Por Aluísio Azevedo (1884)
Reconheceu logo quer uma das cartas era de Lúcia; as outras deviam ser de seus próprios colegas ou, quem sabe?...de algum velho inimigo já esquecido por ele! —Tanta gente saíra despeitada da sua casa de pensão!...Ser credor é ser algoz!...exigir pagamento de uma conta a quem não tem dinheiro é exigir a sua inimizade eterna! Além disso, com os seu modos secos e retraídos, ele sempre fora tão pouco estimado na academia!...não tinha, como o “prosa” do Amâncio, gênio para agradar a todo o mundo; não tinha as lábias do outro: não sabia fazer” discursatas e falações” a propósito de tudo!...Era um infeliz, que todos evitavam — um leproso! um lazeiro!
E a dor, sem se resolver nas lágrimas que lhe faltavam, encaroçava-se-lhe por dentro, numa grande aflição.
— Agora, como se apresentar nas aulas?!...Com que cara suportar o riso sarcástico dos colegas?!...Como resistir à curiosidade brutal do público que o esperava impaciente por cuspir-lhe no rosto?!...Como passar debaixo daquelas mesmas janelas que despejaram flores à cabeça de Amâncio?!...— Amâncio! o homem que dormiu com sua irmã!...
E, maquinalmente foi à secretária e tirou o velho revólver que fora do pai.
Que estranhas recordações à vista daquela arma! Daquela arma que na sua infância o fizera chorar tantas e tantas vezes!...Belos tempos que não voltam!...
E contemplava distraído os bonitos do revólver — os arabescos de prata e madrepérolas com o brasão do velho Lourenço Coqueiro em ouro.
Rica peça! Artística, bem trabalhada; não se lhe enxergava sinal de ferrugem, nem desarranjo nas molas. — Também, que havia nisso para admirar se o dono tinha por ela uma espécie de fetichismo e andava sempre a bruni-la e a azeitá-la! Q Era o único objeto que lhe falava ainda das extintas grandezas do pai: Quantas vezes ele não ouvira o pobre velho cavaquear sobre as alegorias daquele rico brasão!...E quantas vezes, a tremer de medo, não o vira descarregar aquela mesma arma contra uma laranja que um escravo segurava com a mão erguida!
— Ah! bem que se recordava de tudo isso!...Parecia-lhe ouvir ainda gritar o pai, quando lhe metia à força o revólver entre os dedos. “Não! Isso agora hás de ter paciência! Tu, ao menos, ficarás sabendo dar um tiro!”.
E todavia, não fiquei sabendo...balbuciou o filho de Lourenço, a experimentar nos lábios o contacto frio do cano de aço. — Não fiquei sabendo dar um tiro, que, se o soubesse, acabaria aqui mesmo com esta vida estúpida e miserável!...
Se eu tivesse ânimo...pensou ele, estremecido com a idéia da morte — amanhã encontravam o meu cadáveres e não ficariam naturalmente fazendo de mim um juízo tão triste e tão ridículo! — Talvez até chegassem a amaldiçoar o outro e erguessem em volta de meu nome uma legenda respeitosa e compassiva...
Foi à gaveta, havia lá algumas balas, carregou a arma.
— Não há dúvida, é a melhor coisa que eu poderias fazer...reconsiderava Coqueiro, imóvel, a olhar indeciso para o revólver que tinha na mão.
Mas era bastante chegá-lo contra a boca ou contra um dos ouvidos, para que os seus dedos logo se paralisassem e para que um arrepio muito agudo lhe corresse pela espinha dorsal.
Faltava-lhe a coragem.
Duas vezes ergueu-o à altura da cabeça, duas vezes o desviou, com as mãos trêmulas e o corpo entalado numa agonia insuportável.
— É horrível! Resmungava ele. — É horrível!
Ia principiar de novo as tentativas, quando da rua uma forte matinada lhe prendeu a atenção. Um grupo se aproximava, entre cantarolas e algazarras de risos. Eram dez ou doze dos últimos convivas de Amâncio; haviam passado todo o dia e grande parte da noite a folgazar no Paris; muitos, como o autor da pândega, lá ficaram prostrados pela bebida, mas aqueles tiveram a fantasia de um passeio matinal ao Jardim Botânico e meteram-se barulhosamente no bonde.
Já no Largo do Machado, um deles, um, que de há muito trazia o Coqueiro atravessado na garganta, lembrou que seria mais divertido apearem-se ali e seguirem a Rua das Laranjeira. “A casa do velhaco era a alguns passos – bem lhe podiam cantar uma serenata debaixo das janelas!”
A idéia foi bem acolhida, e a ruidosa farândola despejou-se pelo caminho das Laranjeiras numa hilaridade pletórica de bêbados.
Só pararam defronte da porta de João Coqueiro. Através das vidraças e das cortinas de uma das janelas, viram transparecer dubiamente a trêmula morte — cor de uma luz avermelhada.
— Estás dormindo, ó Joãozinho dos camarões?! Berrou cambaleando o que tivera a idéia daquela romaria. — Dorme, dorme! É assim que fazem os sem — vergonhas de tua espécie! — vendem a irmã e põem-se a descansar no colchão que lhe deixou o amante!
Seguiu-se um estrupido de gritos e risos:
— Fora! Fora!
— Fiau, fiau!
— Larga essa casa que não é tua, gritou aquele. — É da outra! Ganhou-a com o suor de seu rosto! — Sai, parasita! — Sai! Sai!
E espocavam gargalhadas no grupo, e os guinchos sibilantes iam até o fim da rua :
— Fora!
— Fora! — Fiau
— Sai, cão!
— Deixa a casa, que não é tua! — Fora!
— Fora o cáften! — Fiau!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.