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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

ninguém ama com tanto ardor, ninguém se apaixona com tanto entusiasmo! Parece até que o homem, à proporção que envelhece, vai refugiando no coração todo o calor que lhe foge do resto do corpo. À proporção que lhe caem os dentes, que lhe deserta o cabelo, que se lhe entorpecem as pernas e se lhe tornam mais e mais trêmulas as mãos, tanto mais o coração se enrija e fortifica, para conservar inalterável e firme o seu derradeiro amor. Desaparece o olfato, apagam-se os olhos, somem-se o tato e o paladar, e o coração cada vez mais sente, mais deseja e mais vê!

Por que estranho ódio teria a natureza formado assim o coração do homem? Se lhe rouba do corpo as forças, os sentidos, as faculdades, se lhe toma os dentes, o sangue dos lábios e a frescura dos cabelos; se o torna feio, velho, insuportável, para que lhe deixa então o coração a pulsar cada vez com mais veemência e a pedir um amor que ninguém lhe dá?!

Júlia Guterres não se lembrara de fazer considerações destas, ao abrir os braços a Gregório, e depois teve com sacrifício de impor ao seu coração que se calasse, quando soube pela primeira vez que o desleal amante estava de casamento justo com Clorinda.

Corriam as coisas neste ponto, quando se realizou aquela conversa entre Portela e o seu capanga Talha-certo, ao saberem da reaparição de Pedro Ruivo.

O gatuno havia-se arranjado lá por S. Paulo com o tal fazendeiro de boa fé, a quem se agarrara com tamanho afinco, que a pobre vítima, para se ver livre dele, tratou de empregá-lo na casa Paulo Cordeiro, na qualidade de pregador de rótulos.

Mas Portela é que não ficou muito tranqüilo desde que o viu, e recomendou ao seu Talha-certo que lhe não perdesse a pista.

Talha-certo tratou imediatamente de procurar Tubarão e pedir o seu auxílio, porque Pedro Ruivo da primeira vez conseguira escapar-lhe das unhas. E o leitor já sabe o ajuste que houve entre aqueles dois no café da Menina do Bandolim, onde ficaram de encontrar-se no dia seguinte para realizarem a terrível incumbência de Portela.

Tubarão acompanhara o fâmulo deste, pelo simples fato de tratar-se do Ruivo; ele não era homem que se prestasse a fazer mal a quem quer que fosse, se o coração não se envolvesse nisso. Talha-certo sabia perfeitamente da velha rixa que havia entre os dois e, desde o seu malogrado bote contra o Ruivo, tratara de preparar o ânimo do outro para a primeira vez que viesse a precisar do seu auxílio.

Chegara afinal o momento, e Tubarão cedera.

Vejamos agora como se saíram eles dessa empresa.

Pedro Ruivo parecia regenerado depois que se arranjara na fábrica. Trabalhava pontualmente e recolhia-se para dormir a hora certa. Morava com um companheiro num cortiço perto do campo de Santana. E nos primeiros tempos, tão enfronhado viveu no serviço, que Portela ignorava completamente a sua presença no Rio de Janeiro.

O velhaco, entretanto, meditava novos planos de ladroeira; queria angariar a simpatia e a confiança dos superiores, para fazer com mais certeza a sua pontaria, quando porventura se apresentasse uma boa ocasião.

Essa ocasião apareceu. O caixa da casa, aquele Gonçalves, viúvo de Olímpia, teve uma vez de demorar consigo uma quantia superior, vinte contos de réis. Pedro Ruivo não o perdeu mais de vista, e preparou-se.

Se fosse necessário, o caixa seria assassinado. Mas assim não sucedeu, porque o gatuno encontrou ensejo de achar-se a sós com o dinheiro. Entrou pelos fundos da casa e penetrou engenhosamente no gabinete do caixa, tendo para isso preparado de antemão os fechos de uma das janelas que davam para esse lado.

Uma. vez senhor do dinheiro, tratou de ganhar a rua e de encaminhar-se para o seu cortiço.

Mal porém teria feito alguns cinqüenta passos, quando um homem lhe saiu ao encontro e lhe arremessou uma formidável cabeçada contra o ventre. Era Talhacerto.

Pedro Ruivo perdeu o equilíbrio e caiu de costas.

O outro, trepando nele, lhe perguntou pelos documentos de Portela. O agredido, em vez de responder, soltou um grito e segurou com ambas as mãos o peito, como se quisesse defender alguma coisa que ai trouxesse escondida.

Talha-certo, conduzido por esse movimento espontâneo, imaginou que ali estivessem os papéis que procurava, e intimidou o Ruivo a que se deixasse revistar. O Ruivo resistiu.

Talha-certo chamou então o marinheiro em seu auxílio e, depois de vendarem a boca do Ruivo, dispuseram-se a revistar-lhe o peito. O Ruivo debatia-se furiosamente.

— Tratante! gritou-lhe Tubarão; dá-me por bem esses papéis, se não quiseres ficar aqui mesmo reduzido a postas!

Ruivo, em vez de responder, arrancou-se das mãos de Talha-certo e sacou do bolso uma navalha.

Talha-certo, porém, havia de um salto avançado para ele, e cortara-lhe a garganta com uma navalhada. O Ruivo rosnou por baixo da venda que tinha na boca e, depois de tentar em vão segurar-se nas pernas, caiu de borco sobre a calçada.

O assassino revistou-lhe o peito; mas, em vez dos documentos do comendador Portela, encontrou os contos de réis, que a sua vítima havia pouco antes roubado.

(continua...)

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