— Hê, Iaiá! Isto assim não está bom!... censurava maternalmente a preta. Não te fica nada no bucho!
— Mãe-pretinha, pediu depois a moça, eu posso ir até à sala? Não cone vento; as vidraças estão fechadas!
— Vai, laiá, porém mete algodão no ouvido. Espera! agasalha a cabeça!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.